Um papo sobre livros e literatura com o premiado escritor natalense Estevão Azevedo

Até alguns meses atrás ele era um ilustre escritor desconhecido. Mas Estevão Azevedo estampou manchetes na mídia potiguar e nacional quando seu romance Tempo de Espalhar Pedras venceu o prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura. Um jovem natalense de 37 anos desbancou alguns dinossauros das nossas letras, a exemplo de Cristovão Tezza. Ambos, Estevão e Cristovão, estarão nesses dias no Festival Literário da Pipa. Segue abaixo um papo antecipado:

1. Estevão Azevedo, relate-nos um pouco da sua infância e juventude. Quais as lembranças que você tem da sua cidade natal?
Eu saí de Natal muito cedo, com uns três ou quatro anos. Ainda bebê, levei um tombo feio com meu triciclo na casa em que vivíamos em Natal. Não estou certo se são lembranças longínquas ou memórias inventadas, mas tenho algumas poucas imagens desse quintal onde ganhei a cicatriz enorme que carrego até hoje no cotovelo esquerdo. Voltei mais tarde algumas vezes, para visitar familiares ou como turista.

2. Quais foram suas primeiras leituras literárias e com que idade você compôs seus primeiros escritos? Eram sobre o quê?
É difícil lembrar exatamente as primeiras leituras, porque em casa meus pais sempre leram muito e tiveram muitos livros. Lembro com muita clareza, porém, do impacto de ‘Marcelo, marmelo, martelo’, de Ruth Rocha, por exemplo. Também era fascinado por uma coleção de livros-jogos, narrativas de aventura e fantasia em que ao final de cada capítulo o leitor deveria escolher um dos caminhos possíveis: “Se você quer abrir a escotilha da nave, vá para a página X. Se você quer permanecer no interior da nave e acionar os mísseis, vá para a página Y”. O caminho errado levava, depois de alguns saltos, à morte do personagem ou ao fracasso da missão. Alguns anos mais tarde, no começo da adolescência, li e reli com uma empolgação enorme alguns calhamaços, romances épicos ou de fantasia, best-sellers como ‘Xogum’, de James Clavell, ou ‘As brumas de Avalon’, de Marion Zimmer Bradley. E meus primeiros escritos devem ter sido para a escola, redações, pequenas narrativas. Adolescente, eu lembro de ter tentado criar um universo ficcional que serviria ao meu próprio sistema de RPG, Role Playing Game.

3. Como e por que você foi morar em São Paulo?
Meu pai é do interior do RN, de Jardim do Seridó, e minha mãe do interior de SP, de Marília. Eles viviam no estado de SP, mas por conta da ditadura militar, depois de serem presos e soltos, voltaram ao RN. Foi quando eu nasci. Alguns anos depois, porém, com o processo de abertura política, voltaram a São Paulo.

4. Você é graduado em Jornalismo e Letras, algum motivo especial para a escolha dos cursos?
Eu comecei minha vida universitária na publicidade, pois desconfiava que o que eu queria fazer era algo relacionado à criação. No primeiro ano, porém, percebi que o que eu gostava mesmo era de criar textos, então mudei para o jornalismo. Durante o jornalismo, percebi que eu era envergonhado demais para apurar os fatos e que eu gostava mesmo era de escrever sem a amarra do real, então quando concluí o curso, ingressei na carreira de letras.

5. Como aconteceu a sua estreia em livro na literatura?
Eu tinha alguns contos escritos, que quase ninguém tinha lido, já que nunca tinha passado pela minha cabeça publicá-los. Na faculdade de jornalismo, uma professora que é crítica literária, porém, leu alguns contos e gostou, me incentivou a fazer algo com eles. Coincidentemente, nas redes sociais, eu vi um grupo de escritores que se reuniu numa editora independente e que buscava originais. Mandei meus contos para eles, eles gostaram, e meu primeiro livro, ‘O som de nada acontecendo’, saiu em 2005 pelo coletivo Edições K.

6. Você publicou seu primeiro romance, ‘Nunca o Nome do Menino’, em 2008, um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. Relate-nos um pouco desse trabalho.
O romance estava mais ou menos na metade, sem que eu soubesse se iria terminá-lo, se ele prestava ou se eu teria a chance de publicá-lo um dia, quando um amigo de uma editora pequena me contou de um programa de incentivo à produção literária da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Inscrevemos o projeto do romance e ganhamos a bolsa para a edição. A partir daí, eu tinha um prazo para terminá-lo, o que me incentivou a ser mais disciplinado na escrita. Foi assim que nasceu ‘Nunca o nome do menino’.

7. Fale-nos do seu livro mais recente ‘Tempo de Espalhar Pedras’, do que ele trata?
Em lugar indeterminado, um grupo de homens cava e peneira a terra em busca de diamantes que não existem mais. Submissos ao coronel que se beneficia de seu trabalho, os garimpeiros procuram manter o equilíbrio instável de suas vidas, suspensos entre a penúria extrema e as artes da sobrevivência. Em meio ao cenário de extinção, surgem histórias de amor. Joca, Bezerra, Ximena e Rodrigo acreditam que o desejo poderá levá-los a outro destino. O crente Silvério busca refúgio na fé. Romeu e Julieta apocalíptico numa Verona reinventada no garimpo, aqui não há redenção nem esperança.

8. Estevão Azevedo, como acontece o seu processo de criação? Qual o melhor momento para escrever?
Como quase todo escritor, não consigo viver de literatura, por isso tenho outra profissão, a de editor de livros. Por isso escrevo nas horas vagas, sem muita disciplina, sempre que preciso e posso.

9. E seus trabalhos inéditos, muita coisa na gaveta?
Eu tenho uma dissertação de mestrado sobre a obra de Raduan Nassar que gostaria de publicar. Nada ficcional.

10. O que você lê na atualidade?
Por obrigação e prazer, um tanto de tudo. Em geral, muito mais literatura que qualquer outro gênero, prosa e poesia.

11. Você escreve em alguma outra vertente literária, além da ficção?
Escrevo palíndromos, aquele tipo de texto que, lido da primeira à última letra, ou no sentido inverso, da última à primeira, é exatamente igual. Tenho um site onde publico meus palíndromos: http://www.oriodoiro.tumblr.com/

12. Para o escritor Estevão Azevedo o que significa escrever?
Significa enfrentar o desafio pessoal de criar um universo a partir de um material muito limitado, a linguagem escrita, na qual um conjunto extremamente limitado de símbolos se agrupa e reagrupa de infinitas formas. O que quero dizer é que a literatura é um artifício, uma construção, mas uma construção que tem o incrível poder, quando estabelece uma conexão do texto com o leitor, de alcançar algo indefinível, variado, surpreendente e genuíno do ser humano. Poder participar disso, como escritor mas também como leitor, é uma aventura formidável.

13. Que outro tipo de arte desperta seu interesse além da literatura?
Todas, especialmente cinema, teatro e artes visuais.

14. Quais os seus planos futuros com a literatura?
Nenhum em específico. A escrita tem de ser uma jornada absolutamente pessoal que atinge, às vezes mas não necessariamente, uma dimensão pública. Quero seguir escrevendo, se e quando tiver vontade, e publicando, se e quando houver qualidade e interesse.

15. Quem é o escritor Estevão Azevedo?
Ainda não sei, sinceramente.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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