Um poeta que não gostava de música

NA TRIBUNA DO NORTE

Levei duas semanas para ler o livro João Cabral de Melo Neto – O Homem sem Alma – Diário de Tudo, de José Castello, Bertrand Brasil, 272 páginas. É um livro de 2005 e já está esgotado no site da Livraria Cultura, mas pode ser encontrado a preço módico no site da Estante Vitual. É, sem sombra de dúvida, um livro arrebatador. Existe uma versão anterior sem o capítulo Diário de Tudo.

Aqui a vida do poeta nordestino que escolheu o mundo como casa trasncorre de forma transparente, como se estivesse em uma vitrine. Logo você fica sabendo que João Cabral jogava futebol na juventude, suas primeiras leituras, seus primeiros poemas. O rio Capibaribe surge à distância, acompanhando o poeta por toda a sua vida. José Castello, que também é jornalista, faz um trabalho cuidadoso de aproximação do homem difícil que foi o poeta pernambucano.

Aos poucos João Cabral vai revelando suas características básicas: uma dor de cabeça crônica, que só o abandona na velhice; seu verdadeiro pavor ao abstrato; sua total ojeriza à poesia lírica, derramada, tão ao gosto dos brasileiros; seu desprezo pela música e seu método de trabalho obssessivo, árduo e seco; seu vício por aspirinas e café; seu amor incondicional pelas artes plásticas. O poeta só acreditava na poesia que surgia do suor, nunca da inspiração. Sua busca é sempre extrair poesia do concreto, do real. Daí a designação “poeta sem alma”.

O interessante neste livro de José Castello é que foi escrito sem a preocupação da ordem cronológica. O leitor vai acompanhando a vida do poeta em espasmos de lembranças. Num ir e vir que vai adicionando aos poucos musculatura ao esqueleto inicial. Leitores costumeiros de biografias vão estranhar esse método. Mas a escolha do autor, a meu ver, foi a mais correta.

É como se nós estivéssemos o tempo todo ouvindo a voz do poeta. Eu tenho um CD com João Cabral recitando seus poemas. Lembro também de uma entrevista que ele concedeu a uma TV de Natal, por ocasião de uma visita que ele fez à nossa cidade nos anos 80. Uma palavra repetida, intercalando sempre as frases, como se fosse um gago. Uma timidez visível e um olhar penetrante de uma inteligência fora do comum. Castello conta também uma visita que Cabral fez a Natal para receber o presidente senegalês Leopold Sédar Senghor.

Através de José Castello vamos viajando com João Cabral pelos países onde ele exerceu sua profissão de diplomata. O ponto forte do livro é ligação que o autor faz das viagens do poeta e sua criação literária. Para o leitor que não conheça ainda a poesia de João Cabral, o autor ainda dá uma colher de chá crítica de cada livro do poeta. Quem já leu tem vontade de voltar a ler. Quem não leu ainda vai ficar doido para ir a uma livraria e comprar as obras completas de João Cabral de Melo Neto.

No meio da seriedade da crítica vão surgindo dados curiosos sobre a vida deste homem admirável. Mas nunca sobre a intimidade do poeta. Isso ficou vetado ao entrevistador. O capítulo final, intitulado Diário de Tudo é uma espécie de aula de jornalismo, em que Castello mostra as vicissitudes de entrevistar uma pessoa de temperamento completamente fechado.

No meio de tudo, surgem as amizades do poeta. As mais famosas como Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, entre muitas outras. Amizades fiéis, mas que nunca evitaram a opinião sincera, a divergência intelectual. Há também a opinião de João Cabral sobre outros poetas, opinião de arrepiar os cabelos de alguns puristas.

Aos poucos o leitor vai se familiarizando com O Cão Sem Plumas, A Educação Pela Pedra, Morte e Vida Severina, o Auto do Frade e (meu preferido) Sevilha Andando. Livros escritos sempre sob a força da memória. João Cabral nunca escrevia no calor do instante. As coisas ficavam adormecidas em sua mente para depois se transformar em poesia. Seu antilirismo radical acaba presenteando o leitor com uma poética viril, seca e direta como um soco no estômago. Em João Cabral não há adjetivos. Só substantivos.

No entanto é uma poesia extremamente musical. Pegue um poema qualquer de João Cabral e tente ler em voz alta. Você vai perceber a musicalidade da métrica, que ele exercia com rigor. Bastaria lembrar a musicalidade de Morte e Vida Severina, um texto poético transformado em teatro e musicado por Chico Buarque, sem o conhecimento do poeta. Ele achou que ficou melhor assim, sem sua interferência direta.

Depois tem aquela coisa profunda em João Cabral, o medo da morte permeando tudo. Um ateu que tinha medo do inferno. O livro de Castello desvenda também o lado frágil do homem João Cabral, sua vaidade mal disfarçada ao saber que era cogitado para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, seu medo de tropeçar e cair por causa da labirintite, seu pavor de multidões. Dessa leitura emerge um homem extremamente solitário, arredio às demonstrações de afeto público, teimoso, neurótico e muito sensível ao fazer poético.

Depois de ler este livro de José Castello corri para meu sistema de som e botei Caetano Veloso cantando a canção que diz “minha música vem de um poeta que não gosta de música”. Encomendei também o livro de Castello sobre Vinicius de Moraes, o poeta que é a antítese de João Cabral de Melo Neto. Agora tenho certeza de que nunca mais tentarei escrever poesia. Mas vou continuar escrevendo sobre poesia, isso sim.

Para encerrar gostaria de deixar vocês com um trecho do livro. João Cabral vai a um psiquiatra espanhol:

“Algumas sessões depois, o psiquiatra chega a um diagnóstico: ‘Sabe por que você fala tanto da morte do Nordeste? Para exorcizar seu próprio medo da morte’. A explicação, apesar de simplória, o assusta. Ao chegar em casa, ainda impressionado, comenta com Stella: ‘Acho que esse médico está certo’. O poeta pensa que, na morte, o mais duro é o processo, isto é, a lenta decadência que a anuncia. A morte, em si, não o comove. Está mentindo. Não consegue jamais se livrar da imagem do inferno marista, com aqueles diabos armados com garfos e ardendo em fogo eterno, que transformam a morte em castigo supremo.”

Por hoje é só, amigos. Espero ter compartilhado bem com vocês essa leitura que me deu tanto prazer.

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 1 =

ao topo