Um presente que o Chicomgue me deu

Março, 1954. Viadagem pública ainda era oficialmente punida com cadeia ou internamento nos EUA. Foi assim até Stonewall, em 69.

Homossexuality (Frank O’Hara)

So we are taking off our masks, are we, and keeping
our mouths shut? as if we’d been pierced by a glance!

The song of an old cow is not more full of judgment
than the vapors which escape one’s soul when one is sick;

so I pull the shadows around me like a puff
and crinkle my eyes as if at the most exquisite moment

of a very long opera, and then we are off!
without reproach and without hope that our delicate feet

will touch the earth again, let alone “very soon.”
It is the law of my own voice I shall investigate.

I start like ice, my finger to my ear, my ear
to my heart, that proud cur at the garbage can

in the rain. It’s wonderful to admire oneself
with complete candor, tallying up the merits of each

of the latrines. 14th Street is drunken and credulous,
53 rd tries to tremble but is too at rest. The good

love a park and the inept a railway station,
and there are the divine ones who drag themselves up

and down the lengthening shadow of an Abyssinian head
in the dust, trailing their long elegant heels of hot air

crying to confuse the brave “It’s a summer day,
and I want to be wanted more than anything else in the world

______

(tradução de Chico Guedes)

Então vamos tirar as máscaras, é? mantendo
nossa boca fechada? como se varados por um relance!

A canção de uma vaca velha não está mais cheia de julgamento
do que os vapores que escapam de nossa alma quando estamos doentes;

então cubro-me de sombras como um xale
e aperto os olhos como se no momento mais primoroso

de uma ópera muito longa, depois vamos embora!
sem reclamar e sem esperança de que nossos delicados pés

tocarão a terra outra vez, muito menos “em breve.”
É a lei da minha própria voz que investigarei.

começo como gelo, meu dedo no ouvido, meu ouvido
no meu coração, esse vira-lata orgulhoso na lata de lixo

na chuva. É maravilhoso observar-se a si próprio
com completo candor, somando os méritos de cada

uma das latrinas. A rua 14 está bêbada e crédula,
a 53 tenta tremer, mas também se acalma. Os bons

adoram um parque e os ineptos uma estação de trem
e há as divinas que se dragam para cima

e para baixo à sombra de uma cabeça abissínia
na poeira, arrastando seus elegantes saltos de ar quente

gritando pra confundir os bravos “É um dia de verão,
e eu quero ser querido mais do que qualquer coisa no mundo”

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 7 de dezembro de 2011 12:05

    tudo bem, chicomgue, nós adoramos…

  2. chico m guedes 6 de dezembro de 2011 23:04

    preciso voltar pra dizer, antes que outros mo apontem, que meu paralelo no primeiro comentário ficou escandalosamente pretensioso: Frank O’Hara era um poeta do caralho, por isso conseguia produzir primores comendo um hotdog. Eu sou um bosta.
    Fora isso pensei em ‘sem repreensão’, para ‘without reproach’. E pra curar o horrível ‘com completo candor’ que tal um ‘com inteiro candor’?

  3. chico m guedes 6 de dezembro de 2011 22:46

    e ‘vaca velha’ melhor não entendida como o quadrúpede, mas como, digamos, velha megera. paro por aqui que pau que nasce torto…

  4. chico m guedes 6 de dezembro de 2011 22:32

    ah, e ‘reproach’ é na verdade ‘censurar’ no sentido de criticar. no original temos o substantivo, mas por motivos de sonoridade (tanto sem censura como sem sensurar me soam mal, aliteração sibilante demais talvez) acho que outro verbo lexicalmente próximo sabe melhor em português. talvez ‘sem criticar’ fique mais fiel ao sentido original

  5. chico m guedes 6 de dezembro de 2011 22:18

    sem querer me eximir de nada, até porque não tem de quê, quero dizer q essa tradução foi feita durante uma conversa com jotamombaca_ no facebook, pra ajudá-lo na leitura do original que eu acabara de lhe enviar. Em outras palavras, não é produto de uma elaboração ou ‘diálogo’ prolongado com o poema. talvez até isso caia bem, tratando-se de Frank, pra quem poesia e cotidiano não estavam separadas em escaninhos, ele escrevia no intervalo de almoço do trabalho no MoMA, no meio de uma festa com muito álcool na cabeça, em qualquer lugar, sem pompa ou frescura – a frescura que interessava a ele outra. eu e jota discutimos apenas um detalhe ou outro quando surgiu a idéia de mandar por SP. diria apenas, pra, terminar, que no verso final ‘to be wanted’ em inglês tem mais a ver com ‘ser desejado’, do que com ser querido. embora, pensando bem, o ‘ser querido’ acrescente um edge ‘socioemocional’ interessante… xeros pra todos/as

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