Uma CPI útil

Por Janio de Freitas
FSP

Essas comissões, dizem, levam a nada; mas sempre deixam alguma coisa -ainda mais quando falta tudo

A CPI DOS TRANSPORTES, há uma semana entre o quase sai e o quase não sai, seria conveniente por sua provável impossibilidade de fugir a certos interrogatórios e esclarecimentos.

As exonerações nos Transportes já caminham para as três dezenas e, de concreto, não se sabe o motivo de nenhuma delas. Nem o fundamento de tal obscuridade. Até a anunciada defesa do decaído ministro Alfredo Nascimento fugiu a clarear sua meia denúncia, o que o deixou menos inocente do que antes do discurso de inocência.

Nascimento situou no período entre deixar de ser ministro em março de 2010, para candidatar-se, e voltar em janeiro de 2011, a elevação de R$ 58 bi para R$ 72 bi dos compromissos do ministério. Aumento, que disse surpreendê-lo, em reajustes de preços e aditivos de obras, e em obras não programadas. Sendo então ministro responsável pela multiplicação dos cifrões o mesmo Paulo Sérgio Passos que o sucede agora.

Da surpresa à recente saída, decorreu mais de meio ano. Tempo de sobra para verificação da legalidade de cada um dos acréscimos de custo das obras. Nascimento disse havê-la feito: 90 dias dedicados a “um pente-fino”. E o resultado? Silêncio. Quando ministro e, na tribuna, como exaltado senador a invocar uma alteração de gastos que, ou foi legítima e não haveria por que citá-la, ou não foi e deveria acompanhar-se das informações colhidas pelo “pente-fino” e ainda devidas.

Na primeira hipótese, a citação com suas insinuações, estendidas aos então ministros da Casa Civil, do Planejamento e da Fazenda, seria uma falsidade. Na segunda, indicaria certo comprometimento de Alfredo Nascimento com as improbidades, que teria acobertado com silêncio e com a falta das medidas exigidas por lei.

O assunto desses acréscimos não é novo. Tão logo Passos foi feito interino nos Transportes, com a queda de Nascimento, foi posto sob suspeição por aqueles bilhões. Uma explicação sucinta, que incluiu o ex-ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, pareceu satisfazer a Presidência e os meios de comunicação. Embora ontem, de relance, me fosse possível ouvir em uma rádio dois comentaristas ligarem os tais bilhões com fundos para a campanha eleitoral e até com “um novo mensalão”. Também sem indício algum.

Mas, se não devia antes, a insatisfatória explicação de Alfredo Nascimento o faz dever explicações à opinião pública e às obrigações do seu mandato. E tanto os que estão caindo em cascata como aqueles que os exoneram, no Ministério dos Transportes, devem esclarecimentos que uma CPI não precisaria fazer muito para obter: se não ouvisse os implicados de uma parte e de outra, ouviria quem?

CPIs, dizem, levam a nada. Sempre deixam alguma coisa, porém. Ainda mais quando falta tudo.

À VONTADE

Quase Nelson Jobim se mostrou aos espectadores no “Roda Vida”. Oportunidade houve, mas havia também os entrevistadores. Exceto Eliane Cantanhêde e Roberto Godoy, os entrevistadores tanto se atropelaram quanto atropelaram cada tema suscitado. E Jobim pôde dissimular à vontade, sempre precisando, a cada pergunta não desejada, “voltar um pouco mais atrás” e enveredar por uma historiada que nunca chegou à resposta pedida. Nem recebeu uma insistenciazinha.

Quem são os idiotas, afinal? Lá veio uma enrolação incompreensível, puxada de décadas, sem nexo e sem fim. E o seu texto metido no original da Constituição ao revisá-lo, qual é? “É preciso voltar mais atrás”, e nada. Por que a Avibrás, uma empresa bem equipada e competente, está de fora nos planos para a indústria de defesa? Nada, e essa tinha o que render mais tarde.

E ainda os chutes: “Pela mata, [contrabandista, presume-se] não passa, quem conhece a Amazônia como eu conheço, sabe disso”. Se fosse assim, não haveria extrativistas de castanhas e de seringueiras, madeireiros e nem sequer índios. Jobim conhece a periferia de umas trilhas militares, nunca participou de expedição floresta adentro, não sabe que a mata amazônica é das mais transitáveis. Assim em diante.

A dissimulação sem cobrança deu-se bem.

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