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Uma noite na Espanha

Sobre meu primeiro concerto da Orquestra Sinfônica do RN.

Fotografia de capa: Paulo Fuga

Quando vi a chamada para o evento, logo pensei que aquele concerto da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte seria imperdível. O anúncio dizia que a noite seria abrilhantada por duas cantoras líricas espanholas: as sopranos Conchi Moyano e Laura Alonso. Além de apreciar esse tipo de evento, sou apaixonada pela cultura espanhola, herança do tempo de ensino médio, quando estudei três idiomas, entre eles o espanhol. Fiz curso técnico de turismo e, mesmo não seguindo carreira, sou grata pela formação que tive no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte, hoje IFRN. Aliás, muito do que sou devo a essa escola.

Voltando ao anúncio do concerto. Vi a notícia uma semana antes do evento e acabei esquecendo de acessar o site da OSRN para garantir o ingresso. O evento é gratuito, mas as senhas precisam ser retiradas com antecedência na bilheteria do Teatro Riachuelo, onde acontecem os concertos, sempre na última quarta-feira de cada mês. Cada espectador tem direito a dois ingressos. O primeiro lote de senhas pode ser reservado pela internet.

Chegado o dia do evento de abril, eu não tinha ingresso, mas estava esperançosa de consegui-lo através de um amigo. Seria o meu primeiro concerto da Orquestra Sinfônica do RN. Estrategicamente, marquei um café com uma amiga horas antes do concerto; assim poderia esperar a apresentação em boa companhia e desfrutar de momentos agradáveis junto a minha irmã Cristina, que tem me acompanhado nos eventos culturais desde que voltou a morar em Natal.

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Concerto da OSRN é didático e nos faz mergulhar em cada uma das obras apresentadas. Foi a sensação que tive ao escutar o maestro Linus Lerner falar sobre “Carmen”, do francês Georges Bizet, “a mais espanhola das óperas, mesmo sendo de autoria de um francês”.

Concerto didático

Terminado o café, recebi a ligação do meu amigo Nelson Patriota confirmando a entrega das senhas meia hora antes do concerto. Para matar o tempo, eu e Cris ficamos na livraria, onde encontramos alguns amigos, entre eles o escritor Aldo Lopes, e batemos um papo sobre literatura e temas afins. Antes do evento, outra surpresa agradável, o reencontro com minha amiga Ana Paula Gadelha. Ela e o namorado também estavam indo assistir ao concerto.

Apesar de ser minha primeira vez no concerto da sinfônica do estado, já tinha algum conhecimento do evento. Meu amigo Nelson, frequentador assíduo do projeto, já havia me explicado, por exemplo, que o concerto é bastante didático e que o maestro Linus Lerner é supercarismático.

Minha experiência com música clássica se resume aos concertos da Escola de Música da UFRN, os quais assisto com relativa frequência há uns sete anos. Já tive a oportunidade de assistir na EMUFRN a diversos concertos do renomado pianista Durval Cessetti, do violoncelista Fábio Pesgrave, além de diversos eventos com músicos internacionais (Estados Unidos, França, Alemanha).

Meu amigo Nelson tem toda razão, o concerto da OSRN é superdidático e nos faz mergulhar em cada uma das obras apresentadas. Foi a sensação que tive ao escutar o maestro falar sobre a ópera “Carmen”, do compositor francês Georges Bizet, “a mais espanhola das óperas, mesmo sendo de autoria de um francês”, segundo Linus Lerner.

Bizet, no entanto, não presenciou o sucesso da ópera, que em sua estreia foi muito criticada por seu caráter transgressor. Somente depois de uma aclamada apresentação em Viena, em outubro de 1875, é que alcançou o ápice. Na ocasião, estavam presentes Brahms, Wagner, Tchaikovsky e Nietzsche. O compositor morreu em outubro daquele ano.

Andreia_Uma noite na Espanha.5Novas plateias

Apesar de nunca ter assistido a uma ópera, a sensação era de familiaridade com o que era explicado pelo maestro nos pequenos intervalos de cada peça.

A Orquestra Sinfônica do RN, criada em 1976, tem realizado um importante trabalho educativo na formação de novas plateias, bem como na difusão de música erudita ou popular, segundo informações de sua página oficial. Com entusiasmo e competência, o maestro Linus Lerner, à frente da OSRN desde 2012, tem contribuído para a essa fase profícua da Orquestra.

Além de experiência como regente orquestral e de ópera, Linus Lerner também atua como regente de coros. O maestro da OSRN tem dois mestrados em música: um em regência orquestral, pela Universidade Estadual da Flórida, e outro em Performance Vocal (ópera), pelo Conservatório de Música da Universidade de Cincinnati.

Seu doutorado em regência de orquestra foi realizado pela Universidade do Arizona. Regeu vários grupos nos Estados Unidos, Brasil, Bulgária, China, entre outros.

Após o concerto, ainda em êxtase, pensei como seria bom se todas as pessoas tivessem acesso a esse tipo de evento. Ao mesmo tempo, lembrei de uma certa afirmação com a qual não estou de acordo e que me parece meio preconceituosa.

Vez por outra, escuto algumas pessoas dizerem que “o povo não gosta de música de qualidade” (referindo-se, de modo pejorativo, a outros estilos musicais, mais populares, digamos assim).

Naquela noite constatei que a afirmação não se sustenta. A fila para entrar no evento (algumas pessoas que estavam sem ingresso aguardavam a desistência de outras para assistir ao concerto), o teatro lotado e a reação entusiasmada da plateia, desmentem tal declaração.

Talvez o que falte seja oportunidade. Afinal, o acesso a esse tipo de manifestação cultural é o que pode determinar se a pessoa gosta ou não desse tipo de música.

Eu, por exemplo, tive acesso a esse gênero musical na fase adulta, na UFRN, onde cursei Letras e trabalhei como revisora de textos por algum tempo. Foi lá que descobri e passei a apreciar a música clássica.

Por isso, entendo quando alguém reage negativamente a esse gênero musical mais elaborado: digo a mim mesma que faltou a essa pessoa uma oportunidade de entendê-la melhor, como aconteceu comigo.

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Andreia Braz

Comentários

4 comments

  1. Sandra Silva 5 maio, 2018 at 10:43

    Perfeito! Seu texto, também didático, exprime com precisão o que falta muitas vezes ao ‘povo’: oportunidade!

    Parabéns por sua escrita!

    Um beijo!

  2. Tereza 7 maio, 2018 at 10:26

    Lendo a frase “Muito do que sou devo a essa escola “, fico feliz em saber que tantos alunos que passaram pelo CEFET, hoje IFRN, tenham se alicerçado e galgado com louvor a vida profissional.
    Vocé é uma delas.
    Tereza Custódio – profa. aposentada do IFRN.

  3. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 12 maio, 2018 at 17:19

    Queria ter assistido. Meu filhote foi com a namorada e adorou! Mais uma bela crônica de nossa poeta do cotidiano em nossa amada cidade do sol (e da música).

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