Um romance potiguar com gosto de romantismo

NA TRIBUNA DO NORTE

Quando estou de férias ou num período de pouco trabalho como estou atravessando agora (vida de jornalista free lancer em Natal é uma história de terror à parte), mergulho freneticamente na leitura. Uma pilha de livros olha para mim cobrando leitura urgente e eu vou selecionando alguns livros que levo preguiçosamente para a rede estendida na minha varanda de Pium.

Separei este Carla Lescaut, de Cefas Carvalho, Fundação Vingt-Un Rosado, Coleção Mossorense, 151 páginas. É um romance nos moldes clássicos do romantismo em que o autor se propõe a contar uma história de amor que não deu certo. Leitura fácil que pode encontrar uma boa quantidade de leitores interessados nas peripécias amorosas do personagem principal, acho que principalmente leitores jovens vão gostar desse livro.

Mas o que me chamou a atenção nesse romance de Cefas Carvalho foi algo que vem me inquietando nos últimos tempos. O que faz um livro ser de sucesso ou não. Eu vi o filme sobre o escritor Paulo Coelho e fiquei curioso para saber como ele se tornou um autor tão lido no mundo inteiro. Folheei algumas coisas escritas por ele e não encontrei nada além de uma escrita que busca agradar ao leitor, dizer o que ele quer ouvir. Num mundo perplexo com a ausência de Deus e o fanatismo religioso do outro lado, Paulo Coelho oferece um bálsamo de conselhos espirituais que consolam, numa boa, tantas almas atormentadas. Bingo! Vende como água mineral em dia ensolarado.

Os autores que buscam seguir modelos mais sofisticados, buscam a chamada alta literatura e não vendem nem um décimo que o Mago vende. Aí surge uma pergunta, e daí? Quem diabo quer ser best seller?

Uma frase que pipocou nas redes sociais dá uma pista sobre isso: “o sonho de todo escritor é escrever como João Guimarães Rosa e vender como Paulo Coelho”.

O que pretendia então Cefas Carvalho ao contar essa história de um amor fracassado? Não sei, acho que só saberemos perguntando a ele. Que tipo de linguagem ele se utilizou? Uma linguagem basicamente coloquial, o mesmo que falam seus amigos e colegas de trabalho. Ele mostra uma Natal facilmente reconhecível se circularmos pelos bares da moda frequentados por publicitários, jornalistas, blogueiros e quetais.

Li um artigo de François Silvestre em que ele condena esse desejo louco dos literatos natalenses de ter um grande autor de reconhecimento nacional ou até internacional. Ele diz que não precisamos desse grande escritor. Temos muitos e bons escritores e a soma deles faz com que estejamos no caminho de forjar uma literatura sólida.

Concordo com François Silvestre. Nós não temos ainda esse grande escritor. Alguns chegaram bem alto, mas ainda não temos um Guimarães Rosa ou um Coetzee. Portanto, saúdo a chegada de mais esse prosador que é Cefas Carvalho. Ele já experimentou a poesia e agora chega na prosa. O grande escritor americano William Fauckner disse numa entrevista (não necessariamente com essas palavras) que os escritores começam na poesia, por que querem ser poetas. Depois que percebem a dificuldade de fazer isso, partem para o conto e decepcionados de novo, seguem para o romance.

Não sei se é essa a trajetória de Cefas Carvalho, mas tem sido a de muitos escritores que eu conheço. Pois bem, aí está a nossa Carla Lescaut, que tem algum traço da original Manon Lescaut, do Abade Prévost, certamente a inspiração para o romance de Cefas Carvalho.

Eu não sou a pessoa indicada para dizer se esse ou aquele romance deva ser escrito assim ou assado, mas como bom leitor eu acredito que sem uma estrutura de tragédia, dificilmente um romance vingará. Basta você olhar para a estrutura dos grandes romances, que estará lá o herói se deparando com uma grande dificuldade que ele superará ou não.

Do Crime e Castigo, de Dostoiévski até Ulysses, de James Joyce, você encontra lá o sujeito diante de um grande problema a ser enfrentado. Não encontrei isso no romance de Cefas, a não ser que se considere uma desilusão amorosa um grande problema. Mas façam vocês suas próprias leituras e não levem muito em conta minha opinião.

Faço votos que Cefas Carvalho continue trabalhando no sentido de nos dar bons textos, ele tem talento para tanto. Torço pelo seu sucesso, mas não sei que tipo de sucesso ele pretende. Vender muito ou apenas fazer um bom romance.

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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