Um romance sem importância?

Por Marcel Lúcio

O romance Caetés (1933) é o livro de estreia do escritor Graciliano Ramos (1892-1953). Os críticos tendem a classificá-lo como uma espécie de ensaio para a obra maior do autor. Segundo Antonio Candido, o referido romance funciona como “um exercício de técnica literária mediante o qual [Graciliano Ramos] pôde aparelhar-se para os grandes livros posteriores”. Motivado por esse juízo crítico exposto por Candido no famoso ensaio Ficção e confissão (1956), Caetés é posto, em alguns casos sem nenhuma análise, em plano secundário nos estudos referentes à obra de Graciliano Ramos. Para se ter uma visão mais completa da narrativa e perceber suas qualidades, é pertinente o exercício de contextualizar o romance no momento de sua publicação, observar sua perspectiva estética e analisar como esta narrativa pode se relacionar com as outras obras do autor.

A gênese da obra romanesca de Graciliano Ramos localiza-se no ano de 1924, em Palmeiras dos Índios. Passando por dificuldades econômicas para manter seu estabelecimento comercial e ainda convalescendo do falecimento de sua primeira esposa, Graciliano, como modo de evasão a esses problemas, decidiu redigir algumas narrativas. Escreveu três contos que funcionaram posteriormente como embriões para os romances Caetés, S. Bernardo (1934) e Angústia (1936). Na crônica “Alguns tipos sem importância”, publicada na imprensa carioca em 1939 e republicada no livro póstumo Linhas tortas (1962), Graciliano comentou: “Há alguns anos, porém, achei-me numa situação difícil – ausência de numerário, compromissos de peso, umas noites longas cheias de projetos lúgubres. Esforcei-me por distrair-me redigindo contos ordinários e em dois deles se esboçaram uns criminosos que extinguiram as minhas apoquentações. O terceiro conto estirou-se demais e desandou em romance, pouco mais ou menos romance, com uma quantidade apreciável de tipos miúdos desses que fervilham em todas as cidades pequenas do interior”.

O terceiro conto que “estirou-se demais e desandou em romance” é Caetés, que só veio a ser publicado quase dez anos após o início de sua redação. O caminho para a edição e distribuição dessa narrativa é uma história à parte. Permaneceu por muitos anos na gaveta, mas em 1930, Graciliano Ramos, exercendo o cargo de prefeito de Palmeiras dos Índios, teve a necessidade de redigir relatórios ao governador do Estado dando conta de suas realizações na prefeitura. Os dois relatórios, escritos em linguagem literária e com alto teor de ironia, repercutiram na imprensa nacional. O editor Augusto Frederico Schmidt deduziu que, por trás do autor dos relatórios, havia um romancista e enviou carta pedindo a Graciliano o romance escondido na gaveta. Conforme ressalta a biógrafa Clara Ramos, Graciliano tinha o costume de queimar a sua produção escrita. Caetés conseguiu escapar à fogueira. Por isso, em 1930, foi enviado a Schmidt. Na editora, o romance foi extraviado. Só em 1933, após reviravoltas econômicas sofridas pela editora e mudanças políticas em todo o país, é que o romance finalmente foi lançado.

Acontece que, como observa o estudioso Luís Bueno, no ensaio “Uma grande estreia”, nos anos que se passaram entre a escrita e a publicação de Caetés ocorreu uma mudança significativa no romance brasileiro, que deixou de seguir os moldes do estilo realista/naturalista tradicional e adotou uma perspectiva mais próxima ao debate sobre os problemas sociais da realidade regional brasileira. Em 1928, foi lançado o romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, e, em 1930, O quinze, de Rachel de Queiroz. Esses romances apontaram para uma nova vertente estética dentro da narrativa brasileira e consequentemente “superaram” o realismo/naturalismo tradicional. Deste modo, a crítica do período leu o romance Caetés o filiando, inicialmente, ao “ultrapassado” estilo naturalista, fato que ocasionou uma impressão de que a narrativa de estreia de Graciliano era apenas uma mera imitação de um padrão formal em desuso naquele momento.

