Uma atmosfera vaga e majestosa

Por Roberto Pompeu de Toledo
Na Veja

Injusto mas democrático, atrasado e generoso: eis o Brasil de Elizabeth Bishop, tema de bela peça teatral

O correio funciona a passo de cágado. Uma carta, para percorrer a miserável distância entre Petrópolis e o Rio de Janeiro, demora no mínimo oito dias, podendo chegar a quinze. O Brasil é uma bagunça. O Rio de Janeiro, uma cidade debilitante, relaxada, corrupta. E os brasileiros? Pessoas incapazes de lembrar de seja lá o que for. Por exemplo, em que estação do ano se está. Ninguém sabe fazer nada direito. E o nível de beleza do povo é, para dizer o mínimo, um tanto baixo. Os pobres, com exceção de alguns negros, são de uma feiúra apavorante.

São observações e opiniões da poetisa (ou poeta, como se convencionou ser mais correto dizer) americana Elizabeth Bishop, colhidas entre as cartas que escreveu do Brasil. O Brasil era tudo isso de ruim. Mas, ao mesmo tempo, era bom. Quando ela ficava doente, os brasileiros cobriam-lhe de atenções. A americana foi se deixando aprisionar pelo famoso “calor humano” dos países pobres em geral, e do Brasil em particular. “Estou gostando cada vez mais de viver aqui”, escreveu, e repetiu muitas vezes. Além disso, a natureza era tão exuberante, tão estonteantes as orquídeas e as samambaias, os tucanos e as borboletas, e ela vivia tão bem, tão rica e confortavelmente instalada… Elizabeth Bishop veio para passar umas férias, em 1952, e ficou quinze anos, fisgada pelo lado bom da terra e pelo amor (ela era homossexual) da brasileira Lota Macedo Soares.

Elizabeth Bishop vem a propósito da peça Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes, que já esteve em cartaz em várias cidades brasileiras, inclusive São Paulo, e nesta semana chega ao Rio de Janeiro. Quem não viu, que corra para ver. Trata-se de um monólogo, habilmente tecido com base nas cartas, em poemas e entrevistas da escritora americana. Com direção de José Possi Neto e interpretação memorável de Regina Braga, resulta num espetáculo tão simples quanto inteligente, sensível e comovente. O tema central é um pouco a própria Bishop, um pouco a companheira Lota, mas, também, e muito, o Brasil.

Aqui, o que se está percorrendo é o livro Uma Arte, reunião das cartas da escritora, publicado no Brasil em 1995 (Companhia das Letras). O Brasil acaba sendo, também neste caso – o Brasil dos anos 50 e 60 – assunto obsessivo. A mistura de choque pelo atraso e deslumbramento por certas virtudes singelas é a tônica das cartas de Bishop. Hoje os correios funcionam e as estradas, por precárias e esburacadas que sejam, oferecem melhores condições do que o penoso empreendimento que era viajar de Petrópolis – onde Bishop morou a maior parte do tempo – a Ouro Preto, o qual exigia equipar-se de galões de gasolina e peças sobressalentes do automóvel. Ainda assim, o contraste entre a revolta pelo atraso e o encanto pelas virtudes singelas continua atual. Não consta que a americana tenha lido Lévi-Strauss, para quem as cidades brasileiras entravam em decadência sem ter conhecido o apogeu. Sua conclusão, no entanto, parecida com a do francês, era de que o país era uma mistura de subdesenvolvimento e decadência – o que, de resto, não era de todo mau. “É engraçado como neste país subdesenvolvido e ao mesmo tempo decadente a gente se sente muito mais perto do passado do que nos Estados Unidos”, escreveu.

Elizabeth Bishop tinha um olhar atento para as relações sociais. Uma vez, ela e Lota ofereceram um almoço para celebrar o casamento da cozinheira com o jardineiro da casa de Petrópolis. Foi um almoço “dividido em duas classes”, os patrões na sala, “as classes inferiores transformando a cozinha num quadro de Bruegel”. Tal rigidez na fronteira das classes convivia, porém, com uma “intimidade agradável com as pessoas que trabalham para a gente”, paradoxo que conduziu Bishop à conclusão de que o Brasil é “o lugar mais democrático que já conheci, sob certos aspectos”. A escritora se encantava por ser tratada pelas empregadas e empregados de “minha senhora” e, no momento seguinte, “minha filha”. Também se impressionava com o tratamento de “doutor” universalmente concedido aos membros das “classes respeitáveis”. Vivendo ricamente, e entre os ricos, uma vez disse não entender como os trabalhadores “não matam a gente”. Qual o quê. Eram tão doces.

Lá nas altas esferas, vez ou outra, pegava fogo: um presidente que se suicida, outro que renuncia, golpe militar. Mas as coisas rapidamente eram repostas no lugar. Os brasileiros eram emotivos a ponto de chorar nas ruas, quando foi morto o presidente John Kennedy. “Quase todo mundo que conheço aqui telefonou ou veio em pessoa dar os pêsames”, conta Bishop numa carta de 1963. Um motorista de táxi, ao perceber seu sotaque americano, virou-se para trás – arriscando um acidente – para fazer um pequeno discurso de consolação. O Brasil de Elizabeth Bishop era assim, indolente e estapafúrdio, belo e generoso. Em alguns pontos, talvez no essencial, continua o mesmo. Ela o via envolvido numa “atmosfera vaga e majestosa”. É uma frase de poeta, emocionante e trágica.

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