Um romântico incurável

Natal ainda acoberta em cada esquina um poeta e em cada beco um jornal, como afirma a epígrafe datada do início do século 20 e ainda atual. A produção de romances na cidade do folclorista Cascudo ainda é incipiente. Nei Leandro de Castro, François Silvestre e outros poucos arriscam algumas palavras geralmente ambientadas nos chãos potiguares. Mas numa rua estreita, espremida entre a Apodi e a Jundiaí, no Tirol, mora um senhor de 72 anos. Na estante de Raymundo de Sá há livros de filosofia aos montes. Entre eles três romances de sua autoria. E também uma antologia portuguesa de poemas, a qual guarda cinco poesias de Raymundo.

Nos fundos da casa também transformada em lan house improvisada, Raymundo se debruça em estudos de lógica quântica e produção literária. A figura de Raymundo se confunde com o personagem de Gabriel García Márquez, em Memória de Minhas Putas Tristes. O protagonista é um nonagenário solitário, cronista que descobre os prazeres da vida tomado pelo medo do amor. Raymundo é um romântico incurável, casado com a universitária do curso de Letras, Elizabete e com a imaginação e romances vividos em tempos outros. As frases proferidas têm sempre palavras cavalheirescas ou tiradas sacanas bem postadas, em fino requinte.

Os três romances escritos por Raymundo são uma trilogia. Um deles – Potyra – foi publicado em 2005 pela Lei de Incentivo Djalma Maranhão. Conta o romance entre a índia Potyra e o narrador-observador da ficção, Mauro. Os cenários amazonenses são descritos com propriedade. Raymundo é manauara de nascença. Ronda o Nordeste há 28 anos e se estabeceu em Natal há seis. Conhece os palmos dos igarapés e terras ilhadas daquelas paragens nortistas. Ainda assim mergulhou em pesquisas para escrever o livro, como na linguagem tupi-guarani e fases da lua, temáticas recorrentes no romance. A filosofia integra a formação profissional de Raymundo e serve de alicerce à construção de encadeamentos bem arquitetados no enredo de Potyra.

Como afirma o crítico literário Émile Faguet, o meio mais comum e a melhor garantia recorrente aos romancistas conhecedores de seu ofício é o de cercar os casos expecionais de um bom número de fatos cuja observação é, ao contrário, bem corriqueira, e que são bastante conhecidos. É um modo de ganhar a confiança do leitor, pois se percebe no romancista a competência para observar o que o leitor observa, e assim também provoca o respeito diante dos casos expecionais relatados. Raymundo usa este artifício com propriedade ao unir o corriqueiro e o excepcional à narrativa de Potyra.

Raymundo de Sá é universal quando narra uma história clássica de amor. E se muito do enredo é explicado em cada parágrafo, o amor – fio condutor da narrativa – permanece misterioso como sua essência. Mesmo o fim surpreendente encobre a clareza das respostas e incita novas leituras, complementadas nos outros dois livros da trilogia ou mesmo nas poesias que escreve.

Raymundo foi, talvez, o único poeta residente no Nordeste a integrar a antologia poética publicada em Portugal. Ainda assim teve seu livro de poemas rejeitado pela comissão da Fundação José Augusto. Uma das cinco selecionadas no livro se chama “Se explicado, amor não foi”. Segundo Raymundo, o amor é inexplicável. “Se alguém disser que ama pela beleza, pela simpatia, pela simplicidade, inteligência, não é amor, ele já explicou o que é: admiração. Se explicado, amor não é”. Em outra poesia, Raymundo escreve:

Desejava que ligasses,
Não esperava que ligasses,
Não ligaste,
Esperei.

Imaginei que viesses,
De vestido branco,
Toda molhada de chuva,
Não vieste.

Sonhei que aqui ficavas,
Tiravas o vestido branco,
Vestias minha camisa,
Só sonhei.

Nas mãos o teu cheiro,
Na boca, o teu gosto,
No peito a saudade,
Acordei.

Por entre as frestas: o sol,
A claridade, o novo dia,
A sala vazia,
De ti.

O segundo livro da trilogia, As rosas dos dias três, traz novos elucidamentos. O livro está concluído e já aprovado pelo Programa Djalma Maranhão, da Capitania das Artes. Espera agora concluir a burocracia para o patrocínio da iniciativa privada. Dois hospitais demonstraram interesse no financiamento e o livro deve chegar às livrarias em breve, sem lançamentos em livrarias prestigiadas da cidade ou qualquer pompa. Se vale mais discrição, Raymundo ainda assina com o pseudônimo de Richard Sullivan. O nome é mero joguete com as iniciais do nome de batismo.

O terceiro e último livro está no “prelo da mente” e se chama Evelyn. Com ele, a geografia temporal da trilogia compreende um período de três gerações. São cerca de 100 anos e a necessidade de pesquisa de costumes e detalhes de cenários de época. Tanto trabalho faz Raymundo se emocionar ao ler trechos da sua obra. Lê como se recitasse cada palavra. Tem prazer – como todo autor – em mostrar seu trabalho. Se veste mesmo dos personagens e até expressa na face cada sentimento, seja de raiva, nojeira ou alegria. Chora quando a frase toca a alma. Como nas poesias que escreve.

*Matéria publicada nesta segunda-feira no DN

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