Uma manhã literária

Eu não nasci rodeada de livros e, sim, rodeada de palavras.

Conceição Evaristo

Jamais imaginei que fosse participar de um evento literário presencial durante a pandemia da Covid-19. Aliás, uma das atividades de que mais sinto falta são os eventos literários.

Acho que o último evento de que participei foi em janeiro, na Livraria Manimbu, um bate-papo com os jornalistas e escritores Osair Vasconcelos e Antônio Melo, mediado por Aluísio Azevedo, ativista cultural e escritor, responsável pela livraria.

Foi uma agradável surpresa reencontrar meu amigo Osair e conhecer um pouco do trabalho de Antônio Melo, autor de dois romances: “A Vingança” (Z Editora, 2018) e “O diário das folhas mortas”, este recém-publicado pela Amazon. A Manimbu é fruto de uma parceria entre a Fundação José Augusto e a organização Unilivreira.

O evento coincidiu com o aniversário do meu amigo Saul Oliveira, mas fiz questão de prestigiar os dois momentos. A comemoração dos 30 anos de Saul foi uma feijoada regada a música e bons papos.

Aquele foi um dia muito especial, vivenciado ao lado da nossa amiga Mariete, aposentada como professora de Geografia do estado que está sempre fazendo cursos de especialização na UFRN, onde nos conhecemos. É uma figura muito conhecida na universidade.

Dia de festejar os trinta anos de Saul e reencontrar amigos queridos que moram no Paraná, Peterson Nogueira e Hermano Faustino, e conhecer novos amigos daquelas terras, Jailson Oliveira e William Ferreira.

Desde então, tenho participado de alguns eventos on-line, nos quais tive a oportunidade de dialogar com outros amigos escritores sobre a vida e obra de Nísia Floresta, Zila Mamede, Madalena Antunes, Newton Navarro, entre outros nomes da nossa literatura.

Além disso, participei de um bate-papo sobre crônica com alunos do Conceito – Colégio e Curso, a convite do professor Cláudio Everton. Para minha surpresa, há alguns dias, recebi um convite da escritora e professora de Literatura Ana Catarina Fernandes para conversar com seus alunos da 1ª série do ensino médio de forma presencial.

Um convite que encheu meu coração de alegria e esperança. Com a flexibilização das atividades econômicas, algumas escolas particulares retomaram suas atividades presenciais.

A felicidade está nas coisas simples

O evento aconteceu na última sexta-feira, em uma área aberta do Colégio Marie Jost, atendendo a todas as recomendações dos protocolos de biossegurança. O bate-papo sobre crônica fez parte de uma atividade idealizada pela equipe de Língua Portuguesa do colégio.

Há alguns dias, a professora Ana Catarina trabalhou algumas crônicas nossas com os alunos da 1ª e da 3ª séries do ensino médio e um dos momentos da atividade foi responder perguntas dos alunos sobre os textos estudados em sala de aula, além de outras questões relativas à nossa produção literária, aspectos biográficos e temas afins.

Fiquei encantada com o lugar desde a entrada, quando percebi que se tratava de uma área cercada de natureza e muitos espaços de convivência ao livre, o que considero um modelo ideal de escola. A maioria delas lembram prisões. Conhecimento e disciplina também combinam com liberdade. Afinal, “disciplina é liberdade”, como diz Renato na canção “Há tempos”. Quem dera todas as crianças e jovens tivessem a oportunidade de estudar num lugar daquele.

Voltemos a minha chegada no Marie Jost. Conforme combinado, cheguei um pouco antes do horário da aula e fiquei aguardando a professora em um local bastante agradável, uma espécie de jardim com bancos de madeira pintados e contendo frases bonitas/poéticas.

No meu banco estava escrito: “A felicidade está nas coisas simples”. Aquilo era o prenúncio de uma manhã feliz, de uma manhã inesquecível.

Meus primeiros passos na escola

Chegada a hora do evento e, feitas as devidas apresentações, contei um pouco da minha história de vida e reforcei a importância de valorizarmos nossas origens, de não esquecermos de onde viemos e para onde queremos ir.

Aliás, tenho muito orgulho de ser filha de Maria Braz, uma mulher analfabeta que me matriculou na escola aos sete anos de idade (faixa etária mínima para ingressar no ensino público na década de 1980) e ia me deixar na aula antes de voltar para seus trabalhos como faxineira e lavadeira de roupas.

