Uma vez vanguarda, sempre vanguarda: palavras livres sobre o poema-processo

Poema de Dailor Varela

Por Marcel Lúcio*

O poema-processo é um movimento artístico que, inspirado nas vanguardas do início do século XX e na poesia concreta, propõe a total abolição do verso discursivo no poema e enfatiza o processo de construção e interpretação do texto como aspecto determinante a ser observado na elaboração da obra de arte.

Inicia em 1967 a partir de evento ocorrido simultaneamente no Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro. Surge em período histórico complexo: endurecimento da ditadura militar no país; efervescência produtiva na música popular e no cinema nacional; crise entre tradição e modernidade na literatura. Por isso se classifica como um problema literário e evidencia o fato de possuir uma atitude política frente à realidade social. Tem como representantes, dentre outros nomes: Wladimir Dias-Pino, Moacy Cirne, Anchieta Fernandes e Falves Silva. Em 1972, é proposta uma parada tática para o movimento se repensar e se reinventar. Desde então, os poetas brasileiros, libertos do texto verbal convencional, exploraram de modo ilimitado o universo aberto da poesia visual.

FALVES 1Poema de Falves Silva

Pode até parecer contraditória a afirmação de que o poema-processo ainda se constitui nos dias atuais, 50 anos após o seu surgimento, como uma tendência de vanguarda, pois estamos habituados a pensar que a vanguarda promove a ruptura na linguagem artística, causa impacto e se esvai como uma névoa. No entanto, o poema-processo, pelo seu caráter extremamente revolucionário, mantém-se em pleno século XXI como um atentado à ordem e aos bons costumes na literatura.

Apresentamos “provas concretas” para justificar a tese da permanência do poema-processo como vanguarda: a não inserção do movimento literário no currículo regular dos cursos universitários de letras; a sisudez de críticos, como Antonio Candido e Haroldo de Campos, ao abordarem a poética do processo; um impacto que o poema pautado na visualidade permanece causando ao leitor comum; ah, e a velha polêmica de que o poema-processo não é literatura e sim artes plásticas.

FALVES 2Poema de Falves Silva

Enfim, temos no movimento uma legítima representação da vanguarda. E isso porque ainda não discorremos mais cuidadosamente sobre alguns princípios do movimento. Citaremos apenas dois.

1. Conforme apresentado no manifesto de fundação do movimento, a proposição 67, o Poema-Processo se define como uma “Poesia para ser vista e sem palavra”, ou seja, a base de sua produção poética é o texto não-verbal, capaz de superar a barreira do idioma e permitir uma comunicação universal. Desse modo, estabelece diálogo com outras linguagens como os quadrinhos e o cinema. A palavra se torna dispensável ao poema em prol da construção de uma linguagem universal.

2. A ideia da arte tradicional do “leitor contemplativo” frente ao artefato artístico “canônico e intocável” é questionada pela estética-processo, pois o movimento busca a construção de uma obra coletiva que permita uma posição ativa e participativa do leitor diante do fato artístico, estimulando o fim do individualismo autoral burguês e ocasionando o coletivismo criativo. Esse princípio da criação coletiva também põe em cheque a perspectiva da originalidade única da obra, porque, com a intervenção do leitor, as versões e seu processo de construção se tornam mais relevantes que a própria obra-matriz.

Tendo comentado anteriormente sobre dois princípios do poema-processo, definamos agora o que é literatura de acordo com o pensamento acadêmico mais conservador: texto verbal que produz obra original de autoria de um sujeito individual. Confrontando essa definição com os princípios-processo elencados, podemos perceber que os dois princípios questionam frontalmente o conceito de literatura que ainda hoje adotamos em muitas escolas e universidades.

Cabe ainda assinalarmos que o referido conceito de literatura, com a ideia do “individual” e “original”, traduz para a arte um discurso político que justifica o pensamento social capitalista de nossa sociedade. De modo que, ao questionar os paradigmas do texto artístico, o poema-processo tece por tabela uma crítica ao modelo político e econômico adotado pela sociedade. E assim o poema-processo rasga a definição duradoura e tradicional de texto literário, questiona a ordem política vigente e, ao assumir essa postura crítica, prossegue, à margem, como uma voz de vanguarda estética em pleno século XXI, meio século após a sua configuração.

Uma vanguarda permanente: uma vez vanguarda, sempre vanguarda…

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

15 − quatro =

ao topo