Um ótimo filme ruim

Por Cora Rónai
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Confesso: não estava com a menor vontade de ver Avatar. Tenho implicância com filmes que chegam cercados de tanta onda, gastei o que tinha de paciência com criaturas azuis já na época dos Smurfs e, ainda por cima, detestei Titanic. Nem a perspectiva do 3D me empolgava: não consigo imaginar um só dos meus filmes favoritos que ganhasse com o uso de uma tecnologia que, embora perfeita para games, pode ser insuportável no cinema.

Mas aí os críticos começaram a recomendar Avatar mundo afora. Colegas elogiaram Avatar. Amigos que viram o filme adoraram. Na internet discute-se há semanas, a sério, o que acontece naquele mundo imaginário. A bilheteria disparou. E, de um momento para outro, assistir Avatar virou obrigação cultural. Como sabiamente observa o Millôr, nada faz tanto sucesso quanto o sucesso.

No domingo, armada de paciência e resignação, decidi finalmente ver o motivo de tanto auê. O roteiro é primário, cheio de clichês e de, como se diz hoje, “homenagens” a outros filmes, de Matrix a Pocahontas. Os personagens são caricaturas – o comandante sem coração, o administrador sem escrúpulos, a cientista sem medo, o herói sem mácula, a selvagem sem maldade. O desfecho é previsível desde que as luzes se apagam. E o filme é sensacional.

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A história todo mundo já sabe: num futuro mais ou menos distante, uma megacorporação de terráqueos prepara-se para atacar o planeta Pandora, rico em depósitos de um mineral precioso que os nativos não estão interessados em negociar. A exploração desses depósitos significaria o fim da floresta em que vivem, e os na´vi são tão ligados ao meio-ambiente que chegam a fazer conexões diretas com árvores e animais, como se suas tranças fossem cabos USB primitivos.

A corporação e os nativos se comunicam através de avatares desenvolvidos com DNA meio na´vi, meio humano; e o filme começa quando um humano cai de paraquedas no projeto, substituindo o irmão gêmeo como condutor de avatar. As negociações diplomáticas, que nunca foram lá grande coisa, estão chegando ao fim, e logo os mercenários terrestres usarão contra os inocentes selvagens todo o seu poderio militar. Caberá ao recém-chegado justificar as quase três horas de filme.

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Acontece que Pandora é o lugar mais bonito que o cinema já inventou. Tem árvores descomunais, cachoeiras, rios e riachos, montanhas flutuantes, vegetação fluorescente. Tem cores lisérgicas, plantas incríveis e insetos luminosos com o movimento de delicados animais marinhos. O 3D não é gratuito; ele nos aproxima da floresta e dos seus habitantes, e nos sentimos como mergulhadores que, pela primeira vez, se vêem diante de um recife de coral. Simplesmente embasbacados.

Boa parte do sucesso de Avatar se deve à perfeição desta criação. Os diálogos são infantis e a carpintaria dramaturgica é aflitivamente transparente, mas ninguém precisa de palavras para se empolgar com tecnologia tão bem utilizada e natureza tão exuberante. O recado é visual: é evidente que aquilo não pode ser destruído, assim como é evidente que ninguém tem o direito de acabar com o mundo dos outros. O que vale para Pandora, ça va sans dire, vale também para a Terra. Pronto.

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Avatar é um pipocão cheio de mensagens. Além da defesa ambientalista, faz referências diretas à política externa dos Estados Unidos, e a corporação malvada que quer destruir os na´vi é, claramente, uma metáfora para a Haliburton. Susbtitua-se o unobtanium por petróleo, e o quadro anti-imperialista se completa.

Se não forem levados ao pé da letra, os mercenários podem representar qualquer civilização tecnologicamente avançada que, em qualquer ponto da História, deu cabo de tribos inocentes e despreparadas, dos conquistadores espanhóis do século XVI aos madeireiros e mineradores que insistem em ocupar terras indígenas na Amazônia. Da mesma forma, os na’vi podem ser qualquer etnia ameaçada por brancos de olhos azuis.

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Era de se esperar que, a essa altura, o mito do bom selvagem já fosse visto com, pelo menos, um mínimo de ridículo; mas James Cameron é despudoradamente maniqueísta, e faz todo o possível para poupar o espectador da terrível tarefa de pensar. Em outro filme, isso me despertaria instintos assassinos, mas Avatar é uma tal festa para os olhos, que tudo lhe pode ser perdoado.

Pesa nessa condescendencia, ainda, o fato de, em muitos aspectos, o filme combater o bom combate. Se uma ínfima parcela dos espectadores sair do cinema convencida de que nada justifica a forma como estamos tratando o nosso próprio planeta, Avatar terá cumprido lindamente a sua segunda missão. A primeira cumpriu com louvor no primeiro bilhão de dólares.

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Não faltam à política brasileira exemplos de idéias de jerico, mas trazer Tony Blair como consultor para as Olimpíadas está, com certeza, entre as campeãs. Será que não há um único brasileiro com a necessária competência? Será que temos de ir buscar, em libras esterlinas, um político universalmente desacreditado? Ou será mesmo a velha mentalidade colonizada vindo à tona?

Para não atrapalhar demais a sua cabeça globalizada, governador, assista Avatar. Como eu digo aí em cima, é um filme bonito, não vai exigir muito dos seus neurônios, e talvez o senhor consiga perceber, logo na primeira meia hora, a quantas anda a credibilidade de quem promoveu a guerra do Iraque. Indo na sessão das cinco ali no São Luiz, dá tempo de sobra para pegar o vôo para Paris.

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