Uma noite dentro do blues

Por Pablo Capistrano

Os homens que me perdoem, mas a voz humana é um instrumento projetado para as mulheres. Sei que existem os “pavarotis”, os “chet bakers”, os “miltons nascimentos”, mas, na minha humilde opinião o canto é uma arte feminina.

A primeira vez, por exemplo, que eu tomei consciência da existência de Billie Holiday foi em uma madrugada úmida de 1990. Deviam ser 2 ou 3 da manhã. Sei que era uma quarta ou quinta, porque o El-Chaco (um Bar que ficava na Praça das Flores em Petrópolis, coração da natal burguesa, paradoxalmente matuta e cosmopolita) estava vazio. Como eu andava meio bêbado há algum tempo, lembro nebulosamente de Hugo (um dos sócios do bar) tentando fechar o caixa sempre iluminado por uma tênue luz vermelha, que dava ao lugar um ar de cabaré. Lembro também de Batatinha (a garçonete mais hard core que Natal já conheceu) tentando me dizer alguma coisa no balcão enquanto “alumão” (o outro sócio do local) cochilava deitado em cima do freezer.

Billie Holiday entrou na minha vida quando eu tinha dezesseis anos. No tempo em que as paixões elétricas do corpo e as alucinações psicoacústicas da mente nos pregavam suas peças transportadoras. O disco começou a rolar na vitrola e eu já não estava mais no El Chaco. Já não estava mais em Natal, na praça das flores. Já não estava mais no primeiro inverno da última década daquele milênio moribundo.

Billie me seqüestrou para o seu mundo e até hoje, sempre que eu me mantenho desperto em alguma madrugada fria e úmida, sinto um gelo na espinha e meu coração acelera com o desejo atávico de ouvir Pennies from heaven, Night and Day, Body and Soul na voz daquela mulher.

Não vou me alongar descrevendo o que aconteceu nos anos que sucederam aquelas madrugadas acústicas no El Chaco. O fato é que sempre, quando o bar estava para fechar e meu fígado conseguia ainda processar aquelas coisas todas que eu costumava a consumir, pedida para o Hugo colocar na vitrola o vinil da Billie Holiday.

Ela foi uma típica garota do wilde side of blues. Uma menina que viveu no lado negro da força, mais por circunstâncias do que por escolha pessoal. Filha de um músico da orquestra de Fletcher Henderson que a abandonou ainda criança, aos doze anos foi abusada sexualmente e logo teve que se prostituir para viver. A secura do mundo esculpiu a alma daquela menina com um misto desconcertante de dureza melancólica e doçura rítmica. Na metade dos anos de 1930, John Hammond (produtor de Jazz de Nova York) apareceu em um boteco no Harlem e a ouviu cantar. Ele logo percebeu que ela tinha um alcance vocal pequeno, só um pouco acima de uma oitava. Notou que ela também cantava um pouco atrás do ritmo como se quisesse atrasar a música, mas que tinha uma característica absolutamente peculiar: sua voz percorria o fraseado melódico como se fosse um instrumento.

Teddy Wilson, que liderou as primeiras gravações da nova “descoberta” de Hammond, percebeu que aquela garota, que “fumava e bebia como um homem”, que curtia meninos e meninas com a mesma ferocidade sexual, que estava sempre metida em brigas e parecia gostar de caminhar à beira do abismo, tinha um senso superior do tempo da música.

Ela parecia flutuar em um afastamento estético, típico daquela intuição musical que só Blues consegue dar. A questão é que aquilo não era apenas Blues, mas envolvia também uma conjuntura melódica de jazz. Era como se Bessie Smith e Louis Armstrong estivessem se fundido em uma única pessoa.

Algum tempo depois quando Billie Holiday encontrou-se com Lester Young, (saxofonista do Mississipi) um algo a mais aconteceu. Young era um rival do grande Coleman Halkins (sujeito que levou o sax a categoria de instrumento central no Jazz – ainda vou escrever uma crônica sobre esse cara!) e de certa forma era também o seu oposto. Tímido, educado, gentil, Young era constantemente surrado pelo pai e obrigado a tocar com a família em circos pelo sul dos EUA. Seu som era suave, leve, aéreo, quase envelhecido. Costumava a tocar o sax tenor como se fosse um sax alto e tinha um cacoete de colocar o instrumento de lado para tocar.

Billie, que também era conhecida pelos companheiros de palco como “Willian” encontrou uma imediata afinidade com Young, seu antípoda.

Foi justamente Lester Young que começou a chamá-la de Lady Day, uma curiosa ironia com os aspectos mais noturnos e sombrios da personalidade daquela mulher. Seu sax, o instrumento que, segundo os entendidos, mais se aproxima da voz masculina, foi sempre o mais fiel tradutor do sentimento rítmico e do extraordinário senso de tempo de Billie. Era como um amor acima do corpo e das impossibilidades físicas, um amor que ultrapassava as linguagens usuais e se manifestava no espaço transcendente da música.

Eles foram tão parceiros um do outro como depois Dizzy Gillespie e Charlie Parker, Paul Desmond e Dave Brubeck ou Miles Davis e Bill Evans. Certamente deve haver algo de místico nessa história de música. Alguma alquimia quântica, alguma culinária oculta que ultrapassa o senso ordinário de nossa empiria cotidiana e nos assombra com imagens que parecem saltar de um outro mundo.

Hoje, vinte anos depois de ter sido abduzido pela voz de Billie Holiday e pelo sax de Lester Young, eu me acostumei com o dia. Aprendi, após algumas viagens pelo lado noturno da vida, como lidar com a melancolia úmida que evapora constantemente de meus abismos, como enfrentar algumas armadilhas perigosas da mente, como suportar o tranco do desejo, que desconstroi nossas pontes e nos faz flutuar sobre o vazio como um saco de lixo cheio de ar quente. Tornar-se um ser diurno não é uma tarefa impossível. Complicado mesmo é manter-se no dia. Difícil é resistir aquela profunda nostalgia da noite. Aquela saudade das madrugadas silenciosas e da falta de foco dos postes de luz na névoa da chuva, quando, por um motivo ou outro, a voz de Lady Day ecoa no ambiente.

Nunca são inofensivas as incursões noite à dentro do blues. É bom que você saiba disso.

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