Outro dia ela me contou que quando não podia ir me buscar na escola pedia ao neto de dona Isaura, sua patroa e amiga, que fizesse isso. Apesar de não ter estudado, minha mãe sabia que apenas o conhecimento poderia me garantir um futuro melhor. Sou muito grata por ela ter ficado comigo esperando a escola abrir naquele primeiro dia de aula. Ficamos sentadas embaixo de uma árvore. Fecho os olhos e vejo essa cena… Uma cena que faz parte das minhas melhores memórias de infância.

O material escolar era sempre complementado por nossa tia Neuza, que trabalhava como zeladora em uma escola particular de Garanhuns e trazia algumas doações que recebia lá para os sobrinhos.

Lembro dos estojos de madeira cheios de lápis de cor, das revistas em quadrinhos e, especialmente, de uma lancheira dos Ursinhos Carinhosos. Por isso, sigo acreditando que a felicidade está nas coisas mais simples e sem muito apego a coisas materiais.

Outro momento marcante dessa época é o encontro com meu irmão Jonas para receber alguns cadernos e lápis no período escolar, lembro de uns cadernos com desenhos da Disney que eu amava, pois mãe não tinha condições de comprar muitas coisas naquele tempo; e o que ela podia comprar me deixava muito feliz. Uma época em que meu sonho era ter uma farda escolar, o que veio a acontecer somente quando estava na quinta série (hoje sexto ano do ensino fundamental 2).

Meu sonho era ter o fardamento do colégio e poder participar do desfile do Sete de Setembro, o que nunca aconteceu.

Anarriê!

Outro desejo era ter um vestido para dançar quadrilha, o que só veio a acontecer na adolescência, quando eu já havia sido adotada por tia Terezinha e ela mesma fez um lindo vestido para mim. Mas nem por isso eu deixava de ser feliz e de gostar da escola. O ambiente escolar sempre foi muito significativo para mim. A escola sempre foi lugar de acolhimento.

Uma vez dancei quadrilha com um conjunto de saia e blusa vermelho que ganhei das minhas primas que moram em São Paulo. Uma vez por ano, elas iam a Garanhuns e levavam algumas roupas pra gente. Aquele era um momento de felicidade para mim, tanto pelo encontro como pelos presentes que elas nos traziam.

Lúcia, Ladjane, Lucineide, Ana, Cida e Cicinha deixaram sua cidade natal para ganhar a vida em São Paulo, junto aos seus irmãos, Luciano, Lourinaldo e Luizinho. Deixaram sua terra depois que a mãe faleceu. Tia Quitéria era irmã do meu pai. Unidos desde que chegaram à capital paulista em busca de uma vida melhor, os nove irmãos continuam morando em São Paulo e se encontram ao menos uma vez por semana.

Tive a felicidade de reencontrá-los na primeira vez que fui a Sampa, em 2017, e também em 2018, quando desfrutamos de um domingo regado a feijoada e boas conversas. Não vejo a hora de visitá-los novamente. Uma das alegrias da primeira viagem foi conhecer os filhos de Ladjane: Mariana e Vinicius; os de Lucineide: Lara e Manoel; e o de Cicinha: Caio.

Professores que tive e carreira como escritora

Voltemos à palestra com o alunos do Marie Jost. Depois de falar das minhas origens e do pouco contato com livros na infância, destaquei a importância dos professores, especialmente os de Língua Portuguesa, na minha formação. Não fosse eles, talvez eu não seguisse escrevendo e não tivesse chegado aqui. Sempre recebi incentivo para escrever na escola, e não só dos professores de Língua Portuguesa, mas também de Ciências, Geografia, História, Sociologia, Artes etc.

O evento aconteceu na última sexta-feira, em uma área aberta do Colégio Marie Jost, atendendo a todas as recomendações dos protocolos de biossegurança.

Destaco os professores da Escola Municipal Antônio Severiano, onde cursei o ensino fundamental 2 e os professores do Cefet (IFRN), onde fiz o curso técnico de Turismo. Quando falávamos sobre influências literárias, Ana Catarina fez uma observação importantíssima, destacou a leitura como atividade fundamental para o exercício da escrita.  

