Uma outra felicidade

Por Vladimir Safatle
FOLHA DE SÃO PAULO

Badiou pergunta o que leva os indivíduos a se disporem a experiências de forte potencial de destruição

“Em suma, toda filosofia, mesmo e sobretudo se ela é suportada por saberes científicos complexos, obras de arte inovadoras, políticas revolucionárias, amores intensos, é uma metafísica da felicidade, ou então ela não vale sequer uma hora de esforço”. Há de se admitir que esta é uma frase que pode parecer um certo lugar comum.

Partamos da hipótese de que a filosofia é impulsionada por um afeto, ou seja, de que haveria um regime específico de afetos que nos levaria a criticar nossos discursos correntes, a nos afastarmos das certezas do senso comum e produzir um “desejo de filosofia”. Spinoza falaria da beatitude, Hegel falaria de um “delírio báquico no qual todos os membros estão ébrios”, Kant lembraria do contentamento. Freud, com sua voz dissonante, preferia denunciar filósofos como sujeitos animados pelo desejo de tapar, de forma meio paranoica, os buracos do mundo. Vários outros, no entanto, apostariam suas fichas na felicidade. Alain Badiou, o autor da frase acima, é um deles.

Autor do recém-lançado “Métaphysique du bonheur réel” (PUF, 88 páginas), infelizmente ainda sem tradução em português, Badiou sabe que falar de felicidade em eras atuais não é um exercício simples. É da felicidade e do direito em procurá-la que mais dissertam os conselheiros midiáticos, psicólogos, publicitários, assim como todos os arquitetos simbólicos da ideologia liberal contemporânea. Por que um dos filósofo mais relevantes do cenário atual, reconhecidamente radicalmente avesso a tal universo, resolveria falar da felicidade com a qual uma certa filosofia nos afetaria, desta “felicidade real”?

Certamente porque um dos eixos fundamentais da experiência intelectual de Badiou pode ser descrita como uma filosofia do engajamento (tema que ele trouxe de Sartre) e da transformação. Perguntando-se sobre as condições para uma filosofia capaz de pensar acontecimentos que nos engajam em verdades com a força de romper a normalidade de uma situação, filosofia capaz de reconhecer sujeitos que não se configuram como indivíduos com seus sistemas particulares de interesses e sua lógica de maximização utilitarista de benefícios, Badiou precisa se perguntar sobre o que leva os indivíduos que nós nos tornamos a se disporem a experiências de forte potencial de transformação e de destruição.

Sua ideia consiste a lembrar como uma certa tradição filosófica abre o caminho para uma felicidade que não é compreendida mais como satisfação doméstica de interesses individuais, como consumo de férias pagas, mas como “a experiência afirmativa de uma interrupção da finitude”, como gozo daquilo que, do ponto de vista dominante das formas de reprodução material de nosso mundo com suas demandas de segurança, é impossível. Daí uma bela afirmação como: toda felicidade é o gozo finito de um infinito”.

Tal reflexão visa problematizar os afetos do indivíduo moderno, todos eles submetidos a um cálculo de “custos e benefícios”. Desta forma, trata-se de insistir que somos, muitas vezes, impulsionados pelo que nos desacostuma de nossa finitude e que se apresenta a nós através de amores intensos que nos despossuem, obras de arte inovadoras que quebram a capacidade de esquematização de nossa imaginação, políticas revolucionárias que nos fazem recusar um mundo que teima em não morrer e saberes científicos complexos, ou seja, através de acontecimentos que, ao mesmo tempo, instauram novas sequências e destroem o que até então vigorou como condições de possibilidade da experiência.

De fato, nossas sociedades liberais tem a percepção da existência de tal afeto, daí porque ela tenta nos vender a imagem de que se tratam de “sociedades de risco”. Mas seus riscos são apenas as perdas, certas para muitos e inexistentes para alguns, pressupostas por um sistema impulsionado pelo ritmo de levas de despossessão econômica e destruição da solidariedade social. Riscos que nunca colocam em questão a lógica de rentabilização e valoração do que nos governa, do que nos ensina que a maior satisfação é aquela que ainda pode ser contada, repetida e acumulada.

Por isto, um simulacro de risco, como será sempre simulado o “risco” que não tem a força de nos colocar fora da lógica de um mundo de finitude contábil. Contra tal simulação, há de se perguntar, como faz Badiou, sobre a metafísica da felicidade real.

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