Uma vacina longe demais

Eu sei muito bem que você está cansado de ficar recluso em casa. Cansado de pedir delivery. De usar máscara quando alguma urgência te leva a sair de casa. Está com saudades de ver os amigos, as amigas, de sair para uma balada com pessoas que você gosta, visitar os netos e as netas… Cansado de lavar as mãos e higienizar tudo o que lhe chega de fora. Você está farto de não poder bater pernas no shopping, caminhar pelas praças, ir ao seu barzinho, à sorveteria e à sua cafeteria ou ao seu restaurante preferido para jantar.

Sei de tudo isso. Mas sei também que ainda não é hora de abrir a guarda. Você terá que se revestir de um pouco mais de paciência. E seguir com todos esses protocolos que nos levam a estar sempre tensos, às vezes beirando à depressão. Não é uma situação fácil de ser vivida, mas, infelizmente, todos nós precisamos ainda ficar em casa. Usar máscaras. Higienizar tudo. Estarmos atentos.

Afinal, você sabe quantas pessoas próximas a você já foram vacinadas, amigos, amigas, parentes, conhecidos? Eu, até agora, só tive notícias de duas pessoas: uma amiga minha, psicóloga do SUS e um plantonista de um hospital. Apenas duas pessoas próximas a mim foram vacinadas.

E, ao olhar o quadro de monitoramento global do Estado do RN, no site oficial https://maisvacina.saude.rn.gov.br/cidadao/, vejo que, até esse momento em que escrevo, nem 10% da população que se cadastrou foi vacinada, o que significa também que nem 1% da população global do RN se vacinou.

E sei que as doses disponíveis aqui no Estado e no Brasil como um todo,  até o momento, não serão suficientes para alcançar todos aqueles que trabalham na linha de frente de combate à COVID-19. Não conseguirão vacinar todos os profissionais da educação. Não darão conta de atender a todos os que estão acima de 60 anos.

E então? Ninguém jamais imaginou que o Brasil seria o lanterninha da vacinação contra o vírus. Mas somos. Estamos mais do que atrasados nesse processo de imunização. E a curva de mortes continua se elevando. Hospitais superlotados. Médicos, enfermeiros, enfermeiras, todos extenuados pelas longas noites de plantão.  Muitos desses profissionais vem sendo também infectados e dizimados. Faltam leitos nas UTIs. Em alguns lugares falta o oxigênio. Pessoas de todas as idades morrem. E o vírus sorri de tudo isso, dribla todas as vigilâncias, metamorfoseia-se em novas cepas mais graves, silenciosas, esconde sintomas e vai ceifando vidas. E nós aqui ainda esperando que uma gota do líquido milagroso nos seja inoculada no organismo.

E olhamos no horizonte, perscrutamos e percebemos que a vacina ainda está longe demais da maioria de todos nós. O (des) governo atual, capitaneado pelo falso “mito”, vem tomando atitudes criminosas, de forma desavergonhada.

Em artigo recente, a professora Simone Wolff, da Universidade Estadual de Londrina/PR, revela uma cronologia decepcionante e genocida do executivo brasileiro ao recusar participar, em abril de 2020, de uma Aliança Mundial de Vacinas – COVAX, reunindo 165 países, o que garantiria ao Brasil por volta de 200 milhões de doses da vacina e estar entre os 5 primeiros países a começar o processo de vacinação. Revela ainda que em agosto de 2020, a Pfizer ofereceu ao Brasil 70 milhões de vacinas e a resposta que obteve foi o silêncio absoluto. E o descaso e os absurdos continuaram, pois em outubro de 2020 o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello anunciou uma compra de 46 milhões de vacinas da CoronaVac e, em menos de 24 horas, ela foi suspensa por Jair, o falso messias. Cavaleiro do Apocalipse, sim.

Além de ficar em casa, precisamos também ter a consciência de que precisamos erguer a nossa voz contra tudo isso que está acontecendo hoje em nosso país. Não será ainda nos próximos meses que iremos às ruas protestar. Existem outras  formas de nos posicionar contra os desmandos, contra o deboche, que denuncie o mal uso do nosso dinheiro pelo erário que, em vez de investir em compra de vacinas, prefere as latas de leite condensado para fazer, talvez, pudins caramelados com cloroquina e recheados com todo o ódio que destila contra todos os que discordam, contra a imprensa que o denuncia, principalmente.

Não temos um estadista no poder. Mas, sim, um boca suja que só sabe expelir bravatas e palavras chulas que jamais imaginei que ouviria de um (des) mandatário dessa grandeza, aliás, dessa pequenez. Já assinei mais de um pedido de impeachment desse inominável. Fôssemos um país sério e não haveria essa vergonhosa blindagem que o cerca, por cúmplices em tantas instâncias que silenciam e que não tomam as providências que já o teriam alijado do poder há bastante tempo.

Espero que o clamor de todos os que não concordam com esse status quo de absurdos e de vergonha nacional seja efetivado em ações que contribuam para que o “mito” nem chegue às urnas de 2022.

As vacinas que antes nos foram negadas, que foram negligenciadas, ainda estão longe demais da maioria da nossa população, como já foi dito.  Que, em memória das 220 mil mortes por Covid-19, possamos sanear o país dos dois vírus que, numa parceria malévola, nos assolam, nos envergonham e… matam.

Pensando bem, ficar em casa até que não é difícil. O pior mesmo, o que nos tira do sério, é sabermos que o país continua sem leme, sem rumo, caminhando cada vez mais rápido para um colapso inimaginável. E que uma parte da população – sabe-se lá por que… Freud explicaria? – cerca de 35% ainda acham esse (des) governo bom/ótimo… 30% regular… 33% péssimo… E tem os 2% que se omitem.

É preciso ter muita paciência para não se desesperar. O Brasil tem jeito? Espero que sim.

Que a vacina contra esse (des) governo esteja mais próxima de nós do que a vacina contra a Covid-19.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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