Uma pintura inacabada

Por Milton Hatoum
ESTADÃO

Arrecifes, um recorte do mar verde e um pedaço do céu de Olinda. Essa era a paisagem que se via do ateliê de José Cláudio da Silva. Quando o artista abriu as outras janelas, tive a impressão de que o ateliê ia flutuar no oceano.

Eu tinha acabado de admirar cinco quadros a óleo que Zé Cláudio pintara durante a viagem que ele e Paulo Vanzolini fizeram à Amazônia. Desenhos, pinturas e histórias dessa expedição amazônica constam no belíssimo livro José Cláudio da Silva: 100 Telas, 60 Dias & Um Diário de Viagem – Amazonas, 1975 (Imprensa Oficial, 2009). Mas Zé Cláudio não queria falar sobre essas pinturas, cuja beleza me fascinava. Me ofereceu caju e cachaça e olhou para o mar, que despejava um cheiro de sal na luminosidade do meio-dia. Depois ele começou a falar de uma outra viagem, desta vez a Madri.

Morava na Espanha e naquela manhã eu passeava na Feira do Livro perto do Prado, disse Zé Cláudio. Parei num quiosque e comprei livros de arte: Goya, Velázquez, El Greco… A vendedora pôs os livros pesados numa sacola e, sem que eu lhe pedisse, pôs também um pequeno volume, que não era um livro de arte. Um presente da nossa editora, disse a moça. Não vi o livrinho, e quando cheguei ao apartamento em La Latina, tocou o telefone. Era uma tia, com más notícias: meu pai fora internado e não passava bem. Consegui viajar para o Brasil na noite desse dia, cheguei a Recife no anoitecer do dia seguinte e fui do aeroporto para o hospital. Meu pai tinha sido operado e seu estado de saúde era delicado. Ainda estava sob efeito da anestesia; em algum momento da noite ele acordou e me reconheceu. Segurei a mão dele e beijei seu rosto.

Meu pai me perguntou, com uma voz fraca e perplexa, se eu não estava em Madri.

A pergunta parecia insensata, mas quando pensei que no dia anterior estava comprando livros ao lado do Prado e agora estava no quarto de um hospital em Recife, pensei também no imponderável da vida e na velocidade com que nos deslocamos. Imaginei um quadro que traduzisse essa ubiquidade, essa quase onipresença de um viajante.

Passei a noite no hospital: uma noite mal dormida, porque ainda estava mareado pela diferença de fuso horário, e surpreso pelas diferenças entre Madri e a minha cidade. Quando acordei, vi meu pai dormindo; na conversa com o médico, soube que o paciente estava sob controle. Disse ao médico e à enfermeira que ia deixar a bagagem em casa e voltaria mais tarde.

Entrei nesta mesma casa, tomei banho, deitei na rede para dar um cochilo, mas não consegui fechar os olhos. Quando subi para cá – este mesmo ateliê -, contemplei uma paisagem semelhante a que estamos vendo agora. Comecei a esboçar um desenho que seria uma pintura; seria, porque nunca acabei de pintar esse quadro. Não sei dizer o que me impediu de terminá-lo. A tela ia ficando mais espessa, com camadas de tinta de cores e matizes diferentes, mas a pintura não se resolvia. Ou não se resolvia dentro de mim. Faltava alguma verdade na configuração plástica, na unidade formal… Mas o que é a verdade na pintura, na arte? Essa tentativa durou meses e foi adiada, talvez para sempre.

E teu pai?

Esse é o ponto, disse Zé Cláudio. O ponto final. Voltei ao hospital no começo da tarde; quando entrei no quarto, fui avisado que meu pai tinha acabado de entrar na UTI. A verdade é que não o vi mais. Quer dizer, não o vi com vida. Tinha levado a sacola com os livros de arte e enquanto esperava o boletim médico, vi reproduções de pinturas e gravuras de Goya, depois pinturas de Velázquez. Por curiosidade, fisguei no fundo da sacola o livrinho que a vendedora me dera de presente. E tudo aconteceu quase ao mesmo tempo. A leitura e a voz. Li o título do livro: Coplas a la Muerte de Su Padre, de Jorge Manrique. Meus olhos arderam quando li os primeiros versos. E logo depois, quando minhas mãos trêmulas ainda seguravam o livro, a voz de uma mulher de branco me deu a notícia mais triste de minha vida.

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