Uma revolução

Por Cellina Muniz

Qual foi a semente que você plantou?

Todas as manhãs, logo que acordava, soava na mente, feito sino velho, o pensamento de sempre: será hoje o dia da minha revolução?

Mas à medida que corriam as horas, um peso mortal ia lhe pesando sobre os ombros, embaçando-lhe as ideias, congelando qualquer gesto mais impetuoso. Pra quê? – indagava-se, assim que qualquer tímido desejo se esboçasse à sua frente.

– Pra quê?! – espantava-se um dos poucos amigos que lhe restavam – Você precisa é procurar um médico, essa apatia não pode ser normal. Será que nada te comove?

Fim de tarde, os dois tomavam uma cerveja num boteco qualquer na beira da praia. Coqueiros, indiferentes, embalavam-se sob o forte vento de agosto.

– Na verdade, eu sei exatamente do que você tá precisando: é de mulher, meu chapa, você tá precisando é de mulher. Uma boa buceta vai resolver sua questão.

Em resposta, um suspiro. Aquela conversa aumentava ainda mais seu tédio. Porque era mais ou menos isso o que pesava na sua alma – nenhuma vontade de coisa nenhuma. Nem mesmo tristeza era capaz de sentir, mesmo recapitulando os últimos eventos de sua vidinha ordinária. De nada adiantava ter sido preterido na firma por conta de um boy pedante e inexperiente, de ter sido esquecido por um filho que há dois anos não dava notícia de vida, de ter nascido num país onde reinavam mediocridade e esculhambação. Nada disso importava. O vazio era o mesmo e por dentro só uma coisa só – um oco.

Mas o amigo insistia:

– Já chega, meu chapa. Chegou a hora do Zaratustra sair da caverna. Olha ali:

E acenou com a cabeça em direção a uma mesa num canto, onde duas mocinhas, com maquiagem horrenda, lançavam para eles olhares libidinosos.

Na manhã seguinte, os coqueiros continuavam lá. Sentado num dos bancos do calçadão, ele fumava um cigarro amassado, vestígio da noite anterior. Preparava-se para voltar para sua normalidade quando viu.

Na areia, um garotão brincava com dois grandes cães pretos. Pareciam ser da raça pitbull e ostentavam, quase cruelmente, uma vitalidade que contrastava com o sossego da manhã. Corriam de lá pra cá, estraçalhavam restos de um coco largado na praia, avançavam no mar e voltavam, cheios de vida, atendendo aos comandos do dono. Sim, a vida pode ser tão gratuitamente bonita, pensou, pisando a baga do cigarro. E percebeu, ao lado, outra cena:
Um homem, pequeno e encurvado, apreciava o espetáculo. E, mais do que ele, um cachorro ressabiado, escondido entre suas pernas, um vira-lata estropiado de muitas caçadas, também admirava, calmamente, o show dos filhos de Cérbero.

Aquilo sim foi cena comovente. Prontamente sentiu, feito revelação: quero pra mim essa sabedoria.

Uma revolução!

Escritora e professora do curso de Letras da UFRN. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 19 de agosto de 2015 9:56

    Faço das palavras do Tião Carneiro ,as minhas!
    Muito bom o texto da Cellinna. Muito bem escrito , muito bem desenvolvido.
    Agora, penso que devemos não rotulá-los. Pq apesar de serem (potiguares), nesse caso especifico, os dois são radicados em Natal, sobretudo, são escritores brasileiros.
    Mas, entendi bem o que ele quis dizer, e apoio. Sempre bom ler textos literários , em prosa, no S.P., Demétrio Diniz, José de Castro, Lívio Oliveira, vem fazendo isso com mais frequência.

  2. Tião Carneiro 18 de agosto de 2015 23:16

    Valeu, Tácito
    No mesmo dia, Os Cachorros do Sr. Castro e a Revolução da Celina. Estava sentindo falta dos textos potiguares (desse tipo de literatura, diga-se). Fornadas distintas, mas unidas pelo sabor da suculenta prosa. Palmas pra duas. E pros dois literatos.

    Um abraço,
    Tião Carneiro

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