Uma antologia da epopeia do sertão

Fiel ao espírito sistematizador do seu tempo, o poeta Carlos Newton Júnior não resistiu à tentação de se aventurar nos meandros da tradição literária para dela extrair uma síntese. O resultado é uma antologia. Seu nome é O Cangaço na poesia brasileira (Escrituras, SP: 2009).          Não custa lembrar que esse pernambucano, que lecionou por vários anos na UFRN e deixou contribuições à poesia norte-rio-grandense é, antes de tudo, um pesquisador da cultura nordestina, sobretudo nas questões ligadas à poesia popular e ao movimento armorial. Por isso, cotejar poesia popular e poesia culta (ou erudita, como ele prefere) no terreno daquilo que ele denomina de “epopeia do sertão”, seria uma motivação difícil de resistir por muito tempo. Mas talvez o tenha surpreendido no percurso a quantidade dos poetas “eruditos” que se deixaram atrair pelo drama do cangaço, embora com resultados irregulares. Aliás, essa parece ser uma fatalidade da poesia: todos os temas parecem estar abertos a todos os poetas, mas, de fato, poucos o estão, ao menos para a grande maioria deles. Quando esse limite não é respeitado, o resultado é poesia irregular, geralmente inferior à que o poeta produz quando trata de seus temas próprios.

Como era de esperar, a figura de Virgulino Ferreira, o Lampião, preside o cangaço, em torno do qual, direta ou indiretamente, gravitam os 35 poetas coletados, dos quais quatro norte-rio-grandenses: Dorian Gray Caldas, Márcio de Lima Dantas, Newton Navarro e Homero Homem.

É uma participação seguramente modesta, não obstante ter sucedido em solo potiguar o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró, seguramente um dos episódios mais dramáticos dessa saga. A centralidade dessa página é, aliás, sublinhada pelo próprio autor, no curto ensaio intitulado “O cangaço na poesia brasileira”, que escreveu a título de apresentação.

Uma provável explicação para a singela participação, na obra, de poetas potiguares e, especificamente, do tratamento poético do tema do ataque a Mossoró seria a pressa natural que aflige todo antologista, o que costuma se traduzir em omissões e lacunas. A alternativa seria simplesmente admitir que, embora de grande apelo poético, a grande maioria dos poetas potiguares passou ao largo do episódio.

Quanto àqueles poetas que ouviram os ecos da contenda, assinalamos, entre os antologiados, o nome de Dorian Gray Caldas, no poema O ataque de Lampião a Mossoró, e o de Homero Homem, em Conversa de cangaceiros a cavalo no dia em que atacaram Mossoró.

A controversa figura de Lampião não poderia aparece unânime na antologia. De fato, se, em alguns poemas, é transfigurado como um herói nietzschiano, situado acima do bem e do mal, como no inspirado poema “Um capitão chamado Virgulino”, do cearense Francisco Carvalho, o pernambucano Carlos Pena Filho, em seu poema “Episódio sinistro de Virgulino Ferreira” evita incensar os feitos do temido cangaceiro, preferindo retratá-lo como um personagem fadado a cumprir um destino trágico. Esta, portanto, é uma vertente oposta àquela praticada por um Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Francisco das Chagas Batista, entre outros mestres do cordel cujas produções costumeiramente abstraem os malefícios do cangaço para palmilhar o caminho que conduz seus protagonistas ao Parnaso.

Na rubrica das curiosidades da antologia, o soneto de Alexei Bueno, explicando porque recusou o convite do autor para escrever sobre o cangaço, é digno de registro (ao menos em parte). O poeta carioca argumenta: “Para entrar, Carlos Newton, nesta obra/ só pela negação. Posso eu, um reles/ ser urbano e livresco falar deles?/ […]”.

No mais, poemas de Ariano Suassuna, Walmir Ayala, João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Sérgio de Castro Pinto, Jorge de Lima, Marcus Accioly, Murilo Mendes, Virgílio Maia e do próprio antologista, entre outros.

Às vezes é preciso apontar o óbvio, que passa despercebido justamente por ser demasiadamente visível. Um dos méritos da antologia de Carlos Newton Júnior reside nisso: mostrar que a grande poesia brasileira também ouviu o apelo dramático-poético do cangaço e nele encontrou motivos para enquadrá-lo sob metro e rima, em alguns casos, à altura de suas melhores realizações.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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