Um pardal silencioso sobrevoa o lar das vovós na manhã de sábado

Mais uma vez está diante das garras afiadas e obscenas do tempo. Caixa de Pandora devastadora, que a tudo demole e devora sem remédio ou freio. E sente calafrio. Apesar de ser um sábado de sol e céu azul radiante.

Foi cobrir a entrega de donativos a um asilo de idosas, cercado de muros altos, silêncios e pouco verde em seu interior.

Tudo muito organizado. As vovós são bem assistidas. Nos finais de semana costumam aparecer almas boas para fugazes e consoladoras prosas. Ouvindo a história de uma ou outra, não se pode deixar de reconhecer que tiveram sorte. Poderiam estar no olho da rua.

Falta liberdade, o regulamento é rígido, mas tem pão, consolo espiritual e lenitivos para o corpo.

E todas tem razão. Como nas prisões decentes. Aonde se chega quando o destino quer e o diabo ajuda.

Silentes, compenetradas, a maioria das vovós está sentada à sala da TV sem som, sintonizada em um programa de culinária. O barulho ouvido é de um forró modernoso, que sai de um toca CD, conectado à televisão. Umas senhorinhas seguram rosários às mãos. Rezam. Conectadas à “rede social” mais antiga que existe.

Água, meus filhinhos! Esquecimento, senhora mãe.

Fora da sala da TV, em um corredor que dá para um pátio amplo, Penha está sentada, absorta em seus pensamentos. Puxa assunto. Pede para fazer uma foto dela. Apruma os óculos escuros, que usa por conta da catarata, ajeita o cabelo ainda negro, sem pintura. Mostra depois como ela ficou. Sorri. Parece que gostou.

Em voz baixa, conta-lhe um segredinho: “de vez em quando morre um.”

Um passarinho mudo sobrevoa e para no pátio sem árvores. Ela chama atenção para o serumaninho. “Parece um pardal”, diz com ar de riso.

É o acontecimento do dia na vida de Penha.

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