Um papo tranquilo sobre vida e literatura

NA TRIBUNA DO NORTE

Tudo começou por volta de 1989, quando o livro O Boca do Inferno, de Ana Miranda (foto), Companhia das Letras, 336 páginas, R$31, (a versão pockett custa R$25,50, mas na Estante Virtual dá para comprar por R$15,00) estourou como um dos maiores sucessos literários daquele ano. Imediatamente o livro despertou uma polêmica na imprensa a partir de um comentário do crítico literário Alcir Pécora e do jornalista Caio Túlio Costa, então ombudsman da Folha de São Paulo. O primeiro sentiu um certo desconforto ao ver que certos trechos do livro pareciam pertencer ao Padre Vieira. O segundo tachou logo o livro de plágio. A discussão esquentou quando a própria Ana Miranda explicou seu processo de criação. Tudo isso, mais a evidente qualidade do texto, fez com que as vendas do livro chegassem às alturas.

Na época eu comprei o livro e comecei a ler, mas mesmo sem ter conhecimento acadêmico, também senti um grande desconforto com a leitura. Então dei meu exemplar para meu amigo Sebastião Vicente (que adorou o livro, diga-se de passagem) e tratei de esquecer. Recentemente adquiri o livro Padre Antônio Vieira – Essencial, Penguin Companhia, 760 páginas, R$35,00, que traz um belo estudo crítico e biográfico do professor Alfredo Bosi. Logo corri atrás de alguma informação sobre o poeta Gregório de Mattos, contemporâneo de Padre Vieira e muito citado no estudo. Encontrei Gregório de Mattos – O Poeta Devorador, de Fernando da Rocha Peres, Editora Manati, 142 páginas, R$40,00 (comprei por uma micharia na Estante Virtual).

Pronto. Agora eu estava com uma febre sem cura, completamente dominado pelos textos desses grandes autores barrocos. Foi aí que me deu ume estalo e eu disse, “por que não ler agora Ana Miranda?” Amigo velho, fui buscar meu exemplar pockett nos correios com o coração disparado. Não esperei nem chegar em casa. Abri logo o pacote e li as primeiras páginas ali mesmo, na mesa de um bar de Parnamirim. O livro de Ana Miranda é admirável, gostoso de ler, mas continua provocando em mim o mesmo desconforto. Procurei então algum estudo sobre o livro e encontrei no www.observatoriodacritica.com.br um ensaio de Anne Greice intitulado Ana Miranda na Boca da Crítica, e aí encontrei mais ou menos o motivo de tanto desconforto. Está lá exatamente onde Ana Miranda já tinha explicado que é no seu estilo de escrita. Seu método de trabalho é parecido com o dos autores pós-modernos: uma colcha de retalhos de citações sem remeter à fonte, exaustiva pesquisa e um modo feminino de dizer as coisas.

Fiquei feliz de descobrir isso e intrigado por que Ana Miranda praticamente desapareceu do noticiário cultural. Ela ainda escreveu mais três romances históricos no mesmo estilo, sobre Augusto dos Anjos, Clarice Lispector e Gonçalves Dias. Estou me preparando para embarcar nessa nova aventura. Mas é estranho que esses três novos livros não tenham tido qualquer repercussão neste país de Paulo Coelho e 50 Tons de Cinza. Tenho um ralo palpite cor de cinza sobre esse fenômeno. Na época que Ana Miranda estourou nas livrarias do país, sabe qual era o best seller do momento? Nada mais nada menos que Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar; O Nome da Rosa, de Umberto Eco e um monte de livros de José Saramago. Meu Deus, o que foi que aconteceu com este país? Não tenho a menor ideia nem nada em que possa botar a culpa.

As pesquisas indicam que nunca se leu tanto no Brasil. As editoras estão bombando nas vendas. Feiras literárias pipocam por todo o território nacional. Mas, o que estão lendo? Ah, que se dane. Se estão lendo, então está tudo bem, mesmo que seja bula de remédio.

Mais ou menos por essa época estourou também o escritor Raduan Nassar com duas obras seminais de nossa literatura: Um Copo de Cólera, Companhia das Letras, 88 páginas, R$29,00 e Lavoura Arcaica, Companhia das Letras, 204 páginas, R$39,50. Li outro dia que Raduan Nassar, que já havia abandonado a literatura para ser fazendeiro, estava agora abandonando essa atividade para descansar em um sitiozinho nas proximidades de sua grande fazenda, que ele doou para uma universidade. Essa história fascinante você pode ler na Revista Piauí. Fiquei tocado com a grandeza deste homem que eu sempre admirei. Completamente desprovido de vaidade e das coisas materiais. Quando morei em São Paulo, nos idos de 1984, li uma vez no jornal ele dizendo que “a melhor criação ainda era a de galinhas”. Eu ri tanto e achei tão legal esse sopapo nas fuças dos metidos a literatos que ainda hoje me inspiro nisso. Acho massa isso: o sujeito no auge de sua criatividade e fama diz, “não faço mais”. Jean-Arthur Rimbaud fez isso também.

Pois bem. Outro best seller desse período foi Gabriel Garcia Marquez. Seus livros Cem Anos de Solidão, O Outono do Patriarca, A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada, Ninguém Escreve ao Coronel, O Amor nos Tempos de Cólera, O General em seu Labirinto, marcaram minha juventude. Lembro uma tarde de birita, entre estudantes da USP em São Paulo, que eu provoquei um estudante colombiano. “Garcia Marquez não é grande, grande é Jorge Amado”, eu disse. O cara imediatamente se lançou numa defesa tão apaixonada de seu escritor que eu percebi logo que grandes escritores são como tesouros nacionais. Vi em seus olhos o orgulho e o prazer que ele tinha de pronunciar o nome de Garcia Marquez. Queria que todo mundo fosse assim. Leio agora na Web que Gabi já não pertence a este mundo. Seu corpo ainda está entre nós, mas ele não. Perdeu a memória, vive no limbo dos que são colhidos pelo infortúnio de quem está vivo. “Viver é perigoso”, diz nosso querido João Guimarães Rosa.

Fica aqui um testemunho de alguém que ama a literatura, mas que despreza totalmente os falsos brilhos da ostentação que ela provoca em algumas pessoas. Os que buscam galardões, medalhas e fardões. Os que buscam o brilho fugaz da fama. Os que buscam o amor das massas populacionais. A literatura é algo que tem que surgir naturalmente para pode ir embora quando quiser. Aqueles que buscam apenas ganhar dinheiro com isso não estão errados, mas precisam saber que é só consequência do trabalho bem realizado.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Denise Araujo 14 de Setembro de 2012 12:49

    Carlos, um texto tão rico dá gosto de ler. Acredito piamente nesse excerto que selecionei: “A literatura é algo que tem que surgir naturalmente para pode ir embora quando quiser “. E ainda acrescentaria que a Literatura ( a escrita literária) surge naturalmente e sempre é precedida pelo leitor, pois quem não é um grande leitor não pode ser (verdadeiramente) um bom escritor. Melhor do que escrever é ler. Por isto você escreve tão bem.

  2. Aparecida Fernandes 18 de Setembro de 2012 16:39

    Querido Carlão, parabéns pelo texto! Quando li “O Boca do Inferno”, foi de uma tacada só; intuitiva ou/e intencionalmente, sempre desconfio da crítica quando carimba um autor de plagiador, enquanto os Paulos Coelhos reinam previsíveis e sem sal. Que bom que você se redimiu por conta própria para tirar Ana Miranda do limbo dos esquecidos. Abração!

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