E por falar em participação da professora, vale ressaltar que a atividade foi resultado de um trabalho desenvolvido em equipe. Um trabalho que se diferencia, também, e principalmente, por discutir obras de autores potiguares, tantas vezes desprestigiados em nossa terra e ainda tão pouco conhecidos da maioria da população, que deveria começar a conhecê-los ainda na escola.

E a Escola Marie Jost tem feito um trabalho exemplar nesse sentido, capitaneado pela equipe de Língua Portuguesa, formada por Ana Catarina Fernandes, Felipe Franklin e Raquel Brito.

Além de abordar minha trajetória como escritora, tive a oportunidade de dialogar com eles sobre o ofício do revisor de textos, atividade que exerço há uma década, tendo começado na Editora da UFRN como bolsista e passado por diversos setores da universidade, primeiro como bolsista e depois como terceirizada, onde continuo trabalhando.

Aliás, agradeço à professora Ana Catarina por ter solicitado que eu inserisse na palestra a abordagem sobre minha atuação profissional. Os alunos se mostraram bastante interessados e fizeram diversas perguntas sobre o processo de trabalho do revisor de textos, mas a melhor parte foi perceber o encanto deles perante os exemplares que levamos para expor no dia de nossa conversa.

Dentre os livros que revisei, uma média de 90 títulos, dos mais diversos gêneros, estavam obras de Américo de Oliveira Costa, Ana Cláudia Trigueiro, Antônio Melo, Câmara Cascudo, Conceição Fraga, Constância Lima Duarte, Diulinda Garcia, Luís Carlos Guimarães, Maria de Fátima Medeiros, Marivaldo Teixeira, Nelson Patriota, Núbia Rodrigues, entre outros.

Dentre outras coisas, falamos sobre o processo de edição de livros, revisão de textos acadêmicos e normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Destacamos, ainda, a importância da disciplina, da ética e da pesquisa constante para desenvolver um trabalho de qualidade.

E nasci para escrever

Encerramos o evento com muita alegria e com o desejo de que o momento pudesse se repetir em outro contexto. Um contexto que nos permitisse dar um abraço caloroso em cada um deles, vê-los sorrir sem máscara e reforçar a alegria daquele encontro e daquela manhã de afetos e partilhas literárias.

Após o evento, permaneci um tempinho conversando com algumas alunas e fiquei encantada com o interesse delas pelos livros ali expostos.

Fiquei fascinada, também, com o amor de Sofia Falcão pela literatura potiguar e seu desejo de continuar desbravando esse universo tão rico. Ela me contou que havia feito um trabalho sobre Nísia Floresta recentemente e já conhecia um pouco da obra de Zila Mamede.  

Quando perguntei como surgiu o interesse pelos autores potiguares, respondeu que “foi num livro de Tarcísio Gurgel”, onde estudou “a arquitetura, a história e a cultura do RN”. Trata-se do livro “Introdução à Cultura do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Gurgel, Vicente Vitoriano e Deífilo Gurgel.

Além da receptividade da escola e da atenção dos alunos, dois momentos especiais ainda estavam por vir: o almoço com Ana Catarina no refeitório do colégio e a visita à biblioteca, onde pude desfrutar de uma conversa edificante e otimista com a bibliotecária da instituição, Jovita Granze, que muito me ensinou sobre a atuação do bibliotecário escolar e destacou o trabalho do Marie Jost no tocante à formação leitora de seus alunos. Jovita faz um trabalho brilhante na instituição e me falou sobre algumas das ações desenvolvidas na biblioteca.

Ademais, não posso deixar de mencionar o mimo com que fui agraciada após o evento, uma caneca sustentável com a logomarca da escola.

Detalhe: amo canecas! Tenho duas de coruja que ganhei da minha amiga Jarlene Lima que são o meu xodó. Coincidentemente, o presente também foi recebido após uma palestra sobre crônica na escola estadual em que Jarlene atua como professora de Língua Portuguesa.

Com o coração repleto de alegria e esperança, saí da escola com uma certeza: escrever é algo que dá sentido à minha existência e o que desejo fazer até o fim dos meus dias.

Essa reflexão, aliás, me fez lembrar uma declaração de Clarice Lispector: “E nasci para escrever. A palavra é meu domínio cobre o mundo”.

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