Uma conversa na luz, nas trevas de Nic Pizzolatto

Por Ana Maria Bahiana
BLOG DA COMPANHIA

Quando a primeira temporada de True Detective pegou todo mundo de surpresa e se tornou verdadeira obsessão (um comportamento que tem tudo a ver com a série, como veremos a seguir…), eu só conhecia Nic Pizzolatto como o autor de Galveston, um livro que tinha ficado na minha cabeça pelo poder de conjurar um universo inteiro a partir de partículas. A surpresa de achar um autor, no sentido literário do termo, com uma sólida base acadêmica escrevendo para a TV norte-americana só me reforçou a noção de que nem nós, o público, nem a TV, somos mais os mesmos.

Pizzolatto tem um physique de rôle mais para boxeador do que para escritor. Tem fama de espinhoso nas lides do trabalho, mas numa conversa é uma pessoa extremamente amável, que jamais levanta a voz e fica sinceramente empolgado quando a interlocutora manifesta interesse ou faz comentários pertinentes sobre seu trabalho.

Ele apareceu de mansinho, numa tarde promocional agitada num hotel de luxo em Beverly Hills, enquanto os atores da segunda temporada de True Detective — que estreia mundialmente dia 21 de junho na HBO — posavam para fotos e câmeras de TV. Foi uma aparição quase miraculosa, eu tinha acabado de mencionar para uma pessoa da HBO que quem eu realmente queria entrevistar não era nenhum ator — embora Colin Farrell, Vince Vaughn, Taylor Kitsch e especialmente Rachel McAdams estejam sensacionais nesta segunda temporada —, mas a mente criadora de True Detective, e eis que de repente ouço uma voz, vinda de um canto da sala, atrás de mim: “Ei, eu estou aqui!”

Sentamos numa mesa longe do frisson das estrelas para conversar sobre a escuridão do outro lado da luz dourada da Califórnia, cenário deste segundo conto/série, que envolve três policiais e um homem de negócios numa dança de corrupção, crime e redenção.

Embora em Galveston você tenha personagens femininas fortes, a primeira temporada de True Detective foi basicamente uma história de homens. Agora temos, no centro da trama, uma personagem muito forte, a Ani de Rachel McAdams. De onde ela veio?
Eu não sou um escritor tão bom assim a ponto de escrever algo que não pertença ao meu universo imediato, ao que posso imaginar. Eu só sei escrever sobre homens sendo muito, muito maus. Mas ela apareceu inteira e eu comecei a ficar obcecado com ela. Eu simplesmente tinha que escrevê-la.

De onde vêm suas histórias?
Eu acho que vêm de lugares que aparecem nos meus sonhos. É como se eu inspirasse o mundo, e partes do mundo me tocassem e me afetassem, e daí surgem os personagens que vivem nesse mundo. Para mim pessoas e lugares são uma unidade só, indivisível. O mundo nos influencia na mesma medida em que nós o influenciamos — ele é uma projeção de nossas vidas.

E daí veio esta segunda temporada de True Detective, que se passa no seu mundo de agora, a Califórnia?
Sim. Muita coisa vem da minha vida aqui, da minha experiência aqui e da pesquisa que fiz para complementar essa experiência.

Qual foi o objetivo da sua pesquisa?
Eu queria compreender exatamente como funcionam as várias municipalidades independentes e que fazem parte do que podemos chamar de “Grande Los Angeles” ou “Califórnia do Sul”, e sua relação com empresas e negócios. Tivemos recentemente muitos escândalos de corrupção em algumas dessas cidades com concentração industrial e isso me ajudou a completar a visão.

Você lê muito o noir da Califórnia?
Eu não leio tanto quanto gostaria, tanto quanto eu costumava ler, por conta do meu trabalho. Mas sim, sempre fui um fã do noir americano, do noir ensolarado da Califórnia, um lugar de fantasia, de fachada, para onde as pessoas vêm se reinventar. Eu acho a Califórnia uma grande fonte de inspiração. O Oeste é o lugar da eterna reinvenção, onde tudo está sempre se movendo, onde você pode mudar de nome, se tornar uma outra pessoa… Mas como seria esse Oeste esgotado, exausto?

O detetive é um personagem popular universalmente, na literatura, no cinema, na TV. Por quê?
Eu tenho algumas teorias. Para começar, ele é um ser inquisitivo, com livre acesso a todas as faixas sociais. Em termos de estrutura narrativa, a metodologia do detetive é em parte a encarnação da angústia existencial que existe em toda alma humana. Não temos evidências claras e absolutas, mas temos indícios, pistas, traços físicos e experiências que vamos unindo para formar uma narrativa. O detetive, usando apenas fragmentos materiais e elementos da personalidade humana, tem que compor uma narrativa que conte a história do que aconteceu no mundo. Além disso eu acho que, como leitores e espectadores, nós adoramos acompanhar personagens autenticamente obsessivos, porque nós mesmos somos todos obsessivos em alguma escala… espero que em coisas inofensivas… Detetives nos dão um canal por onde escoar muitas de nossas questões e angústias a respeito da vida e de onde estamos no mundo.

Um dos aspectos mais fortes de True Detective é o seu rigor e coerência visuais. Você está envolvido no processo?
Totalmente. Eu escolho os enquadramentos, eu faço a montagem. Trabalho diretamente com T-Bone (Burnett, músico, compositor e diretor musical de True Detective) na trilha musical. Escrevi um manifesto visual de 12 páginas para toda a série antes mesmo que uma única cena fosse filmada. E a abertura também — trabalhei a fundo na abertura das duas temporadas.

Você se considera um autor de um gênero específico, o policial?
Não creio. Para mim o que escrevo é a manifestação de um ponto de vista, e não das sombras expressionistas do cinema do pós-guerra. É uma extensão das questões existenciais criadas pelas duas guerras mundiais e a resposta do mundo a essas questões, uma resposta ao caos e ao horror que pode brotar a qualquer momento. Ou seja, como o nível macro reflete o nível micro da experiência humana.

Com relação à minha carreira, não tenho ambições de continuar contando apenas histórias de policiais e bandidos. E mesmo esta série, para mim ela é uma série de retratos íntimos de personagens conectados a uma história mais ampla. Estou sempre interessado sobretudo em personagens, sejam eles policiais, carteiros ou cowboys.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling Stone, Bizz, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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