Uma alegria para sempre

JOÃO PEREIRA COUTINHO
FSP

“Brilho de Uma Paixão” não é só uma história de amor; é um filme sobre a sombra de morte sobre a história

SERÁ POSSÍVEL que Jane Campion tenha dirigido um filme notável? Aconteceu. Ninguém diria. Campion, uma diretora que sempre gostou de abusar nos temperos (lembrar “O Piano” ou “Retrato de uma Mulher”), permitiu que “Brilho de Uma Paixão” respirasse por sua conta e risco.

O filme, atualmente em exibição, pretende narrar a história de amor entre John Keats, o maior dos poetas românticos ingleses, e a vizinha Fanny Brawne, uma “fashionista” antes das “fashionistas”, embora com pergaminhos familiares.

O filme não diz, mas Brawne era sobrinha de “Beau” Brummel, o primeiro dândi moderno e o gênio a quem nós, homens, devemos o blazer. Quando estou em Londres, gosto sempre de passar pela estátua do cavalheiro e prestar a minha homenagem. Mas divago.

Ou não divago. Brummel, contrariamente à ideia que temos dos dândies, foi um revolucionário ao simplificar o modo de vestir: nas cores e nos cortes. Keats fez o mesmo na poesia, resgatando um sensualismo primordial que os críticos coevos tomaram por infantil ou anedótico.

Enganaram-se. Barbaramente. Mas Jane Campion não se enganou. O tom do filme é contido, quase desprovido de esforço ou artifício.

Os atores não existem para representar; eles existem para serem Keats (Ben Whishaw) e para serem Fanny (Abbie Cornish). Todos falam e agem como se fossem nossos vizinhos. Ou, melhor, como se nós fôssemos seus vizinhos e estivéssemos a espreitar pelo buraco da fechadura, como nos quadros de Vermeer.

E sobre as palavras que povoam o filme, Campion soube usar as cartas e os poemas de Keats com maestria hermenêutica, dedilhando com eles a gramática básica dos apaixonados em monólogos, diálogos, cartas.

“Brilho de Uma Paixão” começa por oferecer essa gramática; uma gramática sobre “a santidade dos afetos do coração”, como afirma Keats, e nós vamos acompanhando a evolução desses afetos, apresentados na sua forma mais bela, despojada, dir-se-ia até pueril.

Fanny conhece Keats de forma casual, sem os heroísmos habituais dos filmes de época; em seguida, procura conhecer os seus poemas. Compra e lê “Endymion”, o poema que a crítica, sempre inteligente, ridicularizou a golpes de maldade.

E quando o reencontra dias depois, diz-lhe com uma honestidade tocante: “Não estou certa de ter gostado de “Endymion”, mas o começo é algo de perfeito. Não conheço palavras mais sábias e premonitórias”.

É o princípio de uma história de amor, embora “amor” seja termo assustador e ambíguo para o assustadiço e ambíguo Keats.

Mas ele cede. E cede porque sabe: três dias de paixão são mais valiosos do que 50 anos de banalidade, escreve ele numa missiva. Mesmo que os dias sejam fugazes e, como na vida das borboletas, mortais.

É por isso que “Brilho de Uma Paixão” não é apenas uma história de amor. É um filme sobre a sombra de morte que paira sobre a história.

É o próprio Keats quem o afirma, uma vez mais, em carta a Fanny. Ele só tem dois luxos nas suas caminhadas solitárias: o amor que sente por ela e a certeza do fim. Um paradoxo? Nenhum paradoxo. Só a certeza do fim revaloriza e intensifica o amor por Fanny.

Para Keats, o fim chegaria aos 25 anos com a doença romântica por excelência: a tuberculose, essa “morte branca” que ceifara igualmente a mãe e o irmão. E que o poeta sempre pressentiu que o acabaria por visitar também.

Nunca presenciamos essa morte, que acontece longe, na amena Itália. Distante dos olhos de Fanny.

Mas o filme termina com ela. E ao contemplarmos o seu rosto funesto a deambular pela neve, é impossível não relembrar o primeiro poema de Keats que ela leu. E no qual pressentiu a perfeição do seu começo. “Uma coisa bela é uma alegria para sempre.”

Verdade. Absoluta verdade. A beleza pode ser fugaz e perecível. E talvez por isso ela nos comova tanto: porque a sabemos frágil e condenada; porque nos sabemos frágeis e condenados.

Mas enquanto existirem olhos que a contemplem, ela será eterna para nós.

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