Um poema concretista de Dailor Varela

O poema que Dailor Varela divulgou na brochura Dez anos da Poesia Concreta, organizada por Moacy Cirne e publicada em 1966 pela Prefeitura Municipal de Natal, é:

C I D A D E
I L O R A S
L H M M T C
A A A A A A
D D D D D D
A A A A A A

A primeira linha horizontal do poema traz a palavra “cidade”. As demais linhas horizontais não formam palavras. Na segunda e na terceira linhas, há letras diversificadas que, num primeiro momento, desorientam a leitura – enigmas da cidade. Da quarta à sexta linha, temos uma mesma letra repetida, A na quarta e na sexta e D na quinta – uniformidades da cidade, outros enigmas.

Fazendo a leitura do poema no sentido vertical, encontramos as palavras “cilada”, “ilhada”, “domada”, “armada”, “datada” e “escada” – diferentes faces da cidade anunciada horizontalmente. Cada uma dessas palavras nos diz aspectos contidos na cidade: o risco da cilada, a angústia de estar ilhada, a possibilidade de um controle sobre sua selvageria (domada), a violência cotidiana no seio de uma ditadura em andamento (armada), a historicidade urbana (datada), seus mundos de céu e inferno (escada para se rumar em diferentes direções, para cima e para baixo).

Se pensarmos que a cidade de Dailor Varela nos vem como leitura horizontal e vertical, constatamos que o poema nos traz um tecido, cruzamento de fios, fazer paciente, ato humano.

Mas o poeta não se satisfez apenas com esse belo trajeto. Dailor, pacientemente, cruzou fios-palavras que nos trazem na diagonal, da direita superior para a esquerda inferior, a mensagem “e amada”. A geometria concretista, nesse poema, oculta e revela o lirismo amoroso em relação ao tema que o poeta construiu.

Este comentário ainda permanece mais na geometria da escrita: palavra e letras na horizontal (esquerda para direita), palavras na vertical (da parte superior para a base), texto na diagonal (do extremo superior direito ao extremo da base esquerda). Falta assinalar que as letras mescladas possibilitam descobrir, ludicamente, outras cidades na cidade: aroma, chamada, trilho, dada, rede, Dadá, calada, moradia, tarada, chama, chorada, escola, mamada, doida, irada, diária, matada, escolha, errada, cíclica, tomada, total…

As seleções e combinações não têm fim.

Estamos diante de poesia, de boa poesia.

O preconceito contra o Concretismo, como todo preconceito, nada enxerga.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 7 de janeiro de 2011 10:24

    Criativa leitura do poema de Dailor Varela. Com toda a admiração que tenho por Dailor (ele faz parte da segunda edição do meu “14 versus 14”, antologia de sonetos, a ser publicada este ano), você terminou fazendo uma bela superinterpretação, mais criativa que o poema em si.

  2. Jarbas Martins 7 de janeiro de 2011 10:03

    Corrija-se: Moacy Cirne foi militante do Partido Operário Comunista, uma dissidência da POLOP (organização trotskista).

  3. Jarbas Martins 7 de janeiro de 2011 1:49

    Marcos,
    apesar de ter subscrito, em 1966, juntamente com Anchieta Fernandes,Moacy Cirne,Dailor Varela, João Charlier Fernandes, Juliano Siqueira e Ribamar Gurgel,um manifesto onde se propunha uma poesia revolucionária, formal e tematicamente, não quis publicar, na brochura a que você se refere, nenhum dos poemas concretos que timidamente vinha eu elaborando.Dois motivos me levaram a esse gesto de recusa.Em primeiro lugar uma forte autocrítica, em relação à minha produção poética.Em segundo, ressalte-se o fato de que essa breve antologia tinha o patrocínio do governo municipal, representado por Agnelo Alves, do MDB, partido de oposição criado pela Ditadura e, portanto, um partido que era uma farsa (era assim que o pessoal da Ação Popular, do qual eu fazia parte. achava).Uma atitude radicalóide que Moacy Cirne (que ainda não era militante do Partido Comunista Revolucionário) não abonaria. Naquele momento Moacy estava certo.Acompanhei, na surdina, contrariado e meio, a saga que foi a publicação dessa antologia.Hoje vejo a cena com outros olhos.Lembro-me bem da figura afável de Jessé Cavalcanti, diretor do Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura, com sua mente aberta, ouvindo e dando todo o apoio a uma meia dúzia de jovens poetas…Pungente, no mínimo.Abraços.

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