Uma cigana de cabelos ao vento anuncia seus serviços

Por Joaquim Ferreira dos Santos
O GLOBO

Perfis do Rio

Não posso garantir se na hora de jogar os búzios os cabelos permanecerão esvoaçantes como na foto do folheto. Eu sou o próprio vento que sopra, a herdeira natural de Mãe Valéria, a que andava sobre os postes, a que trouxe de volta em três dias o amor de várias gerações desesperadas. Mais não posso dizer sobre o destino daquela que me formou na vidência e na capacidade de revelar o que vai acontecer com quem sentar do outro lado da mesa. Ela me passou as cartas, e aqui estou me anunciando neste folheto no meio da rua. Sou o silêncio sobre o passado, o anúncio do que está por vir. Anote meu nome. Dona Beth.

Sou morena no folheto, mulata nos pés sobre o terreiro, e loura na hora de distribuir as verdades que só eu vejo. Eu sou quem você imaginar e quiser ver por trás da bola de cristal, a internet que há séculos conduz minha tribo. Jogo baralho cigano, cruzo o zodíaco e leio a palma da mão, mas faço o mapa astral usando programa de computador. A finalidade de cada um de nós é alcançar êxito em tudo que almejamos. Venha fazer uma consulta e garanta a sua felicidade. Não despreze hoje o que pode precisar amanhã. Melhoro a potência do homem, adubo a lavoura e descortino o passado de quem quer que seja. Não vacile. A consulta é R$ 10.

Na hora de jogar as cartas, os ventos que me assopram os cabelos na foto ao lado podem mudar de sintonia e congelar meu rosto sob os efeitos das forças malignas que regem o destino do consulente. Talvez eu precise esconder os ombros, cruzar os braços mais acima do decote e fechar o tempo contra o demo. Faz parte dos meus dons. Você vai ver o que está fazendo seu amor naquele momento, se ele a trai, projetado na tela que se abre nos meus olhos.

Não vacile, não duvide. Amas e veneras o momento silencioso de tua meditação.

Eu jogo os búzios, eu leio a vida na borra do café e nos miúdos da galinha. Acima de tudo faço como está na foto. Perscruto o horizonte para dizer se são do bem, se são do mal, os cavalos que vêm de lá. Aviso a hora em que você precisa encarar a cavalgada de frente e tomar conta do rodeio. Tome as rédeas da sua vida, pare de cuspir para trás e de se deixar amarrar no dossel da cama. Eu sei onde está o homem que vai te fazer feliz. Não dou banho de ervas, não esfrego lama no rosto de ninguém.

Sou das forças puras que cruzam os caciques brasileiros com os cabalistas do judaísmo.

Nada me é estranho ou sobrenatural.

É uma nova geração de rezadeiras que está na praça, e eu me apresento como sou. Vestido de alça, pachimina nos ombros. Não tenho verruga no canto da boca, arruda na orelha ou escarradeira no canto da sala. Dona Beth, das Estacas Ciganas e Iraci, a herdeira de Mãe Diná e de todas que foram enxovalhadas pelos incréus.

O rosto nem sempre é o da foto, pois mudamos a cada vento que sopra e nos transforma.

Ele é nosso Guia e adivinho. Traga a última folha de amendoeira que caiu aos seus pés. Eu direi seu nome e destinação. Procurar Dona Beth, esta que cruza os braços no folheto e ouve o que está no tropel dos cavalos ciganos.

A beleza da nossa cultura te ajudará a te encontrar nos momentos difíceis da vida.

Vi “Nosso Lar”, vi “Chico Xavier” e também tenho fé na força dos espíritos. Se for preciso, psicografo. Não fumo charuto nem bebo cachaça.

Olho o horizonte atrás da aura de quem sofre e já perdeu a esperança. Imponho as mãos para curar as dores do intestino, do pâncreas que não se desenvolve. Se o problema for nas pernas, coloco seus pés sobre o casco da tartaruga. Para cada mal, a luz que tanto procuras. Você está descrente, seguiu a mensagem de outros postes e nada lhe aconteceu.

Venha ver por que sopra o vento nos cabelos da foto.

Enfrento os exus, os caboclos e teletransporto para dentro da minha sala, em pedaços, os despachos que estiverem emperrando sua vida pelos escritórios, camas e encruzilhadas.

Sejam os problemas amorosos, outrossim os casamentos em decadência, os filhos problemáticos, os inimigos ocultos ou as pendengas financeiras. Não se deixe dominar julgando-se vencido. Bata os pés no capacho, entre e ponhase em silêncio diante da vida que lhe será narrada. É a sua. Eu sou Dona Beth, a cigana das novas tendas holísticas.

Quebro o alguidar, tiro as agulhas dos bonecos em que tatuaram o teu nome e distribuo a farofa deles aos patos que cultivo no quintal. Sou a herdeira de Mãe Valéria e vou explicar, sem que você fale nada do início ao fim da consulta, por que tanta dor e tanto sofrimento.

Nos dias pares, atendo na Evaristo da Veiga, nos dias ímpares, no Cantagalo, na saída do elevador do metrô. Observe bem o espaço entre o trem e a plataforma, depois venha desfazer o mal que não deixa você subir na empresa.

Trago seu amor de volta, resolvo pendenga de sociedade, malefícios do álcool, discussão de partilhas e tudo mais que assoberba a alma de fraqueza, da coisa pequena e do despautério sem remédio. Desfaço mandinga, curo cólica de criança, depressão dos mais velhos e ponho em cima da mesa as franquezas sinceras que dão sentido a uma vida. O resto é com você. Qualquer decisão é fácil de tomar, mas acertadamente muitos poucos a tomam. Faço tudo isso em três dias ou não pertenço, para o resto da vida, amém, à nova geração de ciganas. Venha desarmada.

Não uso pó de pemba, não canto ponto, não dou passe, não molho ninguém com água de cheiro. Também não sujo a cidade, e por isso peço por obséquio que depois de anotar meu telefone jogue este panfleto na lata do lixo. Sou Dona Beth, a cigana dos cabelos ao vento. Passo sua vida a limpo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

20 − 11 =

ao topo