Uma noite em Bonsucesso

Por Demétrio Diniz

ZÉ DE LAURA AJEITOU A PEIXEIRA DE DOZE POLEGADAS por baixo da camisa, e saiu com seu primo Solano. Não pensavam em briga, que inimigos não havia. A faca era pelo costume, como adereço de macheza.

Pelo caminho as árvores retorcidas, cinzentas, e o ar morno. Só os juazeiros e os pés de algaroba, com seu verde persistente, destoavam da paisagem. Os dois queriam chegar na boca da noite, antes do tocador destravar a mala da sanfona.

Zé ia pensando em Eudócia, uma branquinha sardenta que mais parecia ruiva, e dona de seu nariz. Casara-se por arranjo com um comerciante rico do Uiraúna, não durando o casamento mais de duas semanas. Eudócia alugou uma carroça e levou as malas de noite para a casa de um rapaz que conheceu na lua de mel e por quem sentiu uma paixão repentina.

De Catolé do Rocha saíram o sargento Álvaro, um cabo e dez soldados. Os doze embarcaram em dois jipinhos cinquenta e três, cantando marchas militares, os soldados brincando um com outro de tapa na cabeça, os jipes dando catabil na estrada esburacada. Vinham também para o forró em Bonsucesso, na ilusão de arranjar uma namorada.

Os rapazes torravam o soldo na cerveja, e tantas beberam que o dono da casa avisou terem se acabado as dormidas no pote. Milico é milico, tem sempre aquele poder da arma e da farda, ainda mais com bebida, se não tiver cuidado tira fino na arrogância e na prepotência. O cabo viu a branquinha dançando, o vestido de florzinha miúda dava pra ver os joelhos, parou o sanfoneiro, atravessou o chão de barro e pelo braço apartou a moça:

– Vai dançar comigo.

O par era Zé de Laura, por perto e a essa altura atento o primo Solano. Ninguém viu como começou, ninguém sabe como se apagou o candeeiro, só pode ter sido por ajuda de mão. Vento não foi, numa noite de tempo parado, numa terra onde nunca se ouviu falar de brisa.

Pela manhã o terreiro, ensopado de sangue, mais parecia o chão de um matadouro. Uma patrulha veio de Catolé recolher os sete corpos, do sargento, do cabo e cinco soldados, e não quiseram ver o estrago no mato, a quebradeira dos pés de mofumbo por onde se perdeu o resto da tropa.

No outro dia os serrotes amanheceram ponteados de verde. E não era verde de inverno, pois naquele ano desgraçado nenhuma chuva cairia, ano em que gente chorou de fome, e o prefeito Tibúrcio Oliveira, respondendo a uma leva de retirantes, deu pelo secretário a resposta que ficou na memória:

– Vão comer macambira.

Os caminhões chegaram de madrugada na surdina, desceram a ladeira da igreja com o motor desligado e despejaram pela redondeza seiscentos soldados. No quebrar da barra a paisagem já havia mudado de cor. Espalhados por tudo quanto era canto, os soldados de fuzil na mão vasculhavam o leito seco do riacho, o alto do cemitério, os lajedos da serra, as furnas das onças, o sítio do Tingui, os cafundós do Casteliano, indo até os limites de Ulrich Graff.

Na casa paroquial o capitão Rosalvo instalou o quartel, com rádio amador e sentinela na entrada, e de lá comandava a ocupação. O primeiro a ser chamado foi o prefeito, que disse não conhecer os dois meninos.

– Menino uma merda, dois bandidos.

O capitão gritou com um murro na mesa, derrubando a estátua do padre Cícero Romão. O pároco, pressentindo violência, a colocara ali para enaltecer a qualidade de astúcia do Padre Santo, e com isso convencer o oficial de que esta é bem melhor que o emprego de força bruta. Tibúrcio Oliveira tremeu na base, a voz não era mais a mesma de quando mandou o povo comer macambira, e ofereceu refeição para a tropa no hotel de dona Lilia.

O prefeito desceu ligeiro a ladeira da igreja, rebolando no juízo o olho do capitão, um olho agateado de suçuarana:

– Você vai, mas volta. E quando voltar, eu lhe prendo e mando dar uma surra.

Depois foi a vez do secretário, que saiu da prefeitura se vangloriando de não ter medo de major, muito menos de capitão, era da família dos Bernardino de Princesa, paraibano, primo legítimo do famoso Manuel Ronco Grosso . Mas a estória que se contou depois é que ficou nu, amarrado no chiqueiro, chafurdando no estrume das galinhas.

De vez em quando entrava e saía gente da casa paroquial, de segunda a domingo era um vai e vem, intimação por cima de intimação, comerciante rico e bodegueiro pobre, até a velha Firmina que guardava a chave do cemitério foi lá com suas pernas tortas e a bengala de mulungu.

Ninguém sabia, ninguém tinha ouvido falar de Zé de Laura e Solano. Muitos apanharam, inclusive seu João do Capim, useiro e vezeiro em escapar de cobrador com estórias compridas, ainda por cima costuradas com ¨aí¨. O capitão fez até um fazendeiro atravessar a cidade nu, em cima de uma carroça, gritando pra todo mundo ouvir que era inocente. Dava pena ver Ezequiel, dono de açude e casa de moagem, apanhando daquele jeito. Numa simulação dos diabos, fizeram o homem cavar a própria cova, entrar nela, e levar na cara doze pás de terra. Dona Belmira chora quando se lembra do fazendeiro, que também era seu padrinho, doendo até hoje no ouvido o berro que deu ao passar em frente à casa dela:

– Atire em mim, compadre Chiquinho.

O capitão Rosalvo já se cansava da missão sem resultado. Comia mal e dormia numa esteira de palha, o pensamento sem querer sair da mulher nova e bonita que deixou em Campina Grande. Nunca imaginara fugir da regra, ter de desmoralizar tanto chefe de família, logo ele, um militar disciplinado, fiel adepto da corrente positivista do grande Benjamin Constant.

Pensava nisso tudo e na cidade, que se tornara hostil. As pessoas não lhe davam mais bom-dia, mirando o chão ao cruzar com ele. Pensava também no malogro da campanha, um mês atolado sem sair do canto, numa terra onde o povo não sabia de nada, dissimulado como japonês nas Filipinas. Entregou os pontos, recolhendo os soldados à sede do batalhão.

Zé de Laura e o primo Solano, se soube depois, estiveram o tempo todo escondidos numa loca de pedra, na Serra da Barriguda, vendo passar por cima a bota dos soldados. Nas noites de escuro fechado, as comadres se arriscavam nos espinheiros e nas pedras para levar para os dois angu e carne assada, farinha e mel de jandaíra, café, fumo e palha. O fumo picado e a palha cortada porque não queriam vê-los carecer de mais trabalho.

De Solano nunca mais se teve notícia, mas Zé de Laura, alguns anos depois, se apresentou ao juiz, alegou legítima defesa, e contou que levaram vantagem na briga porque os soldados, bêbados, gritavam muito, e também porque os botões da farda, bem polidos, os marcavam no escuro. Saiu do júri em passeata, carregado nos braços, debaixo do pipoco de foguetões. Foi direto pagar uma promessa na igreja de Nossa Senhora das Dores. Agradecer por ele e rezar pela alma dos sete finados.

Vinte anos depois o vi sair de uma bodega, uns embrulhos debaixo do braço. Não mudara nada: a camisa passada por dentro, a lambedeira de doze polegadas escondida na cintura de trás, e o mesmo sorriso miúdo e cordial de chinês.

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