Um sincericídio (e a parte final dos seis livros que estou sempre lendo)

Imagem: Nicolás Santiago Romero Escalada

Por Luisa Geisler
BLOG DA COMPANHIA

Olá, desculpa, bom dia, boa tarde, boa noite, como está, com licença. Vou cometer um pequeno sincericídio, desculpa, com licença. Obrigada, de nada, desculpa. Aqui está:

(insira música dramática)

Não vou terminar a segunda parte do post dos seis livros que estou sempre lendo.
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Eu queria comentar sobre como comecei a ler Moby Dick, que configura um clássico. No entanto, o peso do livro e meu medo de estragá-lo na mochila tem feito com que ele lentamente passe para a categoria de “parado”. A intenção era ser uma apresentação de ideias orgânicas, que se constrói e faz o leitor fazer “sim” com a cabeça.
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Existe um momento em que o autor tem que desistir. Tem que ir ao cerne da força do texto e perceber que ele (o cerne ou o texto) nunca esteve lá. A imagem que melhor me ocorre é que esse cerne da força seria como o reator arc do Homem de Ferro. Um Homem de Ferro sem reator arc seria como um Lolita em terceira pessoa.
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O texto deveria terminar mencionando como estou ouvindo o audiobook de Orange is the new black (Tantor Audio, 2012) e sobre como eu amo audiobooks e sobre como sempre que me perguntam se os e-books vão dominar o mundo, eu me pergunto se essa pessoa já ouviu falar dos audiobooks.
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E inclusive por isso brinquei com a procrastinação na crônica anterior. A barreira entre o idealizado, bonitinho nas ideias, e o real, o que se pode fazer com essas ideias, é imensa. O ato de escrever exige, por um lado, muito ego (“o que eu tenho a dizer importa”) e, por outro, uma humildade imensa para perceber o que se é capaz de fazer. Claro que se pode desenvolver o que se é capaz de fazer, mas ainda assim. Escrever requer humildade. Bom, pelo menos o ato de escrever bem.
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Queria fazer um pequeno tratado/ensaio interessante e informativo, embora levemente quirky, sobre como estou estudando alemão para provas de proficiência e como isso tem enlouquecido não só meu uso de palavras (imaginem três sufixos grudados), mas também a ordem das palavras nas frases. A ideia seria uma reflexão sobre como a ordem padrão das frases em alemão (Sujeito + Verbo + Objeto Indireto [no caso de Dativ] + Objeto Direto) tinha transformado a minha escrita em algo mais confuso do que ela é. Também é importante lembrar como a ordem padrão dos advérbios (Tempo, Modo, Lugar) soa engraçada (ou seja: escrevi ontem eficientemente em casa [espero que o Marcelo Ferroni, meu editor, leia]). Esse seria o trecho quirky, com menções a filósofos e desconstruções de estereótipos. Seria o alívio cômico.

Aliás, nunca esqueçam de como os verbos apartáveis (trennbare Verben) podem, com um prefixo, mudar o sentido inteiro na última palavra da frase. Sim, o prefixo como a última palavra da frase. Ia ser um texto lindo. Vocês tinham que ver.
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E foi por isso que o post da lista dos seis livros foi para o lixo. Não estava ficando como eu gostaria. Era um problema com a lista em si, com como eu queria apresentar as ideias. Tenho uns cinco documentos de Word para comprovar, todos escritos, e tudo meio fraco. Meu melhor resultado foi mecânico, cumpria uma tarefa a terminar, listando e falando, listando e falando, até bater o cartão. Eu até poderia terminar a lista, de verdade, agraciar o T.O.C. alheio, mas: pra quê?
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Queria fazer um texto sobre ser criada na Vila Militar no V Comar em Canoas e nos aviões e nas transferências e no sentimento de não-lugar. A segunda metade do texto analisaria o clichê do sentimento de não-lugar.
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Algumas ideias têm que ficar na cabeça por mais tempo. Ou nem sair. Ou sair antes de crescer demais. Algumas ideias soam boas num boteco, soam boas na estrutura, soam boas nas frases isoladas que a gente anota para usar em algum lugar, mas o conjunto não funciona. E, às vezes, projetos têm tudo para dar errado e funcionam. É um problema grave da literatura, que as coisas só existem na nossa cabeça e têm que existir na cabeça dos outros. Gravíssimo. Eu deveria fazer um texto sobre isso.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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