Uma porta para o infinito

O sentimento de solidão tem sido interpretado de muitas formas. Muito se tem colocado a solidão, não como um puro estar só, mas como uma falta de comunicação. Em tempos em que a comunicação pode prescindir cada vez mais da presença, isso se torna mais lógico. Se existe algum tipo de troca, mesmo não estando juntas no mesmo espaço, as pessoas tendem a sentirem-se menos sozinhas.

Quando penso a solidão como desvantagem, compreendo-a assim. Um agudo sentimento de que não há fala, nem escuta, e muito menos compreensão. Ou quando há fala e escuta, mas isso não se traduz em compreensão. Ou quando não há interesse em compreender. Nesse sentido, a solidão é bem complexa.

Em qualquer outro sentido, também. O significado da solidão “foge a dicionários e regulamentos vários” (no verso de Drummond, é o amor que faz isso, mas acho a solidão muito apropriada para ocupar esse protagonismo). No fim das contas, cada um inventa a sua solidão, cada um lhe põe as vestes, comumente com aquilo que lhe incomoda em face de si mesmo.

Como desvantagem, a solidão muitas vezes nos põe diante daquilo que não apreciamos em nós, nos impele a admiti-lo. A solidão pode nos dar muitos incômodos pelo fato de sermos nós mesmos. E quando não admitimos em nós limitações, equívocos e vilanias, atribuímos injustamente à solidão os nossos incômodos frente a essas limitações, equívocos e vilanias.

Mas, pode-se também pensar a solidão como algo vantajoso, apesar desses momentos por vezes desconfortáveis.

Na música “O silêncio das estrelas” (https://www.youtube.com/watch?v=CR8aGGtT6fA), Lenine e Dudu Falcão ligam o sentimento de solidão a uma busca de si mesmo, que não acontece sem tropeços, mas que pode até se traduzir em epifania. O estado de solidão levando à revelação é central na obra de Clarice Lispector. Essa música se avizinha de muitos textos de Clarice, cuja visão de solidão é essencialmente ligada a procuras e descobertas.

É como sempre gostei de pensar a solidão: como algo que tem mais vantagens do que desvantagens. Mesmo quando ela possibilita esses encontros com a parte não elogiável que todos temos. Talvez por isso mesmo.

Há sentimentos que nos vêm quando estamos sozinhos, na maior parte das vezes incomunicáveis, mas que, paradoxalmente, nos tornam mais irmanados, porque são sentimentos comuns a todos nós e que a todos nos tocam de maneira muito profunda. É disso que fala o projeto “O dicionário das tristezas obscuras”, feito pelo artista John Koenig. Esse trabalho, além de ser uma experiência estética encantadora, é também uma experiência de memórias repentinas e tocantes. Está na internet e eu recomendo.

Nesse dicionário de neologismos, há palavras inventadas para sentimentos que temos dificuldade de nomear, porque também temos dificuldade de explicar. Tristezas, melancolias, nostalgias que nos assaltam, ou nos cercam, ou vêm à tona sem aviso. Minha sensação é a de que tais sentimentos, pela dificuldade de compreensão e pela força com a qual nos tomam, e também por habitarem nossos espaços mais íntimos, conduzem-nos a um estado de solidão. Se são dificilmente nomeados, muito mais dificilmente são transmitidos. Mesmo assim, tais sentimentos nos irmanam, porque sabemos, intuímos, que são como segredos que todos partilhamos.

Lá, na solidão, estão as sensações mais profundamente nossas, enredadas no nosso infinito interior. Em cada solidão, em cada infinito interior, essas sensações habitam, repetindo-se e, no entanto, ocorrendo sempre de maneira tão ímpar quanto únicos somos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 1 de fevereiro de 2016 13:58

    Belo!

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