Um Passaporte Húngaro

Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut
Brasil/França/Hungria/Bélgica, 2001

para o amigo Chico Guedes

Uma sexta feira passada assisti na TV Brasil ao filme “Um passaporte Húngaro” da cineasta Sandra Kogut. Viajei no filme e nos arquivos. Andei pelas ruas de Budapeste e lembrei do meu amigo Chico. O filme – memorialístico – narra a história de uma neta de Húngaros em busca de um passaporte de cidadania Magyar. Ela não pode ter dupla cidadania e precisa fazer uma opção.

Para obter o passaporte muitos documentos são requeridos e precisa fazer uma prova no idioma húngaro. A protagonista nascida no Brasil necessita estudar húngaro e tenta reconstituir a saga de sua família que imigrou para o Brasil no início do século XX. A chegada de seus ancestrais a Caruaru – PE é resgatada, quando a avó lembra dos costumes e mosquitos da região.

Uma verdadeira maratona pelos arquivos públicos, embaixadas no Brasil e Paris é empreendida por uma insistente Sandra Kogut que filma a sua própria história em busca de cidadania como se fora outra pessoa. Um problema adicional complica essa busca. Seus parentes judeus, assim como outros imigrantes, mudavam de nome para evitar perseguição. Os nomes de batismo eram latinizados e mudavam completamente para despistar.

Pessoas que nasceram húngaros, hoje já não são Magyares devido á divisão geográfica. Outros mudaram de cidadania, de religião e de costumes para serem aceitos nas terras que os receberam.

Um grande filme que mostra a saga de um povo perseguido e negado na sua existência heróica em busca de uma cidadania. A protagonista consegue o passaporte húngaro depois de um grande périplo em busca de sua identidade e raízes, fazendo um caminho inverso aos dos seus ancestrais que tiveram de se esconder muitas vezes tendo que negar suas origens.

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Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Danclads Andrade 21 de junho de 2011 0:44

    A magyar nepkoztarsasag (República Popular da Hungria), como todos os países do bloco socialista (que de socialista só tinha o nome), se notabilizava pela burocratização. Assim, não é de se surpreender o périplo da protagonista para conseguir a cidadania húngara.

    Valeu, Da Mata!

  2. Alex de Souza 20 de junho de 2011 20:13

    muito bom esse filme, que denuncia o absurdo aparato burocrático criado pelo estado socialista húngaro. vale lembra, joão, que o passaporte só vale um ano!

  3. João da Mata 20 de junho de 2011 20:09

    Chico , obrigado pelos comentários

    O protagonista do Ulysses de Joyce é um Judeu Hungaro.
    Ela leva um chifre de Molly ás quatro horas da tarde. Como será o
    sentimento do chifre hoje na Hungria? Leopold parece não se incomodar muito!

  4. chico m guedes 20 de junho de 2011 19:44

    Kedves /kédvesh/* João, obrigado pela lembrança carinhosa.
    Tá fazendo 3 anos que eu não volto a Magyarország /módjorórsáág/ (como os húngaros chamam seu próprio país), e rever esse filme outro dia me trouxe, pra variar, muitas saudades.
    A questão dos nomes judeus na velha Hungria é uma epopeia parecida com a do próprio povo judeu, como o filme bem ilustra: num dado momento o imperador da Áustria exige a germanização, depois as políticas nacionalistas (sempre racistas) no Reino da Hungria os empurra à magiarização.

    De todas formas a judiaria húngara, ao contrário do que acontecia em outros países europeus, se espalhava e estava integrada por todo o país, apenas cerca de 20% vivia em Budapeste no início da Segunda Guerra (na Áustria eram cerca de 60% em Viena, se a memória das minhas leituras sobre o tema não me trai).

    A Shoah, a partir da deportação relativamente tardia, só em 42, além de catástrofe humana, foi um tragédia monumental também para a cultura científica, literária e artística da Hungria. Numa das notas biográficas da Antologia do Conto Húngaro, que Paulo Rónai traduziu e editou em 56, ele se refere a uma Antologia dos escritores mártires da Hungria (Magyar Mártir Irók Antologiája) publicada em 1947, que incluiu textos de 72 intelectuais que foram vítimas do Nazismo. Imagine se, mesmo hoje, aqui no Brasil 72 intelectuais nacionalmente conhecidos e ativos fossem exterminados por uma tragédia qualquer; detalhe: a Hungria tem menos de um décimo da população brasileira.

    E no entanto, curiosa e felizmente, por causa mesmo do nível de integração e espalhamento por áreas urbanas e rurais, houve judeus que conseguiu sobreviver sem sair da Hungria, escondidos e protegidos em fazendas e vilas por amigos goy compassivos e dignos.
    E a força da língua e cultura compartilhadas trouxe muitos dos que conseguiram se exilar antes do horror de volta à Hungria. Hoje Budapeste tem uma comunidade judaica importante, e uma das maiores sinagogas da Europa, a da rua Dohány (rua do Tabaco) restaurada e reativada, um dos monumentos históricos mais marcantes da cidade, e parada quase obrigatória para quem visita a cidade.
    abraços,
    chico
    * kedves significa amável, gentil, carinhoso/a, mas também se usa em correspondência para se referir gentilmente ao destinatário. acho uma linda palavra.

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