Entrevista com o escritor Salman Rushdie

Por Guilherme Freitas
O GLOBO

RIO – O choque entre razão e fanatismo é um tema central na obra e na vida de Salman Rushdie. Nascido em uma família muçulmana na Índia, em 1947, o escritor se viu envolvido nesse conflito pela primeira vez em 1989, quando o regime iraniano o condenou à morte por causa de sua representação do profeta Maomé no romance “Os versos satânicos”. Hoje radicado em Nova York, Rushdie já não vive escondido e cercado de seguranças, como precisou fazer por muitos anos, mas ainda recebe ameaças. Em fevereiro, jornais extremistas iranianos noticiaram uma recompensa de US$ 600 mil por sua cabeça. Rushdie não se impressiona com as ameaças. “Acontece todo ano’’, diz, por telefone, de Nova York. Sua resposta ao extremismo está em seus romances, como o mais recente, “Dois anos, oito meses e 28 noites”, que chega agora ao Brasil pela Companhia das Letras. O livro se inspira em dois ramos da tradição árabe: as histórias de “As mil e uma noites” e o pensamento do filósofo medieval Averróis (1126-1198), que tinha uma visão moderada do Islã. É uma fábula sobre a longa guerra que se inicia quando é rompida a fronteira entre o mundo dos homens e o dos djins, criaturas mágicas. Rushdie enfileira episódios fantásticos para criar uma alegoria da disputa entre razão e fé. Nesta entrevista, ele fala sobre as tradições islâmicas que o inspiram e diz que intelectuais precisam se posicionar contra o extremismo:

— Temos que defender a cultura que valorizamos.

“Dois anos, oito meses e 28 noites” pode ser lido como uma fábula sobre o conflito entre razão e fanatismo. Por que escolheu estampar na primeira página o famoso desenho de Goya com um homem adormecido cercado de morcegos e a frase “O sono da razão cria monstros”?

Acho que hoje vivemos em um tempo de monstros. Em muitas partes do mundo, a razão está adormecida. Mas também quis chamar atenção para o comentário que Goya anota embaixo do desenho: “Abandonada pela razão, a fantasia cria monstros absurdos. Unida a ela, é a mãe das artes e a origem de suas maravilhas”. O romance começa com uma criatura do mundo da fantasia, uma princesa djin, apaixonando-se e tendo muitos filhos com um filósofo racional. E mostra o que acontece quando os dois são separados. O que quero dizer com isso é que, quando razão e fantasia estão juntas, isso pode ter efeitos maravilhosos. Mas quando estão separadas, pode ser desastroso.

Depois do atentado contra o “Charlie Hebdo”, em 2015, você disse que imaginação e sátira podem ser armas contra o fanatismo. O que a literatura pode fazer frente ao fanatismo?

Escritores costumam reclamar para a literatura um poder que ela não tem. Acreditar que a ficção pode mudar os rumos do mundo me parece um exagero. Mas acredito, sim, que os livros podem afetar a forma como pensamos sobre o mundo. Eles nos dão novas ferramentas para examinar a realidade. Este é um romance antirrealista, mas ao mesmo tempo sustento que ele fala sobre o tempo em que vivemos. Quero que os leitores se divirtam com as histórias, mas percebam a relevância delas para os eventos atuais. E tento dizer também que esse conflito (entre razão e fanatismo) é, na verdade, a história da raça humana.

É por isso que um personagem central do romance é o filósofo islâmico moderado Averróis? Qual é a importância desse pensador para você?

Meu pai amava tanto Averróis que adotou para nossa família um sobrenome inspirado no nome original de Averróis, Ibn Rushd. Ele foi um pensador progressista para seu tempo. Era religioso, mas também um especialista em Aristóteles, e queria incorporar ideias da filosofia ocidental ao pensamento islâmico. Por causa disso, seus livros foram queimados e ele teve que se exilar. Leio a obra dele desde jovem e, quando meu trabalho também ficou sob ataque no mundo árabe, me identifiquei muito com Averróis. Uma triste ironia é que o pensamento dele se tornou mais conhecido no Ocidente, onde influenciou filósofos renascentistas, do que no mundo árabe. Também me sinto assim desde a condenação de “Os versos satânicos”, quando passei a ser demonizado em parte do mundo árabe.

Em fevereiro, no aniversário da fatwa emitida contra você em 1989, jornais extremistas do Irã anunciaram uma recompensa de US$ 600 mil pelo seu assassinato. Como você se sente com esse tipo de notícia?

Isso acontece todo ano, na época do aniversário da fatwa, e depois de duas semanas some… Continuo a ser usado como um peão na política interna do Irã. Às vésperas de eleições iranianas, como as que aconteceram no fim de fevereiro, alguém sempre arruma uma polêmica envolvendo meu nome.

Você tem feito intervenções frequentes contra atentados de extremistas islâmicos, como os ataques recentes em Paris e Bruxelas. No ano passado, envolveu-se numa polêmica com escritores que foram contra a homenagem póstuma do PEN Center aos cartunistas do “Charlie”. Como intelectuais devem responder a ataques desse tipo, na sua opinião?

Há escritores mais retraídos, que não sentem o desejo de se envolver nas batalhas do mundo. Respeito isso e fico até com uma certa inveja, mas não é o meu caso. Acho que, quando um ataque desses acontece, temos que marcar nossa posição com vigor, defender a cultura que valorizamos. Fico preocupado quando transferem a culpa dos assassinos para as vítimas. Há muitas tentativas de dizer que as pessoas atingidas pelo extremismo de alguma forma provocaram isso. No caso do “Charlie”, alguns chegaram muito perto de dizer isso.

Além de Averróis, outra inspiração árabe para seu novo romance é “As mil e uma noites”. O que esse livro significa para você?

Meu amor pela literatura surgiu com “As mil e uma noites”. Meus pais liam as histórias para mim quando eu era criança, elas formaram meu gosto por narrativas que maravilham o leitor. É um livro genuinamente democrático, porque muitas histórias são transmitidas oralmente há tanto tempo que é como se não tivessem mais autor. E é interessante como há pouca religião nas histórias. Elas mostram todo tipo de interação humana: sexo, intriga, violência… Mas pouca religião. Por isso, até hoje, em várias partes do mundo árabe, o livro ainda é atacado por extremistas religiosos.

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