Uma poética da disparidade

Por Silviano Santiago
ESTADÃO

Desde o livro de estreia, Alguma Poesia (1930), Carlos Drummond de Andrade já indicava a chave de sua obra – o caráter múltiplo -, expressa no primeiro texto do volume, o Poema de Sete Faces

O lado dos poemas combativos de A Rosa do Povo (1945), temos os reflexivos de Claro Enigma (1951). Ao lado da prosa ardilosa de Contos de Aprendiz (1953), temos as crônicas ligeiras da maturidade carioca que, como as folhas outonais cantadas por Yves Montand, caem do volume Fala, Amendoeira (1957). O reencontro com quatro livros de gêneros, temas, dicções e propostas tão díspares coloca uma questão complexa sobre a leitura da obra de Carlos Drummond de Andrade no seu conjunto. A disparidade. Como ponto fulcral da obra, a disparidade estava anunciada no poema de abertura de Alguma Poesia, livro com que estreia em 1930. Intitulou-o premonitoriamente de Poema de Sete Faces.

De um lado da disparidade, ressalte-se a disputa crítica sobre a inquietude do homem e do escritor, já lembrada por Antonio Candido, e do outro, a disputa crítica sobre a convivência fraterna na folha de papel das discrepâncias artísticas. Vistas da perspectiva do panorama modernista, ambas as disputas nos encaminham para a tônica da obra. Drummond quis que tanto o homem – corpo e alma – quanto a sua escrita – gêneros, temas, dicções e propostas – fossem, década após década, contingentes e atuais. Pela espinha dorsal do indivíduo e pela medula da arte seria lida a História do século que, desde 1902, tocou ao itabirano viver.

Em Carlos Drummond, a matéria de que é feito tanto o homem humano, para lembrar Guimarães Rosa, quanto a escrita de arte é a mesma – “a vida presente”. E para o trato desta, o gesto por excelência do sujeito em travessia e das palavras em construção poética é o das “mãos dadas”. Leiamos ao pé da letra versos de Sentimento do Mundo: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes / a vida presente”. Outros versos, agora de Esquecer para Lembrar, apresentam o paradoxo de serem escritas no presente as recordações da infância na idade adulta: “- Você deve calar urgentemente / as lembranças bobocas de menino. / – Impossível. Eu conto o meu presente. / Com volúpia voltei a ser menino”. No presente da criança escrevem-se os poemas do velho. Lembrança é também presente.

Mente aberta, disponibilidade para o novo e o diferente, autocrítica misturada com auto ironia, camaradagem e deleite com o instável e o incerto – eis algumas das características de quem, sem medo de renovar-se, pôde sempre apresentar-se ao antigo e ao novo leitor como atual.

A necessidade em compreender as mazelas do corpo no embate com os contemporâneos e o tempo é invocada de maneira brejeira e folgazã em poemas como Dentaduras Duplas: “Dentaduras duplas: / dai-me enfim a calma / que Bilac não teve / para envelhecer”. Já a simbologia proposta pelos dentes podres arrancados a boticão será revista de modo luminar na crônica que abre Fala, Amendoeira. Perto dos 60 anos, o cronista chega à janela do apartamento e cumprimenta a estoica e feliz amendoeira outonal, em nada saudosa da brisa da primavera e do sol do verão. À semelhança do anjo no altar barroco, a amendoeira é a “árvore da guarda” na rua de Copacabana. Ela ensina lição de dignidade ao homem maduro. Tutela-o, sussurrando-lhe: “Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso…” Cada nova fase da vida contraria a última que, por sua vez, fora contrariada pela anterior. Cada novo livro contraria o último que, por sua vez, fora contrariado pelo anterior.

Nos heterônimos imaginados, Fernando Pessoa se apresenta como múltiplo e diverso. Quando se cansa de ser Alberto Caeiro e quer contrariá-lo, inventa ao lado Álvaro de Campos. Quando se cansa de ser este e quer contrariá-lo, inventa ao lado Ricardo Reis. Novo homem, outra dicção poética, outra paisagem mental – poesia variada e incomensurável. Eis aí uma forma notável e invejável de ser contingente e atual. Para não evoluir com a graça e o mistério do corpo único na máquina do tempo, Pessoa se fragmenta e se desloca pelo espaço da literatura como meteoritos. Nas Páginas de Doutrina Estética, ele anota com precisão: “Não evoluo, VIAJO”. As peças da imaginação artística de Pessoa se desarticulam e se fragmentam como as peças do corpo feminino em mãos de Jack, o Estripador.

A obra de Drummond é também disparatada e múltipla, mas Carlos, o sujeito, está sempre a buscar a perspectiva evolutiva – ou histórica, no sentido preciso do termo – que dá sentido às desarticulações e fragmentações que a sustentam. Embora se escrevam pelo viés da “vida presente”, tanto o passado quanto o futuro, tanto a infância e a juventude quanto a maturidade e a velhice existem contraditoriamente como segmentos autônomos. No poema Uma Hora e Mais Outra, alerta e pergunta: “Amigo, não sabes / que existe amanhã?” Mas em Cidade Prevista, poema de A Rosa do Povo em que se declaram os princípios da utopia, escreve: “um jeito só de viver, / mas nesse jeito a variedade, / a multiplicidade toda / que há dentro de cada um”. Quando passa a limpo a si próprio e a vida, Drummond é fiel ao indivíduo e à poesia nas suas traições. Deseja também que o poeta e cada leitor do poema sejam semelhantes um ao outro, embora sejam também indivíduos diferentes e evolutiva e historicamente fragmentados. Como se descobrir diferente, sendo o mesmo? – eis o mistério singular da alteridade que é fundamento de toda e qualquer leitura de literatura. “Teu passo: outros passos / ao lado do teu” – lemos ainda em Uma Hora e Mais Outra.

