Uma sombra paira sobre a Europa?

Por Gustavo de Castro
(direto de Paris)

“Sim, eu estou convencido de que grupos islâmicos farão uma série de pequenos atentados a partir de agora”. Esta foi a conclusão de Peter Neumann, diretor do Centro Internacional para o estudo da radicalização (ICSR) do King’s College de Londres, em entrevista ao Le Monde. Ao invés de atentados de magnitudes cinematográficas, como foi a do World Trade Center, a estratégia do Al-Qaida e do Estado Islâmico (IE) será a de se perpetuar mediante pequenas ações. Ao invés de ataques ambiciosos que exigem um grande número de participantes, a ideia é proliferar a sensação de que ataques podem ocorrer em qualquer parte, a qualquer um.

Essa forma de disseminar o medo é eficaz quando atinge sobretudo a imprensa que, enquanto instituição, é um alvo bastante poupado e com enorme potencial. Vimos, no Brasil, recentemente, a sede da Editora Abril ser atacada como reação à Veja-pró-Aécio. Atacar a imprensa é uma forma de chamar a atenção da sociedade civil que critica a própria imprensa por que não se vê nesta imprensa. Não são poucos os que acham que a imprensa mundial precisa de uma grande sacudida. Talvez tenha chegado o momento.

Sadi Kouachi, um dos atiradores, em entrevista dada à emissora BMFTV disse que se “vingou”. Entre os muçulmanos, faz parte de seu código de ética a proibição de ofensas ao profeta. Outro dado que chamou a atenção foi que ele não tratou os jornalistas como civis. Por quê não prestamos mais atenção neste detalhe? Kouachi e sua organização entendem talvez a imprensa como braço ‘armado’ (de câmeras e canetas, certamente) do imperialismo americano e do capital financeiro internacional ou talvez do ‘absolutismo’ dos costumes do ocidente?

Creio que seria tolo pensar que Sadi Kouachi tenha se equivocado ao dizer que “não havia matado civis”. Esta observação pouco peculiar sobre a imprensa ataca diretamente a máxima (talvez humorística) da “liberdade de expressão”. Sabemos que essa “liberdade” passa antes por cancelas, porteiras, editores, repórteres, interesses diversos, enfim, um número considerável de pessoas e instituições prontas a determinar o que é liberdade e o que não o é. De que liberdade estamos falando? Será mesmo a de “expressão”? Trata-se da liberdade dos meios de comunicação ou a do cidadão? Há quantos anos a opinião pública e a sociedade civil já descolaram daquilo que compreendemos por imprensa? Desde que existe, a imprensa faz de conta que representa sua sociedade, quando representa, no fundo, outros interesses.

Isto talvez só reafirme o poder soberano da Internet. Kouachi sugere o tema da demonização da imprensa. Principal agente do colonialismo e do pós-colonialismo, sabemos que a imprensa chega junto com todos os processos de poder conhecidos, ora levando, ora sendo levada pelas marés do tempo e da tecnologia. Ao assumir para si o discurso da “liberdade” ela é obrigada a lidar constantemente com todos os tipos de opressões e oprimidos. Mas será mesmo que ela é porta-voz dos oprimidos? O que ela faz? A quem ela serve? O que ela mostra? Este ataque em Paris aparece justamente quando a exigência de regulação de mídia está com pus na ferida, no Brasil.

Os irmãos Kouachi entenderam que o alvo era a imprensa desrespeitosa. “Nos vingamos”, disse Sadi. Para ele o alvo era a violência da imprensa. Contra esta violência, Sadi quis ser mártir, um mártir diferente, que morria por matar jornalistas e cartunistas, por atacar o humor-que-ofende-o-símbolo-alheio. Os mártires de todas as religiões produzem curvas de vento. Terão sido mártires os irmãos Kouachi? Pelo que morreram? Sobre isto, a imagem que me deixou mais perplexo e pensativo durante todo o dia foi a de Amedy Coulibaly, de 32 anos, que corre em direção aos policiais que o alvejam. As imagens captadas no supermercado Kosher, na Port de Vincennes, e divulgadas no site do Le Monde, são fortes: Amedy aparece avançando, de frente, quase de peito aberto, tomando tiros até cair à porta do mercado. Bem diante das câmeras, ele se ofereceu para ser abatido.

Chamou a atenção também que Sadi Kouachi pronunciasse pausadamente “Al-Qaida, do Iêmem”, no telefone, em conversa com a emissora de televisão, dando o endereço de onde vinha a reação. Não bastasse tudo isto, ainda temos agora a figura de uma mulher, Hayat Boumeddienne, de 26 anos, que deixou a França poucos dias antes do ‘circo’ pegar fogo. O pós-colonialismo encontra-se diante agora do pós-barbarismo. Ou de uma nova ‘guerra religiosa’. Talvez um velho tempo se avizinha da Europa travestido de novo tempo. Talvez uma nova sombra (“espectro”) esteja pairando sobre a Europa. Por esses dias, diante de tamanha movimentação policial, em que se ouviu sirenes a todo instante, carros em disparada da polícia nacional, deslocamentos de tropas, motociclistas parando o trânsito, helicópteros e até caveirões circulando pelas ruas de Paris, um jornalista ouviu uma criança perguntar, no sinal, ao pai, o que estava acontecendo. O pai respondeu secamente: “´É a guerra, meu filho.”.

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