Um romance de Fernando Monteiro

Por Ivan Maciel de Andrade
NA TRIBUNA DO NORTE

Fernando Monteiro – quem está minimamente atualizado com a literatura brasileira sabe – é um escritor pernambucano autor de vários romances premiados, de ensaios e biografias (que sobressaem pelo poder de recriação poética, como a de T. E. Lawrence), além de poeta com renome internacional, cineasta que produziu e dirigiu excelentes documentários e, por último, crítico de arte com numerosa e prestigiada colaboração em diferentes revistas culturais do país. Publicou recentemente o romance “O livro de Corintha” (2013, Companhia Editora de Pernambuco), que recebeu o “Prêmio Pernambucano de Literatura”. Este seu novo romance representa uma densa e significativa contribuição à renovação dos padrões ficcionais vigentes em nosso país. E isso se dá através de original técnica narrativa e de uma linguagem repleta de construções verbais que já valem, quando isoladas, por um engenhoso artesanato de prosa literária, em que são tecidas as múltiplas tramas que compõem o romance.

Tenho a impressão de que no centro dos fios narrativos que entrelaçam os personagens – todas essas narrativas coexistindo no entrecho do romance – há um foco direcionado para a própria ficção, para esse gênero literário, como se a intenção fosse mostrar que a ficção constitui matéria independente do autor que a cria (ele não passando também de mero personagem ficcional). Por isso é que o romance se estende muito além dos episódios relacionados à produção do livro que é ditado pelo escritor cego, Methódio Guerreiro, à sua datilógrafa recém-contratada, Corintha Arnaud. Muitas tramas fragmentárias se desenvolvem a partir daí. De tal forma que se propõe um desafio ao leitor: descobrir qual a principal dessas tramas. Mas será que alguma de fato se sobrepõe às demais?

A do personagem “voyeur” que Methódio (um escritor cego, não esqueçamos) cria, um personagem que se dedica a “brechar” a moça de um apartamento em frente, numa complexa rede de sentimentos que demonstram o quanto se pode ver quando se quer e se tenta ver? A própria história de Corintha e de seu relacionamento com Methódio, que ela admira intelectualmente (embora altere, de vez em quando, temerariamente, o texto que lhe é ditado), mas cujas reações, diante dela, da vida e da própria atividade literária, não consegue entender? A envolvente história de guerrilheiros fugitivos descrita no “Anelante” da escritora ítalo-cubana Alba de Céspedes (livro que Corintha lê nos intervalos das sessões de trabalho): a história de Lui, o líder, de forte e contraditória personalidade, e de Frigo, cuja morte provoca horror e asco – o seu corpo é tomado por chagas que o levam à putrefação?

Para facilitar meu trabalho, devo estabelecer algumas características excludentes em relação ao romance “O livro de Corintha” de Fernando Monteiro: não é um romance de entretenimento; não permite, por isso mesmo, a leitura linear como ocorre quando se trata de uma trama bem ou mal urdida com início, meio e fim; a linguagem usada no livro é suntuosamente metafórica, com uma forte impulsão poética, que exige do leitor maior concentração no estilo, em detrimento do fluxo narrativo. Em síntese: um romance de extraordinário valor literário, que renova e valoriza a ficção brasileira.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. François Silvestre 27 de Abril de 2014 10:26

    Um craque resenhado por outro craque. Fernando Monteiro, que conheço pela literatura e Ivan Maciel, que conheço desde os tempos da vetusta Faculdade de Direito. Professor e amigo, a quem dedico afeto e admiração.

  2. Jarbas Martins 27 de Abril de 2014 10:49

    Volta, Fernando Monteiro. Venha pro Substantivo Plural, Ivan Maciel.

  3. Lívio Oliveira 28 de Abril de 2014 8:17

    De fato, Jarbas tem razão. Seria ótimo termos aqui o nosso Monteiro de volta. E se ganhássemos a colaboração de Ivan Maciel….seria fantástico!

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