Um país destroçado

Ontem, Edmilson de Jesus descansou depois de lutar por semanas contra a Covid.

            Papai agora é mais uma vítima em um país destroçado…

O relato é de um filho enlutado. No dia em que seu Edmilson morreu, o país registrou um total de 2.997 mortos. As histórias multiplicam-se nas redes sociais.

Já atravessamos a fronteira da perplexidade, agora vivemos uma espécie de sonambulismo. Diante das incertezas, desenvolvemos mecanismos de defesa contra a dor, o que não significa saúde mental. Um colega se isolou em casa com o pai acamado e não permite qualquer visita ou ajuda. Enxerga vírus em tudo. Alguns optam pela alienação: “não é isso tudo o que estão dizendo”.

Quem tem filhos jovens como eu, levanta a cabeça todos os dias e sorri, buscando transmitir uma segurança que não existe. O que posso fazer para protegê-los? Pouco. Não tenho condições de me refugiar nas serras ou em uma casa de praia, portanto, qualquer passo em falso na rotina suburbana que levamos, pode significar o contágio.

Nunca vivi isso antes. Vou da esperança à amargura em questão de horas. Todos os dias tropeço no estreito caminho da sensação de segurança. Logo abaixo, um precipício de medo. Nem sei por que escrevo isso agora, perdão. É que fiquei tão pensativa sobre o que este filho escreveu!

Um país destroçado. Derrotado por números crescentes de adoecimento e mortes por Covid, Um ano e três meses levando uma vida ainda mais cara, ainda mais perigosa e ainda mais injusta do que já é em dias “normais”. Se para pessoas como eu, empregadas, a coisa está pegando, imagine para a parte da população que vive as circunstâncias da pobreza…

            “Precisamos de respostas!” É o que se ouve.

            Elas já existem. Surreal, né? Já existem há meses. 

            O que é feito, então, dessas respostas? Quando e quem será contemplado com elas?

É tarde demais para o seu Edmilson. E ele não é apenas uma estatística para os que o amam. Não é apenas um nome para sua esposa, ou uma notícia, entre milhares de outras, para seus filhos e netos. Ele tinha uma história. Preciosa para além do que nós, que não o conhecemos, podemos assimilar. “Não há como mensurar o tamanho da dor e da saudade que sentimos…” continua o seu filho, que inclusive também se chama Edmilson de Jesus, como o pai.

Daqui do meu quarto sinto um milésimo dessa dor tomar conta do peito. Resolvo escrever. Terminando o texto, vejo uma mensagem no celular da querida colega de faculdade que envia notícias, após doze dias internada na UTI. Alívio! Ela e o esposo estão melhores.

Agora compreendo a montanha russa afetiva que vivemos. Deslizamos pelos trilhos ao sabor de uma realidade ora dolorosa, ora miraculosa.

Imagem: reprodução do quadro “The Garden of Death”, de Hugo Simberg

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