Uma tarde no sebo

IV- Histórias de Sebos e Livrarias

Tarde quente de sexta feira prenuncio daquele chope gelado para refrescar a semana que passou. Antes dou uma passadinha no sebo para saber as novidades. No meio daquela bagunça aparentemente não tem nada de novo. Vou garimpando e encontro um livro sobre a minha querida Teresa de A´vila, com textos de Walter Migg e fotos de Helmuth Nils. O êxtase místico dessa mulher é a prova de algo para além de humano e físico. Só a arte consegue escorrer o mármore e nos levar ao sublime. Um anjo na transverberação transpassa o coração de Teresa com o dardo ardente do amor divino.

Encontro um outro livro da década de 50 em capa dura sobre a “Teoria Atômica da Matéria” do grande físico J. Leite Lopes. Colega que tive a oportunidade de conhecer e assistir conferencia. Tudo adverte e interessa. Vou enchendo a sexta e o sorriso do vendedor meu amigo.

Algumas pessoas eu vejo sempre. O galego que aparece todos os dias. compra e vende de tudo. O rapaz calado que gosta de folhear as revistas, seleções e outros livros. O sebo é bom lugar para essas brechadas. A conversa se instala. Chega uma mulher para vender umas revistas e conversa: – Fiquei doente de tanto trabalhar. Lecionava pela manhã, tarde e noite. Adoeci. O corpo não agüenta. De acordo!.

O meu amigo está meio lúgubre e quase vou embora com a sua conversa. Todo sebista é meio filósofo.

– João, será que a vida é só isso? Tudo é muito rápido, filosofa.
– Por isso, temos que deixar alguma coisa. Fazer algo antes de morrer.
– Você já fez, não é?

Sei não. Vou fazendo as coisas sem pensar muito.

A conversa esquenta mais, não bastasse o forno que está fazendo no mês de São José. Esses livros antigos que você gosta são muito carregado0s. Muitas vezes ouço vozes aqui dentro do sebo.

Deve ser os donos-mortos dos livros. Talvez se queixando da venda de seus livros acumulado durante tanto tempo, penso eu. Já saindo para tomar meu chope. Tudo termina num livro e o livro termina num sebo.

A chuva não caiu e o arco-iris só vai parecer no outro dia. Irado, como diz o locutor dos surfistas. Vou embora impressionado com aquelas histórias. E agora, levo ou não os livros?

Ainda no bar, não me sai da cabeça aquela conversa do meu amigo. Não. Não sei se já fiz alguma coisa útil para deixar. Lembro do Bandeira e tomo mais um chope.

“Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . . ”

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Oreny Júnior 30 de abril de 2010 18:39

    João
    Lendo esse texto, viajei nos sebos da nossa terrinha, do Jácio, lá na rua borborema, próximo ao cemitério do alecrim, ele e vera. Certa vez adquirí o LP Paebirú, Zé, Lula Cortes, Elba iniciando. Outra vez adquirí uma raridade, foi de um professor meu, amigo seu, Belchior Vasconcelos, Os Cantos, de Ezra Pound. Raridades, saudades raras. A saudade aumenta quando leio de terras mais que distantes, estou na Bahia, recôncavo sul, próximo a Itabuna e Ilhéus, a cidade romance.
    Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo