Um paradigma inovador

Por Ivan Maciel de Andrade
TRIBUNA DO NORTE

Deparar-se com algo que se possa considerar, convictamente, não digo novo, mas inovador no universo literário – e que represente ao mesmo tempo uma densa e importante obra de arte – chega a ser surpreendente e mesmo desconcertante. Os ficcionistas que têm merecido a escolha do Prêmio Nobel se revelam apenas interessantes, com produções de bom nível estético. Mas isso é muito diferente da situação em que um autor se distancia de tudo o que é feito e, em grande parte, do que se fez antes dele através de inequívocos sinais de uma acentuada singularidade.

Primeiro é preciso constatar e confirmar a existência dessas características incomuns. Onde e como se apresentam? No estilo, na forma de narrar, na criação de personagens, na estruturação de uma realidade ficcional tão forte e intensa quanto a própria vida? Não poderemos permitir que nos envolvam, corrompendo a nossa capacidade de discernir e avaliar, alguns fatores bastardos: o excesso elogioso da propaganda editorial, a entusiástica recepção da mídia através dos profissionais incumbidos do registro e resenha de publicações ou a outorga de prêmios literários com efeitos academicamente consagradores. São sinalizações que pautam, comumente e, eu diria, perigosa e enganosamente, a glorificação de autores e de sua bem-sucedida produção literária.

Ou ultrapassamos essas referências circunstanciais (incidentais/acidentais), quase sempre inconfiáveis, ou não faremos qualquer descoberta que nos garanta estarmos diante de um paradigma literário que recria os padrões conhecidos de forma a acrescentar-lhes novas dimensões de qualidade. Isso porque esse encontro deve ser capaz de nos causar – na profunda subjetividade de nossa recepção literária – o indefinível prazer de inéditos ingredientes (cores/sabores), contraditoriamente muito antigos e, entretanto, jamais experimentados na experiência de leitura que acumulamos. Tanto em decorrência da qualidade intrínseca dos elementos utilizados na construção ficcional, como da organização desses elementos na composição da narrativa a cujo fascínio se rendem nossa compulsão de leitor e nosso, ainda que precário, mas atento, zeloso juízo crítico.

Essas reflexões me são sugeridas pelo romance “Luz antiga” (editado pela Biblioteca Azul/Globo, 2013) do escritor irlandês John Banville, que vem sendo comparado aos irlandeses James Joyce e Samuel Beckett e ao russo Vladimir Nabokov. E, segundo a mídia internacional, é o principal e mais forte candidato ao próximo Nobel de Literatura. “Luz antiga” constitui uma forma de ver o mundo, as pessoas, as relações humanas e, até mais, uma forma de ser diante do amor, do sexo, da amizade, da lucidez, da loucura, da arte, da ética, do tempo, da morte que fogem às convenções a que estamos habituados na leitura de autores contemporâneos. Sua linguagem metafórica transmite significados e percepções que se situam muito além das próprias palavras. E a alta qualidade literária de “Luz antiga” não impede um fenômeno essencial para a conquista de leitores: o absorvente, dominador, excitante interesse pela narrativa até a última página do livro.

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