Um olhar sobre Galatéia

Pigmalião e Galatéia (1886), de Ernest Normand

Pigmalião, reza o mito, era rei de Chipre, sacerdote e um maravilhoso escultor. Além disso, era um homem que via nas mulheres seres belos, mas cheios de defeitos morais e atitudes condenáveis. Decidiu não casar-se, mas não conseguiu deixar de admirar a forma física do sexo oposto. Então, dedicou-se a criar uma estátua que fosse a mais bela de todas essas formas admiradas. Sendo estátua, ela não teria o comportamento abominável das outras mulheres. Pigmalião criou sua estátua de marfim, à qual chamou Galatéia. Aquela matéria inanimada era mesmo a forma feminina mais bela já vista. Imóvel, Galatéia era perfeita. Não errava, não discordava, não saía do seu pedestal.

O escultor estava cada vez mais apaixonado. Começou a desejar que sua criação virasse uma mulher viva, a quem ele pudesse amar com carnalidade. Afrodite, deusa do amor e da beleza, prestou atenção às suas súplicas. Ao voltar de um festival em homenagem à deusa, Pigmalião foi abraçar a estátua e notou que ela lhe correspondia. À antiga frieza do marfim se contrapôs uma cálida carne de ardentes vontades.

Pigmalião e Galatéia casaram-se sob as bênçãos da protetora Afrodite e, segundo a maioria das versões do mito, foram felizes para sempre e tiveram um filho. Há, porém, uma versão do mito que sustenta não se conhecer o destino dos dois depois da boda.
Escudados nessa versão, devaneemos. O devaneio é a melhor parte do mito, é a função dele. Pois, pois. Após o casamento, Pigmalião passou a conviver com uma mulher real, não mais com uma estátua. Isso poderia ter causado no marido um estranhamento que resultasse em uma ruptura irreversível, pela decepção com a humanidade agora constatada na esposa. Por mais que tenha sido moldada pelo escultor, há nuances em uma mulher que o homem não pode lapidar. Ao tornar-se mulher, Galatéia se expõe às vicissitudes do mundo, vai adquirir seus próprios pontos de vista. Junto com o corpo de carne, ela também ganha o que jamais Pigmalião saberia ter criado: uma alma.

O começo do sentimento amoroso é sempre uma imitação do ato de Pigmalião. Ignoramos o real, moldamos a pessoa amada à nossa imagem, imaginação e semelhança. Só que, mesmo sem a intervenção de Afrodite, mais dia, menos dia, Galatéia descerá do pedestal. Ela se mostrará como é, com tudo de humano que pode estranhar um outro humano. Uns chamam esse momento de transição. Dizem que, a partir daí, ou a paixão (que era até então o sentimento dominante) se transforma em amor, ou então a decepção tira do coração qualquer sentimento e os dois amantes acabam se separando.

Tirante essa história de transformação de sentimento, cuja discussão demandaria outro escrito, é certo existir um momento, na relação amorosa, em que o amante descobre no amado, não a pessoa por ele projetada, mas a pessoa que o amado de fato é. E nessa hora, ou o amor se confirma e o amante se apaixona pela pessoa real, ou então vence a estátua e o amante levará a vida a lamentar a transformação do amado em carne.

Uma nova pessoa surge diante de quem a ama. Não moldada, nem imaginada, humana pela própria natureza, com imperfeições humanas antes escamoteadas pela projeção amorosa, que lhe dera nuances divinas. Se então será criada uma nova condição de amor, nem o sabe o amante, tampouco o amado. Talvez nem Afrodite o saiba.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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