Uma viagem no tempo com Guilherme Arantes

Parecia uma ironia o anúncio logo antes do show: “– Com vocês, o inconfundível Guilherme Arantes!”. Juro que Guilherme Arantes atualmente pode ser tudo, menos inconfundível. Não existiam muitos traços, naquela figura que chegou leve ao palco do Riachuelo, do que se via nos anos 70 e 80. Não era mais aquele garotão cabeludo de visual e gestos andróginos e descolados. Era um senhor calvo dos seus já alcançados sessenta longevos aninhos (frisava que já era avô), que mais parecia um simpático professor de cursinho pré-Vestibular/Enem.

Acontece que, quando o show começou, quando o teclado, o piano (mesmo com um defeito irritante nos pedais), o microfone foram tomados de assalto por Guilherme, tudo mudou de repente. Fomos transportados – destacadamente aqueles que vivemos, bem jovens, a áurea época dos seus grandes sucessos – a um mundo especial, cheio do frescor dos nossos primeiros anos, bombados de paixões e sonhos. A translúcida competência do grande cantor e compositor chegava na horinha exata em que se iniciava sua comunicação fortemente empática com a plateia natalense, boquiaberta com a capacidade de envolvimento e versatilidade do músico paulistano.

Iniciou-se o espetáculo (que durou quase duas horas e meia) com três canções do novo CD “Condição Humana”, que lançou, ano passado pelo selo independente “Coaxo do Sapo”, tendo já alcançado alguns degraus importantes (Prêmio Multishow de Música Brasileira, 2013) e algum reconhecimento de crítica e público. Gosto, especialmente, da terceira canção que executou, que fala das amizades do passado e que se chama “Onde estava você?”. Essa canção ainda carrega a beleza reflexiva dos altos momentos baladeiros de G.A. E o que dizer diante do que aconteceu depois da execução das três primeiras canções que Arantes nos trouxe, pisando em ovos, cuidadosamente? Simplesmente que tivemos todos uma noite histórica e magnífica, mágica mesmo, mesmo que meio encharcada por uma chuva que ia e vinha e que jogava poças azuis e brilhantes no asfalto de Natal.

Certamente a história de G.A. com Natal é bem especial e ele deixou claro isso, falando sobre épocas de férias ou mesmo de trabalho por estas bandas, onde chegou até a compor algumas músicas (“Sob o efeito de um olhar” é um dos exemplos: “O universo vai se abrir/sob o efeito de um olhar/em cada espuma que morreu na areia/em cada estrela alva que nasceu/em cada ave que voou/no céu a lua/especialmente pra nós…”).

Guilherme Arantes, no show do último sábado, estabeleceu uma conexão e uma proximidade especiais com o público daqui, comentando cada uma das canções, contando suas histórias e a própria história que vivia (inclusive com alguns célebres nomes da música nacional e internacional) a cada um desses instantes artísticos. Abriu algumas de suas intimidades, que dividiu generosamente com o público. Tocou, também, em alguns (oportunos?!) aspectos políticos, tecendo fortes críticas à política tradicional e aos políticos profissionais: “– Depois que esses caras chegam aos seus cargos políticos, não querem mais fazer nada e não se lembram sequer que já foram profissionais de outras áreas, quando foram…”. E falou uns etcéteras que talvez não valha a pena trazer para este pequeno texto.

O espetáculo foi mais que completo e, ao fim de uma longa sessão de deliciosas baladas eternas, gigantescos sucessos das novelas dos anos 70/80, abriu-se um fantástico momento “Disco/Dance”, com um hipnótico teclado eletrônico fazendo espalhar “hits” por todo o auditório cruzado de luzes multicoloridas. Canções “energéticas” como “Cheia de Charme”, “Fã nº 1” e muitas outras, com o show se estendendo até, pasmem, à meia-noite. A mulherada do gargarejo amou. Quem foi às noitadas natalenses da “Pool Music Hall”, “Royal Salute”, “Apple”, “Flash” e assemelhadas, principalmente nos 80’s, sabe muito bem do que se trata. E quem foi à maravilhosa viagem no tempo que Guilherme Arantes nos propiciou – nesse sábado mágico em Natal – também.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 18 de setembro de 2014 22:21

    Anchieta e Livio, abraços. Tou melhorando.

  2. Anchieta Rolim 18 de setembro de 2014 12:13

    Marcos, espero que se recupere o mais rápido possível. Um abração, meu irmão!

  3. Lívio Oliveira 17 de setembro de 2014 21:38

    Valeu, Marcos! E muita saúde pra você!

  4. Marcos Silva 17 de setembro de 2014 12:20

    Lívio, reconheço o talento melódico de Guilherme, considero-o fracote como cantor. Ele tem uma canção de um disco posterior ao que vc falou que é bem legal (que fala “deixa chover, deixa a chuva molhar”). Em minha cabeça de mais velho, comparo-o a Lulu Santos, que tem coisas legais (aquela letra com mensagem de fim de mundo) e rende mais em vozes tipo Gal Costa. Não chegam a ser Cazuza nem Cássia Eller ou Marina Lima (ou mesmo as primeiras coisas de Lobinho), que me tocam muito mais. Abraços pra vc e pro Anchieta – comecei a rascunhar umas coisas sobre seus livros e interrompi por causa de doença, espero retomar um dia desses.

  5. Lívio Oliveira 17 de setembro de 2014 11:24

    Marcos, há pelo menos um disco antológico de G.A. O primeiro álbum de estúdio, que foi lançado em 1976, pela Som Livre. Talvez você conheça. Esse disco contribuiu com a minha humilde (mas, acho que sólida) formação musical. Um abraço! E um abraço pro grande Anchieta Rolim, nosso mais entusiasmado comentarista!

    P.S. Sobre a obra de 1976: http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Arantes_(1976)

  6. Anchieta Rolim 17 de setembro de 2014 9:55

    Acho isso muito massa!!! “… Não estou bem certo se ainda vou sorrir
    Sem um traço de amargura
    Como ser mais livre, como ser capaz
    De enxergar um novo dia…” Lívio e Marcos, abraços!!!

  7. Marcos Silva 17 de setembro de 2014 0:01

    Nunca incluí Guilherme entre meus favoritos – sou do tempo dos Mutantes, entendam. Certamente, é um melodista pop talentoso, daqueles que compõem sequencias que grudam no ouvido, família Lulu Santos. Como cantor, considero-o ruim. Gravado por terceiros (Elis Regina, Maria Bethania – et pour cause…), rende muito mais. Agora, deve ser uma delícia pra quem dançou jovem ao som de suas baladas. Eu já era bem crescido quando ele surgiu.

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