Na construção da vida e na invenção da obra artística, Drummond aprendeu a dolorosa e sábia lição do finado Brás Cubas. A vida é uma “errata pensante”. Escreveu Machado: “cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida, também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”. Depois do delicioso diálogo do sessentão com a amendoeira, Carlos Drummond nos oferece – através das palavras de Machado de Assis – esta outra e definitiva constatação: “naquele tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, ainda inçada de descuidos e de barbarismos…”.

Descuidos e barbarismos – como liberar-se deles em nova edição? Idêntico processo de atualização e aprimoramento se encontra nas sucessivas versões de um mesmo poema. A primeira versão era enviada a colega ou correspondente ou publicada em revista ou jornal. Mais tarde, ao enfurnar o texto em livro, a versão anterior é corrigida, rasurada aqui e ali, até que sejam encontradas a palavra e a expressão mais justas. “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã”. A palavra certa no lugar certo. Não existe poeta em língua portuguesa que nos tenha legado marcas tão óbvias da diligência e pertinência com que estilo e verso devem ser revistos e aprimorados.

Tome-se como exemplo o poema Notícias de Espanha. Em março de 1946 é publicado solto na revista Leitura. Dois anos depois, ele reaparece na coleção intitulada Novos Poemas. Terminada a 2.ª Grande Guerra, a Espanha ainda se encontra sob a ditadura Franco. Impera a censura. No país europeu ilhado, nada entra, de lá nada sai. Em tal circunstância, que poder pode ambicionar a voz lírica do poeta? Na versão do poema publicada em Leitura, Drummond opta pelo pessimismo. Fala sobre a insuficiência política da poesia: “Mas tenho apenas meu canto, / e um canto é nada”.

Ao organizar o novo livro, quando o poema solto vai-se encaixar ao lado de outros, Drummond está menos cético em relação ao poder político da palavra poética. Em Novos Poemas, Notícias de Espanha precede o elogio do poeta mártir Federico García Lorca, articulador da implosão do edifício franquista e assassinado pela Guarda Civil. Razão a mais para uma errata pensante. A constatação niilista é substituída por uma pergunta: “Mas tenho apenas meu canto, / e que vale um canto?” Vale muita coisa – responde o texto a seguir: “quisera fazer do poema / não uma flor: uma bomba / e com essa bomba romper / o muro que envolve Espanha”. A História europeia deu razão à errata pensante.

Continuemos apenas com o poeta. Diante de autor múltiplo e sempre renovado, como buscar nossa atualidade na móvel atualidade dele? Tarefa complicada. Quem agrada a muitos e, para não se repetir, desagrada a si, se renova, é certo. No entanto, ao se renovar, pode desagradar a uns e agradar a novos. Faca de quatro gumes. Os primeiros poemas enfeixados em livro por Drummond eram anárquico-sentimentais e misturava brejeirice e nonsense com doses de gratuidade e de crítica social ao mundanismo da vida brasileira. Versos como “No meio do caminho tinha uma pedra” conquistaram um público cativo e despertaram caçoadas.

Os livros posteriores trazem poemas cosmopolitas, combativos e esperançosos. De Sentimento do Mundo até A Rosa do Povo, Drummond se engaja na luta contra a ditadura Vargas e o nazi-fascismo, não perdendo de vista o emergente imperialismo norte-americano. Versos como “Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos” conquistaram outros e diferentes admiradores. Com o poeta comungavam o pulsar de “uma pátria sem fronteiras, / sem leis e regulamentos, / uma terra sem bandeiras, / sem igrejas nem quartéis, / sem dor, sem febre, sem ouro…”.

Tais versos são contrariados, por sua vez, em Claro Enigma. O gosto pelo paradoxo já explode no título do novo livro: se é enigma, não é claro; se é claro, não é enigma. Como não contrariar os partidários da revolução socialista com versos como “E como ficou chato ser moderno. / Agora quero ser eterno”? Cansado, o poeta cruza os braços e se adentra pela noite e seus símbolos herméticos. Fabrica uma poesia moderna que, mal publicada, já se quer clássica na forma e na postura. Com belos versos elegíacos, toma de empréstimo a Camões e a Os Lusíadas o episódio da máquina do mundo. Natural que um dos livros seguintes se chame A Vida Passada a Limpo.

Anunciada aqui e ali em poemas como Viagem na Família, a história do clã dos Andrade ganha o palco e logo o centro da cena nos poemas memorialistas da idade madura. Recebem o título genérico de Boitempo. Os grandes temas universais são contrariados pela descrição da vida miúda e farta, condescendente e febril de Itabira do Mato Dentro. Personagens em busca da História são contrariados pelas peraltices do “menino antigo”. Patriarcalismo, religiosidade, vida besta, ordem e emoções de familiares recobrem o terreno antes trilhado pelas ideologias libertárias do século 20.

O mexicano Octavio Paz nos legou uma observação certeira sobre o modo como buscar a nossa atualidade na atualidade móvel do autor do Poema de Sete Faces: “O poema é uma obra inacabada, sempre disposta a ser completada e vivida por um novo leitor”. Os textos díspares de Drummond se prolongam hoje e se arredondam na capacidade que os novos leitores têm de atualizar em diferentes e exigentes experiências de vida seus versos e sua prosa “inacabados”. Que você também se adentre pelos mecanismos caprichosos e sedutores da errata pensante machadiana!

NA FLIP

Carlos Drummond de Andrade será homenageado na 10ª Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorrerá entre os dias 4 e 8 de julho, com palestras e outras atividades. A conferência de abertura ficou a cargo de Silviano Santiago. Ele adiantou que falará sobre a atualidade e o cosmopolitismo do poeta.

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