Um paradoxo da poesia em Gustavo de Castro

De tempos em tempos os paradoxos da arte literária reanimam velhas questões que, para a nossa surpresa, não estão de todo resolvidas, como chegamos a supô-lo. No que toca à poesia, por exemplo, seria ela destino ou escolha; resultaria de um ato de vontade ou de uma pulsão irresistível?

A crer no poeta Gustavo de Castro, natalense ora residindo em Brasília, a resposta recairia na primeira opção. Ele o afirma claramente no poema sem título à página 106 de seu novo livro “Taos: guia primário para perplexos” (Brasília: Casa das Musas, 2013). A linhas tantas, diz o poeta: “Não escrevo para ser poeta. // Escrevo porque não tenho saída. // Ou é isso. / Ou o nada. / E o nada, já o tenho bastante”.A resposta, vê-se bem, não é nova, pois constitui mais uma variação de um velho tema que já inspirou escritores de várias latitudes, épocas e culturas. Mas a forma como Castro a coloca traduz com perfeição o paradoxo de nossa época: não há razoes fáceis por trás da poesia. Tirante a escritura, as escolhas deixadas levam ao impasse do não ser.

Compreendendo um longo período de criação poética, que vai de 1997 a 2012, “Taos” é um desses livros que demandam tempo para ser devidamente assimilado, haja vista que mistura gêneros, estilos, experiências poéticas que vão do poema em prosa baudelairiano às incursões no neoconcretismo dos micropoemas; do aforismo, à parábola e à fábula.

Um livro denso, portanto. Já na primeira parte de “Taos”, denominada “Poemim” (1997-2010) afloram paradoxos, alguns irônicos, como em “Conversa de Gil e Caetano”: “A verdade / é aquilo que é / somado àquilo / que não é”, ou no estilo zen, como em “Inverno na casa da ficção”: “Se o homem não sabe / que fazer / da mentira / em que vive // que saberá fazer / da verdade?”, ou “Arte poética”: “Se navegar é preciso / viver impreciso”, ou “Euterpe”: “escrever é esvaziar-se / não escrever, / alfabetizar-se”. Provocativo em “Postura intelectual”: “Há regiões do cérebro / que não servem para nada. // O poeta pensa com elas”. Hamletiano, afirma na terceira das “Cinco variações borgianas”: “Dormir é / de certo modo / morrer. Será a / morte, de certo / modo, acordar?”

Na parte dois, “Guia primário para perplexos” (2000 a 2002), a escritura poética de Gustavo de Castro assume um estilo inteiramente diferente daquele que marcou os poemas de “Poemim”. É como se o poeta tivesse recomeçado sua obra, abandonando uma fase de sua poesia para ingressar numa nova. Agora, os poemas se parecem mais com parábolas do que com os paradoxos e aforismos de “Poemim”. Para isso, o poeta anima alguns substantivos abstratos, como felicidade, atenção, tristeza, amor, prazer, alma, entre outros, os quais, como num teatro de bonecos, encenam histórias eivadas de enigmas tangenciando os fatos cruciais da vida.

Na história XVII, Castro volta ao tema dos sonhos e sugere: “Ao acordar, é bom ter um caderno para anotar sonhos. A vida que se vive lá é também digna de nota”. As demais histórias de “Guia…” deixam claro, porém, que o autor trabalha cada texto fabular com pleno domínio de seu objeto, numa espécie de “jogo de fantasia a sério”.

Apesar disso, Castro às vezes depara com poemas “rebeldes”, que não se deixam dominar nem terminar. Isso acontece, segundo ele, porque o poema “faz questão de ser assim para mostrar / quem manda” (“Às vezes o poema não se deixa terminar”). E complementa, à maneira de Borges: “No fundo, nenhum poema tem fim. / Apenas se abandona para prosseguir / noutro poema escrito em qualquer parte / por qualquer um”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. gustavo de castro 7 de Janeiro de 2014 9:52

    Nelson, obrigado pelas palavras e pela leitura atenta. Abraços, Gus.

  2. Jarbas Martins 7 de Janeiro de 2014 18:41

    Gustavo de Castro é um poeta indispensável em qualquer antologia. disse isso aqui há bastante tempo.

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