Uma delícia de crise

Por Tácito Costa

Hoje eu tive a exata dimensão da crise em que o Brasil está mergulhado. E como Regina eu senti medo. As hordas de flagelados da seca perambulando pelo interior e que chegou aos principais cruzamentos de Natal; as invasões ao comércio, no interior e na capital; o desemprego galopante; desabastecimento no comércio; inflação na estratosfera; os shopping center vazios; os baixíssimos lucros dos bancos (segundo a Exame, “nos seis primeiros meses do ano, os ganhos do Itaú somaram 9,3 bilhões de reais. O Bradesco ficou com o segundo lugar e lucro de 7,2 bilhões de reais”). Sobraram ingressos (entre R$ 30,00 e 70,00) para o jogo entre América e Flamengo.

A situação é gravíssima, diria o agregado José Dias. Mas, somente hoje me dei conta. Sou mesmo um alienado, sequer dei ouvidos aos bem informados leitores da Veja me alertando do perigo vermelho, que o comunismo bate à porta e é preciso salvar as criancinhas, que a Venezuela é aqui.

Salve-se quem puder!

Não frequento a micro academia de ginástica do meu prédio. Não gosto de caminhar naquelas esteiras. Os minutos só faltam não passar. Prefiro as ruas da cidade. Mas hoje, como estou com problemas na coluna e o fisioterapeuta recomendou caminhar em terreno plano optei pela esteira.

E foi ouvindo a conversa de algumas pessoas de classe média que estavam lá que, finalmente, caiu a ficha. A senhora, avó, revoltada com a alta do dólar, o que vai restringir suas viagens internacionais, pergunta ao rapazinho quando ele viaja para o Chile. Outra senhora contando da última festa que frequentou, no Olimpo (o de Natal!), um casamento, recepção para mais de 200 mil Reais: “tinha uma mesa por cima de chocolates Copenhagen, mas fiquei chocada porque o povo invadiu, algumas pessoas saíram com braçadas de chocolate, acho isso vergonhoso”.

O assunto envereda pelas viagens ao exterior. Nada provoca mais frenesi na classe média natalense do que viajar pra fora do Brasil (talvez só a degustação de vinho e Pilates), mesmo que sejam aquelas viagens de em três dias passar por dez países. Aliás, falar sobre viagens ao exterior virou um fetiche. Porque o importante não é conhecer coisa nenhuma, mas apenas poder contar que já fez mais de 30 viagens internacionais, “perdi a conta de quantas fiz!”, ouvimos com frequência aqui e ali. Do Brasil mesmo, no entanto, só conhece um pouco de Natal, “cidade sem graça e sem opções culturais”.

Pobre rica classe média!

 

 

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