memórias

Uma aliança com o essencial

Os anos não passam. Insinuosos, eles adentram nosso espírito e nos intoxicam de memórias. Não, os anos não passam. Eles criam vincos na nossa pele em marcas visíveis ao espelho, como se fossem tatuagens do tempo, como se fossem cicatrizes da vida.

Para Virginie, as várias décadas vividas lhe traziam uma sensação de que se aproximava da estação final da sua viagem terrestre. Um frequente balanço de contas a visitava… Seus pensamentos se viam com frequência fazendo piruetas matemáticas em cálculos existenciais: tentava, no somar das experiências e no subtrair dos traumas, resolver a equação da felicidade.

No seu constante calcular, noves fora zero, o que sempre restava era a realidade. Compreendeu que não havia mais nada a fazer com relação a sua história a não ser aceitar o que foi. O que foi, foi como foi e ponto. Era preciso abdicar do desejo de ser outra, de ter sido outra, com outras aventuras, desafios e sortes.

As linhas da vida, por questões de destino ou por mero acaso, se costuraram desta forma. Porém, agora diante de tal configuração, seria capaz de olhar para a veste da vida, observar seus padrões e descobrir a beleza no que simplesmente é? Poderia se despedir dos seus ideais?

Era este o seu desejo para os anos restantes: se despir dos acúmulos. Desnudar-se de tantas memórias, tanto das glórias quanto dos pequenos deslizes na estrada da vida. Despedir-se de tantas formas de se desviar da realidade nos subterfúgios do quimérico. Esvaziar-se enfim, dos momentos: os bons e os mal-passados.

Não que fosse ingrata com a companhia dos benfazejos instantes vividos. Porém, diante da proximidade do fim da sua jornada precisava fazer jus à vida e finalmente, acolhê-la sem titubeações.

Se ainda se sobressaia um querer era o de simplesmente estar com a vida que se revelava através de cada fagulha do presente. No fundo gostaria de se aperceber dos milagres cotidianos que passam facilmente desapercebidos e se plenificar de gratidão.

Sem dúvidas, já era mais do que hora de largar as várias vidas possíveis que carregou consigo por tantos anos e abdicar o reino do ideal.

E foi assim, como um voto de casamento, como uma profunda aspiração, ou como uma conexão íntima com a alma, que naquela tarde, diante de nuvens que passeavam pelo céu azul, ela fez uma aliança com o essencial.

Imersa em um silêncio simples e sagrado, e com uma disposição corajosa de conduzir quantas vezes fossem necessárias sua consciência ao lugar onde seus pés tocam o solo da realidade, olhou ternamente a vida nos olhos se desejou um feliz aniversário.


Imagens: Galeria Mendes Wood

Artista e Ph.D. em psicologia, autor da tese “Music as vehicle for self-transformation” e do romance “ A Mulher que Nunca Recebeu Flores”. Cantor e compositor dos álbuns Bossa a Trois e Conscious (Original Movie Soundtrack). Co-diretor do filme “Conscious: Fulfilling our Higher Evolutionary Potential”. www.josehgarcia.com [ Ver todos os artigos ]

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