Uma celebração ao amor

Uma celebração ao amor: Centenário de nascimento de Jean Genet

“Resguardar todas as imagens da linguagem e utilizá-las, pois elas estão no deserto, onde é preciso ir buscá-las” Jean Genet

Sei bem caro editor que tudo que escrever é pouco para celebrar esse escritor genial. Escrevo pelas frestas e nas dobras que o tempo me permite. E assim quando dezembro chegar colocarei flores na escrivaninha e no peito para comemorar o centenário de nascimento do grande escritor Jean Genet. Jean nasceu em Paris parido de uma prostituta, de pai desconhecido, e adotado por um casal de Morvan, na Borgonha. Logo cedo começou a roubar e foi preso por diversas vezes. Seus livros são relatos autobiográficos e de seus pares nos infernos e monturos das várias prisões onde ele e seus companheiros / personagens de infortúnios amargaram a dor transformada em arte por esse artista da palavra escrita com fezes, sangue, esperma e grandes caralhos.

Na França, várias obras de Genet estão sendo reeditadas e inéditos são publicados. Aguardo com ansiedade o livro da coleção L’Arbalète , “Les Lettres à Íbis” e “Le Funambule”, texto em homenagem ao seu companheiro Abdallah. Tahar Ben Jelloun,

De todos os presídios o de Fontevrault era o mais perturbador, abre assim o belo livro “O Milagre da Rosa” de 1946. Ao chegar à prisão Jean fica sabendo que um antigo amigo seu Harcamone foi condenado á morte. Ai ele rememora seus tempos de adolescência preso na casa de correção de Mettray quando tinha apenas 15 anos.

O poeta Jean Cocteau e o escritor Jean Paul Sartre tomam-se seus admiradores após a leitura de seus livros. Sartre escreve uma bela apresentação do livro “Nossa Senhora das Flores” e um ensaio consagrador “ São João Genet ” dedicado ao autor de Querelle.

Jean e seus duplos Uma literatura sem maquiagem que celebra o amor homossexual. Uma galeria de homens viris, cafetões, travestis, militares e assaltantes irmanados nas práticas homoeróticas. Existe uma estreita relação entre as flores e os forçados (Diário de um Ladrão). As personagens Querelle, Nossa Senhora das Flores, Mignon, Gorgui e Divina, são ao mesmo tempo violentos e ternos. Personagens com um grande repertório, marginalizados e tragados pela poesia do deserto e da solidão das celas. O suicido pode ser uma saída:

“….A alegria que procede os suicídios. Divina tinha medo de sua vida cotidiana. Sua carne e sua alma estavam se tornando azedas …” ( Nossa Senhora das Flores)

Com o suicídio de seu companheiro Abdallah em 1964, Jean decide abandonar a literatura e passa a se dedicar á militância política na defesa dos trabalhadores imigrantes na França, nos movimentos norte-americanos dos Panteras Negras e beatnicks e em defesa do povo palestino .

Publicou suas memórias no livro “Diário de um ladrão”, onde narra suas aventuras e andanças pela Europa, suas paixões, angustias e sentimentos. E o romance autobiográfico “Um Cativo Apaixonado”, publicado postumamente, onde utiliza anotações e fragmentos reunidos no calor da luta.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 30 de novembro de 2010 13:39

    Ainda comemorando o centenário de Jean Genet, reproduzou um texto que gostaria de ter escrito. Esse texto foi publicado no Diário de Lisboa, em 16 de Abrl de 1986, um dia após a morte do grande escritor e dramaturgo.

    Jean, O Pescador do Suquet

    Talvez que a possível homenagem (?) fosse incendiar algumas cidades para que se revelasse um rosto límpido, ou o magnífico e lodoso sexo de deus. Mas, creio que um homem como Genet, ao ter atravessado a vida e o mundo na mais recolhida fuga já não desejasse sequer o fogo, ou um rosto, ou mesmo deus que, como se sabe, chega sempre atrasado a todo o lado.
    A morte nunca me pareceu uma coisa gloriosa, mesmo quando a santidade adere à pele e ao coração como um destino a cumprir, como uma peste. E, poucos foram aqueles que souberam conviver com o seu próprio inferno.
    A admiração que tenho pela obra e pelo homem que, humildemente, conheceu esse lugar de treva que é o do condenado à morte esperando a execução, exige todo o ouro do meu silêncio.
    À bientôt Jean, où même le jour il faît nuit.

    Al Berto (1948-1997) uma dia após a morte de Jean Genet .

    Referencia : “”O Estúdio de Alberto Giacometti”, de Jean Genet ; Assírio & Alvim, 71p Lisboa, 1988.

  2. João da Mata 4 de novembro de 2010 11:02

    Um Canto de Amor – cont

    Nossa Senhora das Flores é a sua obra prima. Escrito na prisão constitui um retrato impiedoso daqueles que vivem á margem. Outsiders como Genet que fez do sofrimento um libelo ao mesmo tempo cruel e poético. Segundo O filósofo Jean- Paul Sartre esse livro de Genet é uma das três grandes obras medievais do século XX, ao lado do Ulisses de Joyce , e da obra de Jean Giradoux.

    Grandioso livro que trata da solidão, do onanismo e da observação da vida cachorra praticada nos confinamentos das celas prisionais. Uma dessacralização do sublime numa festa “cintilante sob o brilho de um sol negro”. Histórias de hóstias sangrando como aquela da beata do Cariri-medievo-nordestino. .

    Em 1950 Jean Genet realizou seu único filme Un Chant D’Amour. Uma fantasia muda, sensual e poética que se passa numa prisão francesa, onde um guarda penitenciário movido por um perverso desejo voyeur, passa a observar as performances sexuais masturbatórias de cada preso. Causaram muita polemica e discussão as imagens eróticas de um Canto de Amor.

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