Uma dama e seu fantasma

Por Marcelo Coelho
FSP

O lado lacrimoso do filme seria a primeira coisa a suscitar em Thatcher acessos de desprezo

Tinham me dito que “A Dama de Ferro” era um filme chatíssimo. Resisti a acreditar nessa opinião, porque a vida de uma personagem tão polêmica como Margaret Thatcher não teria como despertar indiferença. É verdade que a cinebiografia dirigida por Phyllida Lloyd trata pouco dos conflitos políticos vividos pela primeira-ministra conservadora. É bem mais um filme sobre a tragédia de uma senhora bem vestida sendo consumida aos poucos pelo mal de Alzheimer.

Os esquecimentos, a fragilidade espiritual e as alucinações de Margaret Thatcher (ela conversa o tempo todo com Denis, o marido já morto), ocupam uns bons três quartos do filme. A razão para isso me parece clara. O desafio era “humanizar” uma líder política famosa pela inflexibilidade, pela adesão ao liberalismo econômico na forma extremada que tomou no começo da década de 1980.

A dose de Alzheimer teve de ser cavalar, para que não nos chocassem as atitudes de Thatcher no auge de suas forças.

Se o propósito do filme fosse mais informativo e menos sentimental, os prós e contras de seu governo poderiam ser abordados de forma mais interessante.

A escolha de Phyllida Lloyd foi outra: dar uma visão favorável da política de Thatcher, sem ignorar que a antipatia da primeira-ministra era indissociável de seu sucesso. Anestesiou-se o lado antipático, assim, numa névoa de enfermidade -tanto mais espessa quanto menos amável a personagem.

A ironia é que o lado lacrimoso do filme seria a primeira coisa a suscitar em Thatcher acessos de desprezo. Talvez ela preferisse nunca ter sido primeira-ministra se soubesse que teria de pagar o preço de ser retratada como uma anciã perdida e vacilante.

“O que a senhora está sentindo?”, pergunta-lhe o médico a certa altura da doença. É motivo bastante para um belo destampatório da ex-governante. Ninguém mais fala “eu penso”, diz ela. Só se fala “eu sinto, nós sentimos etc.”. Quer saber de ideias, de pensamentos, não de “feelings”. É uma lição que o filme poderia ter seguido. Os flashes sobre o governo Thatcher são reduzidos ao mínimo.

Mas também não estou pedindo um documentário nem mesmo um filme de crítica às medidas tomadas pela Dama de Ferro; em retrospecto, sempre se pode aprovar uma estratégia que no fim deu certo para a economia inglesa.

O preço poderia ser outro, a estratégia poderia ser outra? É sempre o que não se sabe direito quando o resultado é um “sucesso”. Os mortos, os perdedores, os falidos não falam mais.

O conservadorismo dessa cinebiografia é mais profundo, a meu ver, do que sua rápida adesão às estratégias thatcheristas. O foco da narrativa é tão centrado na coragem (inegável) da personagem, que sua ascensão ao poder surge como um conto de fadas.

Num dia, ela é a jovenzinha filha de quitandeiro, amargando uma digna derrota em sua primeira incursão eleitoral. No outro dia, ela recebe competente assessoria de imagem, sua campanha arrasta multidões. Quem a financiou? Quais suas alianças? Quem, apesar de tantos adversários, estava a seu favor?

Não sabemos -porque todo sucesso, no credo conservador, se reduz ao mérito do indivíduo isolado. Claro que Thatcher estava acima dos demais políticos, mas não se fez sozinha.

Escolheu quem queria agradar, enquanto desagradava os “acomodados”, os “vagabundos”, os “socialistas”, toda essa laia de aproveitadores que nada têm em comum com grandes acionistas de bancos, duques, proprietários de terra e tantos outros membros das classes mais esforçadas da população.

Como isso não é mostrado, o duro “realismo” conservador de Thatcher se transforma na história açucarada da mocinha que vence na vida. O fantasma do marido, que tantas vezes reaparece no filme, cumpre assim uma função na dramaturgia: é o antagonista, e o aliado, numa história em que a personagem principal é concebida em completo isolamento.

O ideal do indivíduo determinado, incapaz de dúvidas, coberto de méritos, capaz de voltar-se contra tudo e contra todos, tem sempre a cercá-lo com uma irrealidade básica, que se materializa no ectoplasma do marido. Não é entretanto o fantasma de Denis, mas o de Thatcher, que continua a nos assombrar.

Tanta insistência em sua agonia e declínio talvez seja, inconscientemente, o modo que o filme encontrou para lidar com essa assombração.

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