Assim, a interpretação que se difundiu de Caetés é a de que, em linhas gerais, o romance narra, ao estilo do escritor realista português Eça de Queirós, a relação adúltera entre João Valério, funcionário de uma firma comercial, e Luísa, esposa do patrão de João Valério. A história se passa em Palmeiras dos Índios, no decorrer dos anos 20 do século passado, entre 1926 e 1928. Após receber denúncia anônima da traição, o marido de Luísa, Adrião Teixeira, comete o suicídio. Paralelo a esse enredo, João Valério, narrador, tenta construir um romance no qual sejam contadas as aventuras dos índios selvagens que habitavam, no século XVI, a região onde morava.

Do ponto de vista estético, são destacados pela crítica tradicional os seguintes aspectos: o uso expressivo do diálogo, que imprime agilidade ao ritmo da narrativa; a linguagem, que busca certa proximidade ao coloquialismo; e as reflexões metalinguísticas existentes no decorrer do enredo, pois, com o recurso de alocar um narrador-personagem construindo um romance dentro de um romance, o autor demonstrou alguns posicionamentos críticos em relação ao gênero textual em evidência.

Luís Bueno aponta algumas características que distanciam Caetés da vertente naturalista pura e simples. Por exemplo, o romance de Graciliano possui um narrador em primeira pessoa, aspecto que o torna destoante do romance naturalista tradicional, que geralmente trazia o narrador em terceira pessoa como uma forma de enfatizar a ação no ambiente externo. Graciliano utiliza-se, em Caetés do cenário externo para analisar o aspecto interior do protagonista da narrativa; de como João Valério sente-se inferiorizado em sua cidade e de que maneira isso se reflete em sua personalidade e ações. A narrativa naturalista preocupava-se apenas com o coletivo, jamais com o indivíduo. A partir dessa compreensão, Bueno afirma: “É que, em Graciliano Ramos, o indivíduo é o interesse central, mas não se trata de elemento isolado, não se dissocia da experiência coletiva social”. Por meio dessa percepção, Bueno associa João Valério a personagens como Paulo Honório, de S. Bernardo, e Luís da Silva, de Angústia, pois ambos possuem individualidades influenciadas pela relação com o meio social.

Desenvolvendo o pensamento comparativo e percebendo a ligação entre Caetés e a produção literária posterior de Graciliano Ramos, o professor Marcos Falleiros observa que o referido romance põe em destaque questões fundamentais à narrativa de Graciliano e seu processo de criação, como a conhecida falta de imaginação do autor e necessidade de ancorar a ficção à realidade. Caetés, no momento de sua publicação, causou desagrado aos moradores de Palmeira dos Índios que se julgaram representados no romance. Graciliano negou a correspondência direta, mas Falleiros consegue provar, em artigo publicado sobre a obra, que a relação entre realidade e ficção existe verdadeiramente nesta narrativa e que, por isso, o desagrado das pessoas não foi injustificado.

Deste modo, tal obra serve como um prenúncio ao desenrolar da produção narrativa de Graciliano, que, como observou Candido, percorre o caminho da ficção à confissão, dada a necessidade do autor de vínculo com o real, com a verdade. Percebe-se, portanto, já em sua primeira obra, o diálogo com a realidade circundante, Palmeira dos Índios. Nas obras que se seguem, sinalizando bem a busca pela compreensão dos fatos, esse contato com o real se expande para outros espaços maiores: região nordeste (Vidas secas, 1938), Brasil (Memórias do cárcere, 1953), União Soviética (Viagem, 1954). Assim, observando toda a sua obra, constata-se que Graciliano realiza uma espécie de movimento de interpretação da realidade que parte do particular para o geral, do individual para o coletivo, do local para o universal.

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

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