Uma utopia possível para celebrar a independência de Natal no Festival da Produção

Entre 15 e 18 de agosto de 1969 aconteceu um show de solidariedade, de amor livre e de contracultura nunca visto na história sócio-cultural do mundo. Woodstock mostrou um show de imprevistos e improvisos na produção de um festival de rock realizado num descampado de uma cidadezinha chumbrega de Nova York para mudar a concepção e a estética de uma década inteira.

O próprio anúncio do evento – “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música” – já demonstrava a pouca pretensão, apesar de alguns astros no line up. E a pacata cidade de Bethel não suportou mais de 500 mil bichos-grilos desembarcando de todo jeito, quebrando cercas e tomando de assalto o festival para celebrar, em um espaço aberto, a paz e o amor por três eternos dias.

Passados 47 anos o que Woodstock tem a nos ensinar? Que nunca mais haverá algo parecido. Mesmo à época foram várias tentativas fracassadas. E hoje os valores da juventude e do mundo são outros. Mas acredito no espaço deixado à contracultura, ao anarquismo e à harmonia coletiva. E nesse prisma chegamos ao Festival da Produção em Natal.

No próximo 5 de março, duas produtoras culturais promoverão um festival de bandas independentes de Natal. Uma festa totalmente colaborativa, sem interveniência alguma do poder público e com ingresso na faixa dos 20 reais. Os quatro malucos que idealizaram o Woodstock também cobraram ingresso. E deu no que deu. Tudo provocado pela aura emanada na época.

Acredito que Natal vive um tempo diferente hoje. Há uma revolta acumulada de descasos culturais combinada à uma cena pulsante de arte independente. Seria nossa revolta contra a Guerra do Vietnã combinada ao espírito hippie. Então, há uma junção de fatores emblemáticos para o nosso Woodstock. E um festival de música realizado no berço da “pacata” Ribeira seria perfeito.

Um exercício utópico de comparações? Se o Woodstock foi um festival longo, o Festival da Produção também será, com 12 horas de música ininterrupta! Ambos mesclam artistas mais e menos conhecidos. Os dois são produções independentes. E para a utopia se concretizar, haveria uma avalanche de pessoas quebrando as portas do Galpão 29 e se espalhando por todo o Largo da Rua Chile numa verdadeira ebulição de música e energia positiva.

E com tanta gente na vibe, a notícia rapidamente se espalharia. E outras bandas chegariam para engordar o caldo. E lá estaria Raul e sua Alcateia Maldita, os dreads de Luisa e seus Alquimistas, a irreverência punk de Giancarlo e os Grogs, a pancada vocal de Júlio Lima, o instrumental alucinante dos Camarones, um revival do General Junkie, Mago Da Silva brincando de se fuder, o Dusouto “fazendo a cabeça” e sei lá, Bethoven tocando Praieira na guitarra!

Seria (ou será?) uma cena histórica para a cidade. E nem precisaria de mídia nacional. Afinal, Natal sempre sobreviveu de seu cosmopolitismo matuto. Bastaria para nós esse momento, essa resposta a tantos anos de desleixo cultural; resposta às rádios e à imprensa desacreditados da cena local. Doze horas – ou três dias – de paz, amor e música. E se caísse uma chuvinha marota para lavar a alma de casais apaixonados seria de boas para uma foto de capa.

OBS: Este blogueiro não quer incentivar a baderna (anarquismo nada tem a ver com baderna).

OBS2: Quebrar as portas do Galpão 29 seria uma alusão à quebra das cercas na fazenda de Bethel, quando o festival findou gratuito. Não necessariamente seria o caso em Natal.

OBS3: Necessariamente se houvesse uma avalanche de pessoas tal qual Woodstock, e com o espírito de Woodstock, sim, este blogueiro desejaria que se quebrassem as portas do Galpão 29 para ficar tudo gratuito, libertário, histórico.

OBS4: Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld foram os responsáveis pelo Woodstock. Luci Ataíde e Haylene Dantas seriam as duas lindas que entrariam para a história de Natal. Isso após o prejuízo financeiro com as portas do Galpão 29 arrombadas.

OBS5: A fan page do Festival da Produção é este. Vai confirmando presença aí!
https://www.facebook.com/events/503801986493095/505701869636440/

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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