Uma experiência dramatúrgica” (de João Júnior)

Por Jota Mombaça

A coisa do silêncio e as câmeras de segurança do edifício. Antes mesmo os pés filmados e os passos parando e seguindo, como asas de pássaros que voam e aportam em um ninho onde mal cabem, mas se apertam, sabe-se por quê…

Não cabe saber. “Sinto calor, sinto frio/ nordestino do Brasil/ vivo entre São Paulo e Rio/ porque não posso chorar.” Caetano Veloso, no começo de sua obra, mais ou menos situado no tempo do êxodo nordeste-sudeste, e mesmo um pouco depois, araçá azul, 72, por exemplo, parece nos aproximar do dilaceramento do nordestino migrante perante a cidade (grande) em que chega.

João Júnior traz outro corpo para outro tempo, um corpo migrado, curtido, reconstituído de próteses que nem sempre lhe cabem, as suas pequenas tragédias sufocadas pela resignação. “Aproveita uma revoada de pássaros selvagens para evadir-se” e depois de ir chega e o tempo passa e o pássaro fica (dócil) e aí se lembra do tempo distante em que viu na tevê (o que nós vemos projetado onde antes se projetaram os ângulos melancólicos dados pela câmera de segurança) Jair Rodrigues vencer o Festival da Record, ainda em 66, cantando a Disparada de Vandré.

Ainda é silêncio quando Ou toca uma gaita que quer ser sanfona Ou ouve baixo, no rádio de pilha antigo, a música de Luiz Gonzaga e a canção esquecida dos pais. Veio puxando uma cachorrinha e, quando fica, fica de Cacilda amigo, sinceramente amigo, como era amigo de Baleia Fabiano. E é a ela, à cachorra, que se entrega triste, porque ela lhe olha e lhe vê e até compraria na farmácia um remédio se ele pedisse, né? O Juão (não o Júnior) quem me falou sobre o caráter mítico desta figura da cachorra e eu associei isso à expressão que minha mãe – nordestina que nasceu pobre e errou por um tempo com a família pelo nordeste até parar aqui – usa e aos migrantes de Graciliano – em Vidas Secas.

Quase chorei agora enquanto escrevia porque estou ouvindo Disparada e porque Fabiano grunhia porque não sabia falar, porque “não tinha leitura” e por isso também não se podia impor ao patrão assim como não se impõem à vida os tristes homens que vivem nas camadas da narrativa de João Júnior. Lá (no salão nobre do TAM, quinta-feira, dia 04, dia em que assisti à encenação) eu chorei quando, em uma das camadas, eu os vi a todos, um a um, no vídeo, na cena multimídia – como quando, por exemplo, o rosto de um destes “paraíbas” se faz projetar no peito do ator que fala com a voz do autor, que lhe existe no corpo, e é o corpo esbelto de João Júnior que parece hibridizar-se com o corpo do vivente que lhe deu voz, assistimos ao surgimento de uma terceira coisa, um terceiro homem que ora chia ora nega a dicção do lugar de onde não veio. Sabe, vê-los me aproximou deles, ou melhor, aproximou-os de mim e eu me pude colocar neles e é isso que mais me dilacerou/dilacera/dilacerará, mais até do que constatar a verossimilhança daquela narrativa de superposições de retratos quase fiéis dos nove ou dez porteiros migrados saídos de um lugar em que todo mundo os via para viver noutro tão cheio de gente que não quer saber da dor da gente.

Quem sou eu quando chego lá e não saio? Portaria silêncio. Eu sou este edifício e a sombra do homem que transita por avenidas, praças e viadutos de um lugar que não é este homem nem sou eu. Eu deixei minha mãe em casa, quero voltar antes que ela morra, mas quero ir bem de vida, por isso vou juntando dinheiro – e sonhos falhos. Considero-me a meio caminho: eu já vim, falta voltar. “Os homens sabem fazer tudo menos ninhos de pássaros.”

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