Uma antiga (e sempre renovada) preocupação

Impressiona-me perceber como as autoridades de nossa cidade, destacadamente aquelas responsáveis pela ordem em nosso trânsito, aparentam demonstrar uma total falta de atenção com o problema que se constitui com o rotineiro assédio de pedintes, lavadores de pára-brisas e pessoas entregando pequenos cartazes e folders nos sinais de Natal, além da venda de frutas e outros produtos. Um verdadeiro mercado a céu aberto!

Até mesmo os lamentáveis e imundos trotes de alguns universitários desavisados e ingênuos têm contado com a permissibilidade dos que deveriam cuidar do nosso trânsito e de nossas vias de acesso.

É preocupante essa prática indiscriminada, por diversos e evidentes motivos: um deles, e muito simples de se entender, é que simplesmente essas pessoas que se amontoam nos cruzamentos de ruas e avenidas sinalizadas da cidade provocam uma fantástica balbúrdia no trânsito, fazendo com que alguns carros (conduzidos por alguns – digamos – mais “relaxados”) atrapalhem a fila que se forma na retaguarda, ao pararem para entregar moedas ou realizar os seus pequenos negócios, ignorando a existência de outrem e de seus interesses; ou quando os motoristas e seus automóveis ficam estagnados diante da lavagem – às vezes não solicitada – de seus pára-brisas, redundando no mesmo tumulto acima descrito.

Outro motivo (este mais grave a meu ver) é que a segurança pessoal dos motoristas e passageiros dos carros está cada vez mais nitidamente comprometida. A princípio, há de se afirmar que ninguém é ingênuo para crer que aquela atividade frenética de pedintes e de pequenos “marqueteiros” nos sinais de trânsito na cidade vá melhorar consideravelmente os índices sociais e as condições de vida dessas pessoas. O que se precisa – e é óbvio – é que sejam oferecidas reais condições de dignidade à população mais carente, criando-se os empregos e situações efetivas de empregabilidade para esse povo. Segundo, há de se perceber, com urgência, que já estão estabelecidas ali, naquela prática consentida e continuada, as condições para alguns comportamentos violentos que podem vir a crescer.

Dou um exemplo do que estou falando: dia desses, vi uma mulher ser agredida verbalmente, tendo um lavador de pára-brisas proferido, aos berros, inúmeras palavras de baixíssimo calão contra a moça por ela não ter aceito os serviços do rapaz. Eu, que vinha atrás, fiquei perplexo e percebi a impotência de todos nós. E se a violência tivesse sido em caráter físico, com um daqueles “rodos”, verdadeiras armas que empunham?

Ademais, não temos nós, os motoristas e passageiros dos carros que trafegam pela cidade, como reconhecer quem é honesto e está ali tentando ganhar algum trocado e quem oferece real perigo à população, principalmente à noite. Confesso que vez ou outra me assusto com alguém, inesperadamente, batendo com a mão fechada no vidro lateral do meu carro. E, todos sabemos, que ainda não há guardas de trânsito ou policiais em todos os cruzamentos da cidade e a toda hora.

É importante, por tudo isso, que as autoridades de Natal vejam a questão e tentem resolvê-la, sem o cometimento de violências outras ou alargamento do problema social, mas, com tato e sensibilidade para que se mantenha a ordem pública, ao mesmo tempo que se permita o melhoramento das condições de vida daqueles que têm recorrido a esse espaço coletivo para o sustento de suas vidas e de suas famílias. E, também, os motoristas não contribuam com a continuidade do problema descrito. Caso contrário, o perigo que se instala é para todos e os riscos sociais se aproximarão, mais e mais, em ritmo acelerado.

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