Adiado lançamento de “São Serapião”

Demétrio Diniz, escritor e poeta: Aproveito para falar sobre atitudes racistas vistas em um lugar onde a presença do negro não foi tão intensa quanto no litoral

Amigos,

O escritor Demétrio Diniz informa que o lançamento do seu livro “Idas e Vindas de São Serapião”, que seria nesta sexta-feira, 28, foi adiado devido a decisão do Midway de encerrar suas atividades à tarde. Uma nova data será marcada e anunciamos aqui.  O shopping fecha devido à manifestação popular marcada para hoje na cidade. TC

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NA TRIBUNA DO NORTE

“Na minha escrita a memória é a alavanca, e parte das histórias se situa num universo interiorano de décadas passadas; mas há espaço para inspirações em fatos históricos e temas atuais”, resume o escritor Demétrio Diniz ao comentar o conteúdo do novo “Idas e Vindas de São Serapião” (110 páginas, R$ 30), livro que lança amanhã, às 19h, na livraria Saraiva do Midway Mall. Este é o segundo livro de contos do autor, também conhecido por suas poesias. Nesta obra, Diniz reuniu 15 contos produzidos ao longo dos últimos sete meses.

DivulgaçãoDemétrio Diniz, escritor e poeta: Aproveito para falar sobre atitudes racistas vistas em um lugar onde a presença do negro não foi tão intensa quanto no litoralDemétrio Diniz, escritor e poeta: Aproveito para falar sobre atitudes racistas vistas em um lugar onde a presença do negro não foi tão intensa quanto no litoral

Apesar de pender para o perfil histórico e memorialista, os contos não deixam de esbarrar em assuntos atuais como a exploração sexual de menores e racismo. “Nada é real e nada é ficção, chamo de colagem. Há muitos personagens reais, mas é sempre bom dar uma temperada para tornar a história mais interessante”, disse.

No texto que empresta título ao livro, Demétrio Diniz traça paralelo entre São Serapião, um santo negro, e o vaqueiro do sertão nordestino. “Aproveito para falar sobre atitudes racistas vistas em um lugar (o sertão) onde a presença do negro não foi tão intensa quanto no litoral”, disse o autor, reforçando que sua literatura não é panfletária ou de denúncia: “Foi a forma que encontrei para contar minhas histórias e ainda gerar reflexão sobre questões delicadas como preconceito, religiosidade e abandono”.

O São Serapião do título não é personagem central, ele aparece em apenas um conto, mas o destaque na capa está relacionado à forte religiosidade que caracteriza as origens geográficas do autor, que assim como o “santo preto” nasceu em Alexandria. “Sendo que ele é de Alexandria do Egito”, avisa. “A religião está entranhada na nossa terra, tem a ver com o Nordeste, com nosso chão”, enfatiza.

No conto, o santo reflete sobre sua condição de mero objeto: “Quando deixou Lisboa, num frio duro de inverno, Serapião não viu o Telo envolto em neblina, nem a mulher que se exercitava solitária na calçada que margeia o rio. Embora santo, nada pôde ver ao seu redor, despachado que fora numa caixa de madeira…”

Para casar as ilustrações em traços de nanquim que precedem cada um dos 15 textos, Demétrio enviou seus contos ao ilustrador Albert Lacet e deixou o artista paraibano fazer sua leitura visual das histórias. “Não interferi em nada, e gostei muito do resultado”, comemora o escritor.

Nascido no rastro do trem entre Mossoró e Sousa (PB), o poeta Demétrio Diniz criou a Capitania errante de Mombaça para sua fase de contista. Autor de cinco livros de poesia, entre eles “Um homem sem poesia”, “Passarás”, “Haveres” e “Ferrovia”, tem se dedicado mais a prosa nos últimos tempos: “Este é meu segundo livro de contos, tenho encontrado mais prazer na prosa”, confessa. Em março do ano passado Diniz publicou “Sob o céu de Natal”, o primeiro da nova fase.

Após o lançamento, “Idas e Vindas de São Serapião” segue disponível nas prateleiras das livrarias Saraiva.

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Trecho do conto “Uma Tarde em Bucareste”

 “Na calçada da Estação Ferroviária, o rosto imerso num saco preto de plástico, meia dúzia de rapazes cheira cola no final da tarde. Um deles, cambaleando, senta na amurada e deixa o corpo tombar para trás. Tenta olhar para cima, mas não consegue. Um homem forte, o corpo tatuado, estapeia-o na intenção de reanimá-lo. Bate com força na sua cara, até sangrar. O rapaz continua inerte, revirando os olhos. O homem tatuado torna a bater e por fim desiste. O capitão Nicomedes assiste impotente àquela cena. Tinha ido comprar umas passagens e descansa na mesma amurada. Bebe cerveja. Já deve ser a sexta garrafa na tarde. Onde passa, abastece a mochila com cerveja (…) Está num país estrangeiro, sem farda, sem autoridade, e não pode mais que um turista comum…”

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