Um pilão potiguar

Quem escuta a música de Dudé Viana identifica a nordestinidade impregnada em cada melodia tocada. Não pelas parcerias musicais com o folclorista Deífilo Gurgel ou a poeta Zila Mamede. Dudé carrega mesmo é a voz do interior potiguar, misturada ao violão tocado com simplicidade e acompanhado de causos de vida sofrida quando precisou pedir esmola no Rio de Janeiro e dormir várias noites no aeroporto de Salvador até gravar suas primeiras músicas. Depois de quase 40 anos na batalha vieram cinco Cds e o reconhecimento prestado hoje pelo projeto Poticanto – um canto 100% potiguar, quando o violonista e também compositor, Zeca Brasil, interpretará os sucessos de Dudé Viana no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel.

Dudé tem viajado diversas capitais com seu Papo Show – Isso só Acontece Comigo! O título é auto-explicativo. A apresentação é uma mescla de contação de histórias tragicômicas e músicas – muitas inspiradas nas próprias acontecências da vida deste caraubense nascido em sítio, na localidade de Poço Redondo. Como o engano policial que o prendeu por dois anos na penitenciária João Chaves, quando o culpado verdadeiro por um dos assaltos mais populares da história do Rio Grande, Dedé (e não Dudé), também da família Carneiro, foi morto em tiroteio com a polícia. No show, Dudé conta e canta essas histórias como se tomasse café na sala junto aos amigos. O conceito da apresentação surgiu após apresentação do cantor em Brasília, a pedido de jornalistas.

Algumas histórias passam batido no show sempre intimista pela própria suavidade de voz de Dudé, como o primeiro instrumento do futuro compositor. As influências musicais não vieram do pai vaqueiro ou da mãe dona-de-casa. Foi o avô João Francisco Viana, cantador e repentista, quem incentivou Dudé a construir seu primeiro violão, feito com tiras de camas de ar, presas a uma ripa pregada a uma lata de goiabada. Aos dez anos, o menino Dudé iniciava seus primeiros acordes musicais em uma gaita. Da melodia de Luís Gonzaga saíram as primeiras entoadas e as primeiras histórias contadas no show, quando se aproveitava de gaiteiro para conquistar a primeira namorada, os “amassos” por trás do cemitério, deitados por sob os estrumes da vaga…

Dudé deixa o sertão potiguar em 1969, aos 19 anos, para tentar carreira musical na capital. Em 1972 já principiava o que viria a ser o show de amanhã, quando se apresentava no programa infanto-juvenil Bom Dia Natal, transmitido ao vivo e aos domingos pela antiga Rádio Trairi (hoje CBN). Durante oito meses Dudé apresentou música e humor no programa cujo âncora era Doscagíbio dos Santos. Em 1974, se muda de vez para o Rio de Janeiro, após tentativas frustradas. Funda o grupo Galho Seco, em 1978 para apresentações na capital carioca e adjacências até 1982. Nesse intere, lança seu primeiro disco: Seca no Sertão, em 1980. Hoje, o compositor se divide artisticamente entre o Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro.

O show de hoje resgata histórias antigas, de quando Dudé abrigava em atenção e apoio o amigo Zeca Brasil no Rio de Janeiro. Tempos difíceis que fez criar uma admiração mútua. Em 1997, Zeca gravava Olhos de Cristal, de Dudé, em seu primeiro Cd, intitulado Identidade. “Tenho todos os Cds de Dudé em casa. Gosto da simplicidade, do som de sua música. Foi essa afinidade que me ajudou a escolher Dudé para ser homenageado”, afirma o amigo Zeca Brasil, também já homenageado pelo Poticanto na voz de Lene Macedo e dono de vasto repertório de excelentes canções.

Papo e música ao vivo

No dia do show, Dudé Viana também vai vender seu 5º trabalho musical: Papo Show, Isso só Acontece Comigo!, gravado ao vivo em várias cidades brasileiras. O Cd também leva algumas das histórias contadas por Dudé nos shows. Mais do que isso: apresenta poesia de Deífilo Gurgel (O Pilão Sertanejo) e Zila Mamede (A Ponte) musicadas. A parceria com Aucides Sales na canção Cantófa e Jandi rende história potiguar de índios tapuias, o personagem João do Pega e dos dois protagonistas homônimos à composição – é uma história de fé comovente; quase a história de um mártir.

