Uma campanha presidencial radicalizada? Por que?

Por Bolívar Lamounier
Portal Exame

O que mais se ouve é que a campanha presidencial está radicalizada, tensa, agressiva. Estará mesmo? A questão é um pouco subjetiva, mas admitamos que sim. A campanha está radicalizada.

A que se deve isso? Talvez à personalidade dos dois principais contendores. José Serra e Dilma Roussef não são políticos tradicionais, se por esta expressão entendermos aquele político que nunca diz as coisas de maneira simples e direta. Aqueles que se empenham em aproximar as partes e conciliar interesses, quaisquer que sejam as partes e os interesses. Michel Temer, o vice da Dilma, é desse tipo. No limite, o político super-tradicional adora jogar conversa fora, dar e receber tapinhas nas costas, comparecer a não sei quantos batizados, aniversários e velórios etc. Para ele, o tempo é elástico, senão infinito. Serra e Dilma são o oposto disso.

Por mais que difiram – e diferem muito -, sua formação é de outro tipo. São gregários só no limite do necessário e concebem o tempo como um bem extremamente escasso. Imagine então o leitor como os dois se sentem e se comportam num momento como este : na condição de candidatos à presidência da República. Minha aposta é que se sentem limitados, que gostariam de dizer mais, e de maneira mais contundente . Querem advertir contra diversos riscos que ao ver deles o país está correndo, e contra oportunidades que não podem ser perdidas. Projetemos então tais sentimentos no mundo público, nesse mundo de comunicação quase instantânea de todos com todos em que vivemos. O mundo da TV e do rádio, mundo em que a fantasia predomina por larga margem, e atualmente muito mais regulamentado e acomodado num figurino de cordialidade do que aquele de cinqüenta anos atrás (remember Lacerda, Brizola e outros). O contraste é inevitável. A disputa eleitoral quebra esse biombo de vidro da fantasia e irrompe agressiva pelos lares adentro.

Mas não creio que a personalidade de Serra e Dilma seja o fator mais importante . Nem de longe. Antes dos boxeadores há o ringue, as regras do jogo, os sentimentos e as reações da platéia. A campanha parece polarizada, e está mesmo, porque Lula a quis polarizada. Lembram-se? Foi dele a decisão de empurrar a eleição para um caminho plebiscitário. Plebiscito, o que é? Ora, é opção contrastada entre duas alternativas. Dicotomia, simplificação. É bonito contra feio, preto contra branco. O bem contra o mal. Desde o início, Lula trabalhou para impedir terceiros. Não conseguiu barrar Marina, mas barrou Ciro Gomes e esmagou no ninho todos os outros possíveis candidatos que bicavam a casca de seus respectivos ovos partidários. Ciro, o mais atrevido, ele fez questão de barrar com requintes de humilhação.

E por que plebiscito? Por que Dilma contra Serra? Obviamente porque Lula pretendeu reduzir a campanha eleitoral a uma comparação ponto a ponto de sua presidência com a de Fernando Henrique Cardoso. E julgou que só aí já teria munição para abater uns vinte José Serras. Se o plebiscito era para ser sobre o seu governo, pode-se facilmente concluir que haveria de ser sobre a pessoa dele, Lula. A resposta deveria ser conhecida de antemão. A única diferença entre as pesquisas e a eleição seria esta : em vez do Ibope ir de casa em casa para saber quem aprova e quem reprova Lula, a massa de cidadãos é que iria às urnas. A pergunta e a resposta seriam as mesmas. É ou era este, no meu modo de ver, o cerne da estratégia eleitoral de Lula.

Vai dar certo? Dilma vai vencer de “lavada”, como ele mesmo disse várias vezes? Não faço a menor idéia ; o que sei é que, até agora, a disputa segue empatada. Meu interesse aqui não é tentar prever o resultado. A questão que me propus examinar é por que a campanha parece (está) radicalizada, e minha resposta é esta : em parte, porque Lula a empurrou para o caminho da radicalização. Ontem, neste mesmo espaço, eu argumentei que a interferência de Lula na campanha é um fato sem precedentes no Brasil. Sem precedentes mesmo pelos padrões de nosso presidencialismo, considerado “imperial”, como dizem alguns, ou autoritário, como eu prefiro dizer. Observe-se, porém, que autoritarismo e verticalidade são características do Executivo, não da totalidade de nosso sistema político. Nos demais aspectos – Legislativo, partidos políticos e federação, principalmente – , o nosso sistema foi montado para facilitar a moderação e o consenso. No primeiro turno, vários partidos; no segundo, maioria absoluta. O multi-partidarismo para permitir a expressão de muitos matizes de opinião. A federação para balancear regiões e impedir políticas arbitrárias em benefício (ou malefício) de uma ou algumas. O que está acontecendo,portanto, é fruto direto da estratégia de Lula. Foi para eleger sua criatura, de preferência de “lavada”, e dessa forma dar a mais ampla expressão à sua auto-imagem, a seus interesses políticos e a seus sentimentos, que Lula absolutizou (no sentido terminológico : soltou, fez descolar) uma das propensões do sistema político. Absolutizou, ou tentou absolutizar, o Executivo – e anulou o resto, os freios e contrapesos do sistema. Nada a estranhar, portanto, que a observação das leis eleitorais e da liturgia da presidência lhe pareçam questões relativamente secundárias. Não se trata de distração, nem de provocação. O que ocorre é que, antes destes pequenos fatos, Lula criou um mega-fato institucional, dando aparência de normalidade à virtual supressão dos contrapesos e propondo-se como objetivo passar de roldão sobre o que ao fim e ao cabo ainda restar de oposição.

UMAS E OUTRAS

• Meu amigo Leôncio Martins Rodrigues manda-me ler o livro de Daniel Pécaut, As Farcs, uma guerrilha sem fim ; diz que é leitura obrigatória e que as Farc, vistas de perto, como as viu Pécaut, são muito piores que vistas de longe.

• “Seja senhor de seus silêncios, para não ser escravos de suas palavras” (atribuído a Tancredo Neves).

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