Um romance kafkiano de Haruki Murakami

A carreira do adjetivo “kafkiano” na literatura contemporânea parece não ter limites. Sua presença se faz sentir nas mais diversas latitudes.

E a literatura japonesa não se constitui uma exceção a essa tendência. Nas 570 páginas de “Kafka à beira-mar” (Alfaguara, 2008, Prêmio Kafka 2006), de Haruki Murakami, em tradução de Keiko Gotoda direto do japonês, o tema tipicamente kafkiano do estranhamento do mundo é de uma constância ininterrupta.

A presença kafkiana nesse longo romance se impõe mediante algumas escolhas que o romancista fez no decorrer da história. Lembremos que ele confessou, em recente entrevista ao diário francês Le Monde, que quando escreve um romance, nunca consegue antecipar seus próximos desdobramentos. Acontece que entre o factual e o fantástico Murakami se vê obrigado às vezes a descurar deste em benefício da continuidade. Coisas ficam por explicar ao longo do caminho. O problema que frequentemente ocorre com esse tipo de narrativa é que o leitor é instado a dar um crédito de confiança ao autor a que este, a rigor, não corresponde.

Lembremos, porém, de certas narrativas médias de Kafka catalogadas sob a rubrica “Narrativas do espólio” (Companhia das Letras, 2008) pelo tradutor Modesto Carone. Referimo-nos a “Blumfeld”, “Uma mulher pequena” (‘Eine kleine Weib’) e “Josefina”, entre outras, contos que deixam perguntas não respondidas para trás, como se a mera colocação do excepcional na vida de um personagem solitário (o herói kafkiano é quase sempre um ser desamparado no mundo à espera de uma catástrofe que ele sabe iminente) se explicasse por si mesma. “Blumfeld”, por exemplo, conta de um empregado de fábrica solteirão que depara, ao chegar a casa, com duas bolas que saltitam alternadamente, como dotadas de vontade própria. A surpresa do protagonista não o impede de tentar contê-las, o que só consegue após usar de vários ardis. Em seguida, deixa o apartamento para se dirigir ao trabalho, pois é um trabalhador pontual e nada o faz alterar seus hábitos. Mas antes de tomar o caminho do trabalho tenta se livrar definitivamente das bolas indesejadas oferecendo-as a duas meninas, filhas de uma vizinha. As meninas aceitam subir ao seu apartamento, após receberem as chaves da mão de Blumfeld, mas este não as acompanha, o que impede que saiba que desfecho terá o encontro das garotas com as bolas que saltam. A continuação da narrativa congela esse episódio e prossegue nas relações de trabalho do protagonista, não menos problemáticas do que as vividas em seu apartamento.

Por que razão Kafka realiza esse tipo de recorte em suas narrativas, como que extraindo-o do tecido da trama como partes indesejáveis? Uma razão plausível é que o excepcional nunca se repete da mesma forma, sob pena de perder sua condição de excepcional. Por isso, por não admitir que as bolas continuassem “excepcionais” para duas crianças ainda não conscientes da sentença fatídica que diz que “toda culpa é indiscutível”, Kafka preferiu imprimir à sua história uma inflexão desviante, retirando-as do foco da narrativa.

Sob esse aspecto, Murakami é genuinamente kafkiano em seu romance “Kafka à beira-mar”. Perguntas cruciais têm de ser ignoradas para que a narrativa flua, como que compensando-se daquilo que não foi capaz de explicar. A figura do ykiriou, espécie de alma errante de um ser vivo, emprestada do clássico “Contos do sol e da lua” (‘Ugetsu Moragatari’), de Ikinari Ueda, é tão somente um recurso a mais na busca de manter cativo o leitor.

O problema maior de “Kafka à beira-mar” talvez seja o excesso de personagens que se alternam na ribalta do drama. O menino chamado Corvo é apenas mais um, espécie de consciência crítica do jovem Kafka Tamura, e que é forçado a protagonizar um episódio que poderia ser retirado do livro com vantagem. O “bom leitor” desse romance, em última instância, torna-se “cúmplice” de seu autor.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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