O Cd conta com a participação do grupo de forró pé-de-serra potiguar Meirinhos do Forró, na música Felicidade Aqui Tem Nome. E nada como um forró rasteiro na voz meio tímida, matuta de Dudé junto à sanfona dos Meirinhos. A composição – parceria com Gilvana Benevides – traz ainda a voz sempre bem posta, grave de Cláudio Freire, e canta costumes do sertão tão conhecido por Dudé. A experiente sanfona do parente Caçula Benevides, reconhecido no Oeste potiguar, também integra o Cd, na música Festa na Casa dos Carneiro.

Em As Rédeas Do Vaqueiro, Dudé e Tião Maia traçam um perfil de indumentárias, costumes e hábitos desta figura tão presente no sertão setentrional nordestino. Cascudo é sempre inspiração e serviu de luz para a composição Outdoor de Cultura Popular. Quando Dudé canta Olhe Pra Mim, entre agudos contidos pela voz tímida, meio fanha e nordestina, provoca a platéia a olhar para ele e para a própria alma. Em Ah! Se eu Fosse Um Poeta, homenagem à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins e também o desabafo frustrado de quem já desejou mesmo participar do fazer poético.
O show termina com música de Roberto Homem, dedicada a Dudé quando esteve preso por engano, emendada com Canto de Liberdade, de mesma temática triste e emocionante, cuja última frase sintetiza a vida do cantor: “Depois do bem da vida, o bem maior é a liberdade”.

Zeca Brasil: cidadão potiguar

Apesar do sobrenome artístico, Zeca é potiguar. Nem que seja de coração. Perguntado se é maranhense, responde enfático: “Era! Até ganhei cidadania potiguar ao ser homenageado no Poticanto por Lene Macedo”. De fato Zeca Brasil nasceu no Maranhão e adotou Natal há 25 anos. Veio de família de pescadores, superou as adversidades de quem desenhava as cordas do violão no próprio braço para praticar seus primeiros acordes. Zeca é dono de estilo particular, embora carregue aquele ecletismo dos cantores da noite. São temas instrumentais, baladas, reggaes, blues, bossas e baiões que revelam a aptidão natural e facilidade em cantar e tocar.

Zeca também tem seu forte na composição. Com a canção Caminhos do Prazer, na voz da forrozeira Eliane, ganhou o Brasil. E na voz de Zeca recebe tons mais nobres. Com Lene Cardoso, a composição Nordestinamente venceu o disputado concurso Forraço, em 2007. A participação em festivais e projetos musicais foi a tônica melódica da carreira musical de Zeca. Só de Seis e Meia foram quatro apresentações, sendo o último abrindo o show da dupla de gaúchos Kleiton e Kledir. Já são três Cds gravados e o próximo – Pra Não Dizer que Não Falei do Verso – será lançado nos próximos meses. O repertório recheado de canções finalistas de festivais e algumas de repercussão nacional fazem de Zeca Brasil dos grande compositores da música popular potiguar.

Poticanto – um canto 100% melhor

Um dos projetos mais originais em voga no Estado – o Poticanto – deve receber nos próximos dias o patrocínio de uma mega estatal brasileira, dentro dos benefícios da lei de incentivo Câmara Cascudo. Com isso, o produtor Nelson Rebouças disse que o projeto poderá concretizar o sonho de gravar em Cd e Dvd o maior acervo de música autoral local deste Rio Grande – um verdadeiro registro da música potiguar digno de elogio de Leide Câmara.

Mesmo para produtores musicais, o Poticanto: um canto 100% potiguar pareceu um projeto fadado ao fracasso, segundo afirma Nelson. Ora, sustentar durante anos edições quinzenais apenas com artistas da terra que possuam trabalho autoral considerável é algo quase inimaginável. Nelson Rebouças apostou na id

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