Um telefonema para Orides Fontela

Por José Castello
O GLOBO

Guardo muitas miudezas entre as páginas de meus livros. Cartões enviados por amigos, recortes de jornais, fotografias, registros de frases que li, ou que ouvi. Anotações de sonhos, de pensamentos, de ideias súbitas. Títulos de livros que nunca escrevi. Nomes esquisitos de cidades, de cachorros, de constelações, palavras que não sei o que significam, ou que desprezo.

Versos, muitos versos soltos. Restos, enfim, de minha vida banal, que preservo como provas de que, sim, apesar da grande dispersão, eu consigo viver. Reencontrar essas miudezas me ajuda quando estou desanimado, ou triste. São pegadas, que confirmam o quanto já avancei.

Ontem, folheando um livro, encontrei, em uma tira de papel arrancada da borda de um jornal, alguns versos de Orides Fontela _ a grande poeta, de que poucos, infelizmente se lembram. Dizem os versos que anotei: “Duas coisas admiro: a dura lei/ cobrindo-me/ e o céu estrelado/ dentro de mim”. Tirei-os de “Kant (relido)”.

Está tudo ali. Ali está sua poética. E, mais ainda, sua maneira de resistir. Primeiro: o reconhecimento das graves limitações humanas, que constituem, na verdade, a única lei que nos submete. Somos senhor e escravo _ tudo se passa em nosso interior. Podemos o que podemos. O que não podemos, não podemos. É simples assim a dura lei que nos encobre.

Mas, logo em seguida, e apesar da lei, Orides aponta o rombo infinito que guardamos no coração. Resume: “O céu estrelado/ dentro de mim”. Sofreu, como poucos, da consciência extrema desse abismo. Viveu uma existência nômade, vagando pelas ruas de São Paulo, dependendo quase sempre da ajuda dos amigos. Provou do suco amargo da lei. Isso não a impediu de ser uma grande poeta. Ao contrário: tornou isso possível. Todo poeta empurra uma parede.

A Cosac Naify publicou, em 1996, sua Poesia reunida. Nela capturei esses versos que, aos garranchos, copiei em uma borda de jornal. Guadei-os entre as páginas de um livro qualquer. Livros são seres vivos. O mundo se agita e respira em seu interior. Por isso as traças os devoram, páginas suculentas e cheias de sangue.

Pego a Poesia reunida e, sempre aceitando a lei do acaso, chego a “Mapa”, outro poema de Orides. Esbarro no verso final: “Eis a carta dos céus: tudo se move”. Ali fico, à espera de um fecho inexistente. Apesar do que eu faça, ou deixe de fazer, a vida se movimenta. E isso não para.

Orides morreu em 1998, aos 58 anos de idade. Sozinha, triste, abandonada _ sobretudo por si mesma. Pouco antes de morrer, e depois de muita insistência, aceitou me dar uma entrevista. Exigiu uma conversa por telefone _ não queria que eu a visse. Era apenas uma voz, abstrata e fluida, desprovido de corpo. Não queria ser mais que isso.

Foi ríspida e indiferente, falava com má vontade, como se eu fosse um detetive, ou um carrasco. Não demorou muito e cortou a conversa. Usou uma frase seca, que senti como uma facada. Disse simplesmente: “Vou desligar. Não há fim, nem início”. Só depois descobri que repetia um de seus versos.

Eles me remetem a outro verso de Orides: “Apenas o caminho, apenas seguir o caminho, nada mais”.

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